As Rifas

Posted: Janeiro 23, 2012 in Blogroll
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Somos um país de pedinchas. Temos os bombeiros nos semáforos, as rifas das escolas ou do clube de futebol, as latinhas para combater alguma doença, as esmolas nas igrejas, as comissões de festa da paróquia, os arrumadores, os vendedores de pensos rápidos, as associações com vários fins, as obras da igreja ou da casa do santo padre, o NIB para minimizar os prejuízos de uma catástrofe, ou o programa das Júlias para comprar uma cadeira de rodas ou um par de muletas.

Eu que não sou nada de caridades ou solidariedades encapotadas, fiquei tão sensibilizado ao saber que o cidadão Cavaco Silva não ganha para as despesas. Cá em casa e em nome de uma crise que o agregado familiar nunca contribuiu, já tivemos reduções salariais, fim dos subsídios de férias e Natal, aumento dos transportes e electricidade e por aí fora.

Mas apesar de todos estes sacrifícios, estamos na disposição de retirar uma percentagem dos nossos miseráveis rendimentos e doá-los ao cidadão Cavaco Silva. Eu e a minha mulher vamos também realizar rifas e pedir a todas as criancinhas que as vendam com fervor de caridade. Vamos rifar no 1º prémio Passos Coelho, 2º prémio Catroga e 3º prémio um bolo rei. Não gostamos de ver ninguém sofrer. E Cavaco Silva tem emagrecido tanto nos últimos meses. Estamos muito preocupados.

 

Amarelo

Posted: Janeiro 18, 2012 in Blogroll
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Acordo Laboral é “mais inovador e audaz” do que previa o memorando com a troika  afirma Pedro Passos Coelho. Do que já li, não vejo nenhumas vantagens para os trabalhadores. Este acordo regride e ultraja os milhões de trabalhadores portugueses e os seus direitos,  próprios de uma sociedade democrática e evoluída.

Que Pedro Passos Coelho e os seus amigos esfreguem as mãos de contentes não me admira. É para isto que eles lá estão. O poder económico e financeiro tomou conta do poder político.O estado servirá agora para servir as estratégias dos patrões e não para cumprir o Estado social. Não entendo como João Proença da UGT assinou este acordo. Será que em consciência a mão não lhe tremeu na hora de fazer o rabisco com o seu nome? Em novembro fez uma Greve Geral? Para isto?  Será que os trabalhadores afectos à UGT não se sentem traídos?

Uma vez o meu pai contou-me a história dos amarelos. A UGT aqui está a confirmar a história.  

 

A Adega

Posted: Janeiro 17, 2012 in Blogroll
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Quando era adolescente queria ser arqueólogo. Falhada a ideia tornei-me fotógrafo. Mas para quem adora História e histórias, e preserva tanto a memória, ser fotógrafo, afinal, é também ser arqueólogo. E naquela tarde de domingo húmido e frio, a memória de quatro paredes pintadas de cor de vinho, recebeu a bênção de um presente inquietante mas acolhedor  e juntou amigos.

Adriana Morais, José Carlos Carvalho, José Manuel Ribeiro, Lara Jacinto, Nuno Fox, Ricardo Meireles, Rodrigo Cabrita e eu, ocupámos uma adega e comemos sopa de peixe, rojões, papas de abóbora e ovos moles, sempre bem regados ou o sítio não fosse em tempos uma boa maternidade do líquido de Baco. Mas mais ou tão importante que aconchegar o estômago, foi a liberdade de pensamento que a todos alimentou a alma. Falámos de Fotografia como seria óbvio.

Naquela adega a caminho dos cem anos, o vinho já não jorra. Jorra agora a tal memória. E é memória que nós vamos agora produzir. Brevemente ouvirão falar de nós.

[Por razões de distância e trabalho, não compareceram à chamada os camaradas Duarte Sá, Vasco Célio, Nuno Veiga e José António Rodrigues. Obrigado a Maria Emília pelo almoço RAW]

Fotografia de José Carlos Carvalho

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Um de Julho de 1989. Pyongyang, capital da Coreia do Norte. vinte e dois mil jovens e estudantes deram início ao XIII Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, organizado pela Federação Mundial da Juventude Democrática que nasceu em 1945 na Conferência Mundial da Juventude realizada em Londres. O último Festival teve lugar na África do Sul em Dezembro de 2010.

O estádio 1º de Maio construído na ilha de Rungra com capacidade para cento e cinquenta mil pessoas, foi o palco solene onde o regime coreano acolheu os jovens de cento e oitenta países incluindo os da Coreia do Sul. Portugal foi representado com mais de uma centena de jovens artistas, desportistas, políticos, sindicalistas e estudantes. Tive a sorte de ser um deles. Ainda não era fotógrafo mas não resisti.

