Deportação Para Timor

13 Jan

ASM DEPORTADOS TIMOR ASM DEPORTADOS ASM DEPORTADOS TIMOR

ASM DEPORTADOS TIMOR

 

Reportagem de Ana Cristina Pereira e Adriano Miranda, hoje no Público

http://www.publico.pt/portugal/noticia/desterro-em-timor-a-saga-da-familia-miranda-1580503

Os 12

15 Dez

121212 LARA JACINTO

O telefone tocou. Do outro lado da linha estava José Carlos Carvalho. Desliguei o corta relvas e ouvi com saudade um camarada de outros tempos. Carvalho disse-me que o ano de 2012 ia ser terrível e desafiou-me a desafiar a crise. Aceitei na hora, sem hesitações nem recuos. Estava entre os 12. E os 12 eram uma boa forma de eu fugir às rotinas de um fotojornalismo muitas vezes pobre e medíocre, cercado de ministros e de buracos, onde por vezes o buraco é muito mais estimulante que os buracos dos ministros.

O 12.12.12 fez-se ao asfalto e ao trabalho. No início foi um oceano de ideias. Depois vieram milhares de quilómetros, resmas de emails, paletes de telefonemas, horas de reuniões e o mais importante, toneladas de fotografias. Podemos em surdina ou na mais reservada tertúlia criticar muita coisa, mas o 12 teve uma virtude que ninguém se atreve a negar; numa profissão muitas vezes desunida, excelente no uso de ferramentas mas desgarrada de ideias e prisioneira de agendas, o 12.12.12 uniu fotojornalistas, produziu um conceito e chegou até bom porto, o que nos leva a estarmos todos aqui.

Não foi um caminho fácil. Somos 12 portugueses, uns sem emprego, outros precários, um ou outro com o desemprego na mira, alguns com reduções salariais e até um que levou à letra as últimas recomendações do Presidente da República e se dedicou à agricultura. Em jeito de conclusão, somos 12 remediados que todos os dias lutam e sobrevivem. Mas foi por sermos gente de povo, que quisemos fotografar o nosso povo. Tínhamos o propósito, a missão se quisermos, de documentar o pior ano da nossa história recente. Conseguimos e fomos extremamente honestos.

Quem consome imagem sabe como a miséria é fotogénica. Sabe como se explora quem não nos pode fazer frente. Como é fácil ser um ladrão de consciências. E os 12 entraram nas entranhas do vulcão, muitas vezes com os olhos molhados e o pensamento revoltado. Vivemos e conhecemos o mais cruel e miserável Portugal do século XXI. E o resultado está aqui diante de vós. O 12.12.12 não se resume a um só livro de fotografia. É muito mais. É um livro para se ir admirando, para se ir descobrindo. E também para se ir lendo. Para se ter na mesa-de-cabeceira e nos fazer pensar e não sonhar com realidades que não existem. Podemos analisar até à exaustão todas as linhas e conceitos estéticos de cada imagem. Podemos procurar no famoso pixel o mais leve defeito técnico. O que importa a técnica perante o sofrimento humano? O que devemos sentir em cada folha, em cada página, é o respeito com que todos e todas foram fotografados. A mais bela das estéticas está na dignidade.

Temos um livro com alma e coração. Aliás, foi feito de alma e coração. Estamos os 12 mais ricos. Não de milhões que todos os dias nos são debitados pela Troika, pela banca, ou na televisão, mas ricos de conhecimentos e afectos. É impossível sermos os mesmos. Por tudo o que vimos e sentimos, sabemos hoje que vivemos num palmo de terra desnudada de esperança, onde os cogumelos venenosos crescem a cada passo, para destruir vidas sonhadas e realizadas. Vivemos em terra minada.

Não fui à tropa. Nunca dei um tiro. Acho mesmo que nunca peguei numa arma. Disparar só mesmo com a máquina fotográfica. Se isso ajudar a afastar os obreiros da desgraça aqui estou eu. Pronto, para fazer os meus disparos.

José Carlos Carvalho, está atento, porque agora sou eu que te vou telefonar. Afinal, eles mentiram, e agora dizem que 2013 vai ser pior que 2012.

Obrigado a todos por despertarem em mim o sentimento da indignação.

 

fotografia de Lara Jacinto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cogumelos

27 Set

Num simples clic no sítio do Público, fiquei a saber que o governo estuda cortes nos tratamentos mais caros para o cancro, sida e doenças reumáticas. Fiquei colado ao meu maravilhoso sofá. Cortar em tudo menos nos ricos, que esses, mesmo que a doença lhes bata à porta sabem bem onde se tratar.

