Vinte Valores
Julho 4, 2009
É a primeira vez que edito no 400asas uma fotografia que não é da minha autoria. Não pela triste atitude do ex-ministro Manuel Pinho, mas pelo brilhante profissionalismo de Nuno Ferreira Santos.
Nuno é meu colega no jornal Público. Foi o único fotojornalista presente no hemiciclo a conseguir fotografar o acto mais triste de Pinho. Todos os outros falharam.
Mas Nuno não se limitou a dar-nos o prazer de ver a sua fotografia. Todas as imagens do destaque do Público [03.07.09] sobre o estado da nação são de uma acutilância extraordinária. Os deputados a verem a fotografia de Nuno na edição on-line do Público. A outra, Sócrates no centro e o Ministro das Finanças de um lado e do outro uma cadeira vazia.
Isto tem um nome, Fotojornalismo. Nuno soube interpretar na perfeição tudo o que se passou naquela sala do parlamento. Atento, astuto, informado, inteligente e rápido. E porque as tecnologias são para se usar, admito o prazer que Nuno sentiu nas bancadas da Assembleia ao fotografar os deputados a verem a fotografia que acabara de fazer. Uma fotografia checkmate. Uma fotografia de morte.
Confesso que senti alegria como colega de Nuno e como fotojornalista do Público. O meu jornal, meu porque gosto demasiado dele, brilhou como sempre nos habituou. Na Fotografia do Público existe uma regra como o sangue que nos corre nas veias. Temos que ser bons e melhores que os outros. Nuno Ferreira Santos foi e com ele fomos todos nós.
E em tempos de crise em que o papel do fotojornalista está seriamente ameaçado dentro das redacções dos jornais, será bom que quem manda, aprenda com os êxitos e perceba que a linguagem fotográfica é imprescindível na força que é informar. Por mais engenharia financeira que se faça para reduzir custos despedindo fotojornalistas, com a ideia medíocre que fotografar qualquer um faz, nada vai valer a pena. O maior custo será a falta de qualidade e notoriedade, a perda de identidade editorial e o definhamento de leitores.
Nuno demonstrou sabiamente que o caminho não é por aí.
Obrigado.

Insulto
Julho 2, 2009
Em Abril de mil novecentos e setenta e quatro tinha oito anos. A partir do dia vinte cinco comecei a aprender novas palavras como, liberdade, política, comunismo, socialismo, fascismo e até badamerda, palavrão usado por Pinheiro de Azevedo quando era primeiro-ministro se a memória não me atraiçoa.
Não por causa da merda mas muito mais pela liberdade comecei logo a nutrir um grande interesse pela política. Até sonhei em ser deputado. Ministro nunca esteve nos meus horizontes.
Já passaram trinta e cinco anos e nunca me sentei na AR a não ser nas bancadas.. Continuo a gostar muito de política.
Quando li em rodapé no Telejornal que o Ministro das Finanças acumulava a pasta da Economia, não descansei enquanto não descobri o que teria acontecido a Manuel Pinho. Rapidamente a imagem do dia se difundiu no meu ecrã. Rosto desvairado com dedos chifrudos. Bernardino Soares insultado. Deputados insultados. Assembleia da República insultada.
Logo senti saudades de Álvaro Cunhal, Mário Soares e Sá Carneiro.
O ministro da papa Maizena ou da mão de obra barata (declarações na visita oficial à China) mesmo depois do insulto, estava convencido que não seria demitido pelo simples facto de ter safado muitos postos de trabalho. Manuel Pinho tem mesmo sentido de humor.
Agora vai de férias na esperança de safar o seu posto de trabalho numa qualquer administração de uma empresa. Será curioso saber qual.