Pyongyang mudou para uma semana de festa. Construções novas, avenidas largas e principalmente, coreanos, muitos coreanos, de sorriso aberto e fraterno prontos a receber o mundo e no mundo participar. Por quase todo o lado existiam debates políticos, acções de solidariedade, concertos (participaram por Portugal a Brigada Victor Jara e os Madredeus), viagens pela Coreia, eventos desportivos, festas promovidas pelos vários países. Os Coreanos participavam intensamente. Era fácil dançar com uma angolana, beber um copo com um indonésio, debater ideias com um americano, ou jogar futebol com um soviético. Os cinco continentes estavam ali, unidos pela união das duas Coreias.

A oito de Julho o presidente Kim Il Sung deu por encerrado o XIII Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes. Uma moldura humana de milhares de jovens coreanos realizou quadros de paisagens e cenas da revolução coreana com pequenas placas de cores alternadas. Com um espectáculo cénico levado ao pormenor, tudo idêntico ao encerramento dos Jogos Olímpicos, a bandeira do Festival foi descendo lentamente do mastro e a tocha foi apagada. Cantou-se “encontraremo-nos outra vez pelo caminho da paz”.

Assim findou a semana heróica dos coreanos. Pyongyang voltou a fechar-se ao mundo. O muro de Berlim caiu a nove de Novembro de 1989. O da Coreia continua de pé.

Amanhã no Público e em Público.pt http://static.publico.pt/docs/mundo/coreianorteadriano/

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Na edição de ontem [02.01.12] do JN e DN ficou provado que o poder da ubiquidade existe. Os aventureiros que se fazem ao banho no primeiro dia do ano estiveram em duas praias ao mesmo tempo. Os mesmos, de calção e peito feito com orgulho patriótico, não fosse o primeiro mergulho realizado com a bandeira nacional ao vento. Afinal, é tudo uma questão de afogamento.

Se leu o DN acreditou que a fotografia de Ricardo Estudante da Global Imagens é da primeira banhoca do ano na praia da Barra em Ílhavo. Mas para quem leu o DN, a mesma fotografia é da primeira banhoca do ano na praia de Carcavelos em Cascais.

Nestes tempos de cortes os habilidosos sempre aparecem. Em nome da sustentabilidade, da crise e do lucro. Desconheço no presente, qual é a linha editorial do JN e do DN no que toca à Fotografia. Certamente os profissionais que trabalham em ubiquidade para os dois títulos, não gostam de vender gato por lebre, ou seja, neste caso, cavala por cherne.

Quando a qualidade do cifrão é mais importante que a qualidade de informar, depressa se escorrega na casca da banana.

2012

Posted: Janeiro 2, 2012 in Blogroll
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Na noite que se sobe para cima de uma cadeira e se cai de bêbado comendo as doze passas, os do costume lá da aldeia fizeram rebentar meia dúzia de foguetes. Continuei enterrado no sofá a ver os gordos que agora são magros embalado pelo já tradicional ressonar  da sogra. E como aquelas velhas máquinas de rebobinar cassetes VHS ao domingo, o meu cérebro reproduziu muitas curtas e longas metragens das minhas loucas ou solitárias passagens de ano. E foi numa que conheci quem agora me atura. Anos eternos para ti!

O Robin dos Bosques

Posted: Outubro 31, 2011 in Blogroll
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Entretidos com os cortes de subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos, pouco se falou da modificação do horário de trabalho, com mais meia hora de trabalho por dia. Hoje ficámos a saber que a meia hora de trabalho extra vai depender unicamente da vontade dos patrões, ou seja, os trabalhadores vão pura e simplesmente ser obrigados a trabalhar mais trinta minutos por dia, o que totaliza quinze dias por ano de trabalho à borla. E pela boa reputação e conduta dos nossos patrões, não é difícil perceber o que vai acontecer. O patrão pode até obrigar o empregado a entrar mais cedo na empresa, a almoçar mais rápido ou a sair mais tarde. Tudo em nome da competitividade.

Acho eu, que é mais em nome da exploração. Trabalho obrigatório e não remunerado é escravatura.  Foi abolida há séculos! E já  falam em reduzir os dias de férias. Passos Coelho no seu melhor, ou seja, o Robin dos Bosques do capital, rouba aos pobres para dar aos ricos.

Portugal desceu ao inferno.