Gripe
Junho 30, 2009
Com o trauma da queda da aeronave francesa sobre as águas do Atlântico e a pandemia de Gripe A, o meu chefe enviou-me para o México. Confesso que fiquei assustado e em casa quase que tive as malas à porta.
Se da queda nada me salvaria, já da Gripe fui mais que prevenido por imposição responsável da minha entidade patronal. Não me faltaram máscaras, toalhetes com álcool, termómetro e o tão procurado Tamiflu. Fiz as malas com algum receio confesso.
Não rezei porque não sou de rezas mas até o facto de não ter escrito um testamento me perturbou. Mas escrever o quê? A hipoteca da casa? Pensando bem, nada iria acontecer.
Afinal, muita coisa aconteceu.
Cheguei e fui despejado numa cápsula que dava pelo nome de Resort Bahia Príncipe Tulum. Recebido com um show Mariachi e um cocktail com Canapés o luxo parecia estar à minha espera. Anilhado com uma pulseira dourada tive direito a um Tudo Incluído para VIP’s.
Com vida de rico, longe de Sócrates e com o mar do Caribe quase a banhar os pés da minha cama senti-me o homem mais feliz do mundo. O calor abria os poros e despertava as hormonas afogadas constantemente em tequilhas, morritos ou margaritas.
E se a barriga fosse de muito alimento não faltava comida vinte e quatro horas por dia. Parecia estar numa boda, daquelas em que o pai da noiva tem que contrair um empréstimo bancário para alimentar as centenas de convidados que além de trincharem o leitão e o bacalhau com natas, também comem a noiva com os olhos que a terra também há-de comer.
Ver Chichen Itza e Ekbalam, as pirâmides Maia, aquelas que sempre me habituei a ver nos compêndios de História, não foi muito excitante. Milhares de turistas e centenas de vendedores de artesanato quase abafavam as gigantes estruturas. Como dizia Jorge, o guia, aqui a artesania quase sempre é gato e raramente é lebre. Mas o que importa. Em primeiro lugar a nossa mãe ou a nossa tia irão gostar da pirâmide ou da boneca, que ficará muito bem na cozinha junto ao galo de Barcelos ,ou na sala junto a Nossa Senhora de Fátima. E segundo, o dólar ou o euro é negociável.
Bom, mas mesmo bom, eram os banhos na piscina do resort às três da manhã e quase sempre a chover torrencialmente. Estranho porque sempre me disseram que quando chove devemos mantermo-nos resguardados sob pena de contrairmos uma gripe daquelas de caixão à cova. Mas na Riviera Maya a chuva convida a um belo banho seja a que horas forem. E o bar está sempre aberto para uma bela Margarita…
Sei que fiz um pouco figura de parolo. Daqueles portugas, que trabalham um ano inteiro para depois esturrarem milhares de euros em pacotes de uma semana onde ficam de papo para o ar a enfardarem tudo o que lhes aparece pela frente. Depois o vizinho pergunta Então como é o México? É lindo, tem piscinas maravilhosas e come-se muito bem, E as gajas? Ui era com cada americana.
Sou sincero. Fiz figura de parolo. Só houve um dia em que furei o bloqueio da cápsula e parti à descoberta do outro México. Aquele México que só conhece os resortes porque lá trabalha. Aldeias no meio dos mangais com povo carinhoso. Aldeias de pessoas como eu. Pensei, ficaria aqui um mês, um ano.
Quando o avião se fez à pista para atravessar de volta o Atlântico, lembrei-me novamente do testamento. Decidi escrever nas costas do programa da viagem com a esperança que se acontece-se alguma tragédia, este meu testamento fosse encontrado; Que o pouco dinheiro que tenho no banco seja usado para os meus dois filhos conhecerem todas as aldeias do mundo. Beijos. Adriano Miranda.
Regressei sem gripe só um pouco mais bronzeado.
http://static.publico.clix.pt/docs/mundo/agripeinventada/

João
Junho 26, 2009
Já plantei algumas árvores. Já escrevi com imagens alguns livros . Já tive dois filhos. Já poderei morrer descansado.
Hoje o meu filho João passou para o quinto ano. Fui com ele buscar as avaliações. Senti um orgulho contido não fosse o entusiasmo fazer-me gritar em plena sala de aula. Sempre Satisfaz Bem ou Satisfaz Muito Bem. Foi sempre assim desde o primeiro ano. Um Satisfaz nunca, muito menos um Não Satisfaz.
O João é o meu Herói desde que deu os primeiros sinais de vida dentro da barriga de uma mãe vaidosa. Ainda me lembro do segundo em que o conheci. Cara a cara, olhos nos olhos. Estranho o primeiro segundo. Maravilhoso todos os outros minutos, todas as outras horas, todos os outros dias, todos estes anos.
Gosto de olhar o João sem ele me olhar. Gosto de o apreciar. Gosto do seu rir intenso. Gosto da sua infantilidade. Gosto quando se zanga e tem razão. O João é lindo.
No domingo faz dez anos. Vou abraçá-lo. Sentir o seu carinho e desejar que chegue ao três dígitos.

Génio
Junho 10, 2009
O pai de um colega do meu filho João estava desempregado. Todos os dias saía de casa pela sete horas da manhã para que o filho de nove anos não se apercebe-se do drama do pai.
Drama, que só de pensar perturba. Eu sinto um buraco negro. Todos os dias pelas sete horas da manhã tenho a alegria de ir trabalhar. Mantenho a alegria mas o buraco negro em forma de pânico começa a alastrar. Dou comigo a olhar o infinito com uma vontade enorme de ver o futuro passar. Sinto vontade de ser velho, daqueles velhos que sabem que todas as horas de respiração são mais uma vitória sobre a morte. Velho, para já não me poderem despedir. Velho, para ainda conseguir ter reforma. Velho, para ver os meus dois filhos adultos e encaminhados. Velho, para poder morrer com o dever cumprido.
Lutei sempre para ser feliz e nunca pensei chegar aqui. Viver ou sobreviver num país financeiramente selvagem. Cruel na sua economia. Socialmente cada vez mais desumano e imoral. Sinto-me triste e quase derrotado. Impotente.
Fui buscar o meu filho João à escola. Olhei-o de longe. Ele correu em esforço devido ao peso da mochila. Pai, tenho uma surpresa, Qual ? Tirei satisfaz muito bem a Matemática, Parabéns e como correu o de Língua Portuguesa? Correu muito bem e na segunda tenho a Estudo do Meio e já sabes, vai ser cem por cento ou não seja eu o génio. Afaguei-lhe a cabeça e ri de contente. Ele auto-intitula-se o Génio do Estudo do Meio.
São tantos os Génios assim que Portugal necessita. Honestos, sinceros, convictos, trabalhadores, alegres a cem por cento.

Foi Assim
Junho 2, 2009
Ainda me lembro como se tivesse sido hoje. Descia a rua do Carmo quando encontrei o meu amigo Luis Filipe Catarino fotógrafo no jornal Expresso. Fiquei a saber que no jornal Público existia uma vaga para um fotógrafo.
Disse ao Catarino que não tinha jeito para essas coisas do fotojornalismo, mas ele insistiu. Telefona, Para quem? Para o Luís Vasconcelos, Vou tentar…
Foi no Campo das Cebolas que coloquei a moeda no telefone público e ouvi a voz de Vasconcelos. No dia seguinte entrei na redacção do Público pela primeira vez. Estava nervoso e senti o cheiro a tabaco que me atrapalhou a voz. Luís Vasconcelos olhou as minhas fotografias e perguntou Porque é que só agora apareces-te aqui, Não sei, acho que sou tímido, Quando podes vir para cá? Bem, já? é que me vou casar, Então casa-te que depois eu telefono-te.
Luís foi um homem de palavra. Telefonou numa tarde e na manhã seguinte já estava a contrair matrimónio pela segunda vez, agora com o Público.
Já são treze anos de casamento sem adultério. Gosto do Público.

Um Novo Blog do Público
Junho 1, 2009
O Rio Alviela transbordou repentinamente. Luís Filipe Sebastião, meu colega redactor, chorava e tremia ao volante do seu velho Peugeot. A água estava quase a imobilizar o carro. Gritava-lhe, com a porta aberta para ver o nível da água a subir, “Dá acelerador e embraiagem ao mesmo tempo”.De repente, centenas de ovelhas atravessaram-se no nosso caminho. Estavam a morrer afogadas. Os pastores sofriam. Saltei do carro e deixei o Sebastião a chorar. Fotografei até a água me dar pela cintura. Por fim, ajudei a salvar ovelhas.Fiz uma das minhas primeiras páginas. Fiquei feliz. Pela manhã agarrei o Público com afinco. Esqueceram-se de assinar a fotografia!Ainda cá estou!
ADRIANO MIRANDA