Minas de Moncorvo

Posted: Outubro 24, 2011 in Blogroll
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Quem mandou encerrar empresas, minas, abater barcos de pesca e acabar com a agricultura? Ainda se lembram?

http://static.publico.pt/docs/economia/moncorvo/

Ao Primeiro-Ministro

Posted: Outubro 24, 2011 in Blogroll
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O meu pai era barbeiro. Nas minhas horas vagas sentava-me nos bons sofás da barbearia Miranda
e lia o Jornal de Notícias. Quase sempre a barbearia estava cheia. Respirava-se
liberdade. De tudo se falava. Um dia, um senhor de meia-idade sentado na cadeira
de barbeiro, apregoou bem alto o seu salazarismo impregnado. Desconhecia ele,
ou não, que o barbeiro que com golpes suaves lhe desfazia a barba com a navalha
bem afiada, tinha sido vítima do fascismo de Salazar.

Meu pai ouvia os vivas a Salazar, e calado, manejava a
navalha com a sua perfeição inquestionável. Os outros clientes calados estavam.
Eu dobrei o Jornal de Notícias e irritei-me. Discuti até colocar o senhor de
meia-idade pela porta fora. Exigi respeito ao meu pai e ao meu avô assassinado
por Salazar. Foi a minha primeira indignação política.

Agora quando o vejo na televisão, lembro-me sempre daquele
homem de meia-idade que eu pus pela porta fora. Em si, há algo que cheira a
passado.

Somos uma família de quatro pessoas. Eu trabalho numa
empresa, a minha mulher é professora no Ensino Público e os meus dois filhos
estudam na Escola Pública. Aqui em casa ninguém gosta de si! Apesar de não
gostar de si, também não me sinto enganado. Não votei em si porque não
personalizo a política. Sei a que partido pertence e quanto o seu partido é responsável
por Portugal estar assim.

O senhor é um agente com tarefas bem
definidas. Prometeu a salvação mas nunca esteve interessado em salvar Portugal.
Mera propaganda. Agora, governa para os agiotas capitalistas que como sanguessugas
engordam enquanto destroem sociedades democráticas e equilibradas. O senhor não
tem pingo de humanidade. É frio, calculista e não fala nem pratica a verdade.

Ninguém sabe o que o senhor fez por Portugal para ser agora
Primeiro-Ministro. Foi boy de um partido, pediu desculpas aos portugueses e depois
tirou o tapete a José Sócrates para chegar ao governo sem saber ler nem escrever.
Talvez a história recente de Portugal não lhe interesse. Sabemos que por sua
vontade acabava com manifestações, greves e essas coisas da esquerda. Não lhe
interessa os direitos do povo transformados habilmente em privilégios. Privilégios
têm o senhor e a minoria para quem o senhor governa. O povo, esse trabalha e
está violentamente a pagar a factura da crise. Crise que o senhor evoca, mas
não explica quem a fomentou e fomenta.

O senhor é o pior primeiro-ministro do pós 25 de Abril. Está
a destruir o Sistema Nacional de Saúde, a Escola Pública, as regras laborais, a
fomentar o desemprego, a liquidar direitos e avanços civilizacionais e a
hipotecar o futuro dos jovens e das crianças deste país. O senhor está a
produzir uma sociedade de pessoas tristes, revoltadas e indignadas.

O meu pai era um homem de trabalho. Um homem honesto. Se ao
salazarista, o meu pai ainda lhe fez a barba, ao senhor, nem sequer permitia
que entrasse dentro da barbearia. Lá respirava-se Democracia.

 

Henrique Amaral

Posted: Setembro 26, 2011 in Blogroll
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Todos ansiavam pelo mês de Março. Chegava a Feira. Depois de Américo Tomás cortar a fita, os carrosséis começavam a girar e as luzes a brilharem. E lá estava o Poço da Morte, com os heróis de botas de cano alto a exibirem-se em cima das motos para atraírem o povo.

Henrique Amaral fugiu de casa, a pé, de Mangualde até Aveiro. Atraído pelo Poço que vira em Viseu aos 8 anos, só parou quando conseguiu emprego na Feira de Março, no Poço que tantas vezes lhe roubou o sono. Ficou feliz e foi feliz. Podia ter tido uma vida melhor, mas o que Henrique Amaral queria, era a vida da feira, era viver no Poço da Morte.

Com 82 anos e uma muleta, Ti Henrique voava como um pássaro livre dentro do seu Poço. O cheiro a gasolina invadia os pulmões dos espectadores e o roncar dos motores fazia o Poço abanar. Mas depressa o medo desaparecia ao ver o homem que se transfigurava em cima da sua mota velha e sábia. Como o dono.

A Feira ia fechar e o «melhor espectáculo do mundo em motas» estava a fazer o seu último show. Henrique Amaral ouviu e sentiu as últimas palmas já deitado numa maca do INEM. Ironia do destino, tudo começou em Aveiro e tudo acabou em Aveiro. O Poço da Morte terminou.

Agora Henrique Amaral tem um carrossel de cisnes.

Hoje, no Público P2 com texto de Patrícia Carvalho e no Público P3 com fotos e texto de Adriano Miranda.