5%
Maio 22, 2009
Hoje estava dentro do carro e um velhote passou. Com a bicicleta pela mão que as pernas já não ajudam, e com a pele enrugada pelo sol e pela terra, deu-me os bons dias com um ar fraterno. Respondi da mesma maneira e perguntei Então a vida corre? Vamos vivendo um dia de cada vez. Amanhã estaremos cá. Vamos ver, pelo menos em pé. Pois, deitados é que não, respondi eu olhando aquele corpo magro, mal vestido e com a história da vida sofrida bem estampada no rosto. No rádio a notícia de que o Banco de Portugal recuou nos aumentos salariais de Victor Constâncio fez com que os meus olhos olhassem o homem da bicicleta pela última vez.
Por lapso o governador do Banco de Portugal não viu o seu salário ser aumentado 2,1% em 2008. Por isso em 2009 seria aumentado 2,9% e corrigido o engano de 2008, ou seja, era aumentado 5%. Com ele também Amado da Silva, administrador da ANACON e Manuel Sebastião administrador da Autoridade da Concorrência e ex- governador do Banco de Portugal, seriam também contemplados com 5% de aumento salarial.
Nos tempos que correm não sei o que podemos chamar a estes 5%. Os quinhentos mil desempregados, os milhares de precários e os dois milhões de pobres, saberão adjectivar bem Victor Constâncio e companhia.
Será que sabem o que é andar com a bicicleta pela mão?

Comer
Maio 15, 2009
O David Lopes Ramos que me desculpe mas no sábado cometi um pecado. Jantei num restaurante que por nada deste mundo ele recomendaria.
A sala era enorme. Cabiam lá trezentas bocas. Pagámos por cabeça doze euros e comemos e bebemos como nobres romanos em noite de deboche e luxúria. Durante duas horas os maxilares do povo não pararam. Entre o agora leitão e o já vou ao camarão, um arroto, um esfregar de barriga, uma taça de espumante e já provas-te o polvo, já lá vou que agora estou no bacalhau. O povo comia e na mesa do lado um homem agarrado à picanha não largava a mão da amante. Ela tinha estampado nos olhos a noite que a esperava enquanto trincava eroticamente o copo de vinho tinto. Um grupo de homens talvez tenha comido um leitão. E entre o esgaçar da carne, os olhos dos homens não paravam de comer a tatuagem que embelezava o fundo das costas da empregada. Noutro canto um homem solitário entregava-se ao branco. Com o palito no canto da boca cerrava os olhos como o caçador na hora da mira.
O povo transpirava. Uma mulher de cavas e de mamas fartas trocou o grão-de-bico pelo arroz de feijão para não engordar. Um empregado baixo e barrigudo não parava de trocar os pratos e em pequenos papéis espalhados pelas mesas podia-se ler, proibido levar comida para casa.
A música começou com um órgão a debitar sons de vários instrumentos. As mulheres foram bailar e os homens continuaram a malhar. O presunto é mesmo bom, vai buscar mais uma de espumante, e enquanto umas bailavam e outros malhavam, nos quatro plasmas crucificados nas paredes o Benfica continuava a perder.
O povo continuava alegre e naquela sala de trezentas bocas ninguém pensava na crise, no Sócrates e muito menos em Leite, no desemprego ou no Benfica. De barriga cheia o povo era feliz.

O Metalúrgico e O Economista
Abril 30, 2009
Eu sou daqueles jovens, a cara ainda dá para enganar, de que gosta e acredita na política. Não uso o chavão que todos são iguais e o que querem é tacho. A prova são os debates que temos assistido entre os principais candidatos ao Parlamento Europeu. Melo, Rangel e Vital acusam-se mutuamente. Como o meu avô dizia têm rabos de palha. São só os três partidos, casados, divorciados ou solteiros que nos governam desde o 25 de Abril.
Ilda e Portas marcam a diferença. Nunca foram governo. Ilda nunca arranjou casamento e Portas divorciou-se do PCP e tenta agora contrair novo matrimónio.
Eu gostava que o Sr. Metalúrgico e o Dr. Economista se juntassem. Não tinha qualquer dúvida na hora de colocar a cruz. Mas a esquerda portuguesa teima em construir muitos namoros mas com poucos frutos. E o fruto que Portugal necessita é que a esquerda se junte. Se não se unir eu já decidi em toda a linha [Europeias, Autárquicas e Legislativas] que o Borda d’ Água nos tempos que correm, é a opção certa para melhores colheitas.