Comecei a ler a notícia para tentar descobrir fundamentos que me convencessem, apesar de achar difícil. Ora que descobri, que existe em Portugal um iluminado, Miguel Oliveira da Silva, presidente do Conselho Nacional da Ética para a Ciência da Vida que defende “que o racionamento nos medicamentos deve alargar-se aos meios complementares de diagnóstico, como as ecografias, as TAC e as análises”. Diz o Doutor que ” Portugal não continue a comportar-se como se fosse um país rico (…) vivemos numa sociedade em que, independentemente das restrições orçamentais, não é possível em termos de cuidados de saúde todos terem acesso a tudo”.

Não sei como é que este senhor foi nomeado Presidente de algo sobre Ética e Ciência da Vida. Mas Ética e Vida são palavras que não lhe assentam muito bem.

O meu avô morreu de cancro. O meu pai morreu de cancro. O meu sogro morreu de cancro. O meu tio morreu de cancro. Duas primas minhas têm cancro. Eu morro de medo de um dia a notícia me bater à porta. Talvez o iluminado me diga, aliás está a dizê-lo, que não faça um TAC ou uma eco de prevenção, e se um dia tiver um cancro que seja dos mais demolidores para eu morrer depressa e assim poupar uns cobres ao Estado.

Não é difícil adivinhar porque Portugal chegou até aqui. Se alguém ficou conhecido na nossa história recente por ter metido o socialismo na gaveta, já à muito que se enfiaram os Direitos Humanos numa gaveta bem maior. E agora é moda não respeitar a Constituição. A saúde é um direito de todos e para todos.

Os iluminados andam por aí. Crescem como cogumelos. Dos que destroem o fígado e acabam por matar. Quem nos manda a nós, reles povo, comer cogumelos? Haja decência!

A Legitimidade do Tacho

25 Set

Marques Mendes, do alto do púlpito da demagogia, gritou que Passos Coelho soube ouvir o povo ao retirar a TSU. Mendes quer a todo o custo remediar o que não tem conserto e tirar dividendos para o PSD daquela massa humana que dá pelo nome de Povo. Se Passos governasse para o Povo, nunca apresentaria tais medidas de austeridade. Passos, foi sim, obrigado a recuar…até segunda-feira. Passos Coelho e uma grande maioria do PSD e CDS têm uma visão muito estreita de Democracia. Para eles a Democracia esgota-se na urna. Mas Democracia vai para além do voto, e no dia 15 de setembro a resposta foi dada.

Bem pode Passos e Portas escudarem-se na legitimidade eleitoral e proclamarem a estabilidade governativa. Não há estabilidade em qualquer parte do mundo quando os direitos estreitam e a fome aumenta. Existe sim, por parte de Passos e Portas a estabilidade do tacho. E a memória por vezes é curta, mas todos nós nos lembramos o que Passos e Portas prometeram nas eleições. O contrário do que praticam. Em política a mentira é antagónica da legitimidade.

E como lobo vestido de coelho, veio agora Passos anunciar as alternativas à TSU. Alternativas do mesmo. Fez-me lembrar aqueles quatro velhotes que jogam à sueca e que são mestres na arte do macete. Baralham de forma a ficar tudo na mesma. Consigo mesmo imaginar uma suecada entre Passos, Portas, Gaspar e Relvas. Passos é batoteiro, Portas está sempre à espreita, Gaspar rouba nos pontos e Relvas não percebe as regras mas usará o popular jogo para uma qualquer equivalência.

Portugal não pode continuar agarrado a incompetentes, mentirosos, insensíveis e a jogadas de bastidores. Estamos à beira do fim. Venha a vassoura por favor.

Onze + Vasco Célio

24 Jul

Os homens parecem bonecos articulados em frente à massa de fogo que corre livremente. Vasco enfrenta também o fogo. Está ombro a ombro com os combatentes de labaredas. Mais uma vez o jornal Público [22.07.2012] coloca na primeira página uma fotografia dos 12. Vasco Célio.

Conheço o Vasco há muitos anos. É um resistente. Poderia, como muitos, ter apanhado o comboio na estação de Faro rumo a Lisboa. Mas não. Foi teimoso. Quis ficar. E assim, lutar contra a centralidade e afirmar-se como um grande fotógrafo algarvio. Ainda bem que Vasco não se juntou ao rebanho da capital. Ganhou ele e ganhámos todos nós, apaixonados por esta coisa que é a fotografia. Vasco é a prova que existe caminhos alternativos.

Mas o Vasco também é a prova que os doze que formam o 12, foram bem escolhidos. Contratados. São fotógrafos todo o terreno, informados, atentos e que estão lá, no ministro, no buraco ou no incêndio. São subtis no olhar e rápidos no pensamento. Os 12 não estão a fotografar para um livro. Os 12 fotografam todos os dias para muitos livros, os da imaginação, da informação, da emoção e com o coração.

O Vasco é um deles.

fotografia de Vasco Célio

www.121212.pt

Onze + Duarte Sá

20 Jul

A ilha está a arder. Duarte Sá está lá. Como esteve em Fevereiro de 2010 quando a lama e a água andaram à solta. O jornal Público de hoje [20.07.12], publica na primeira página uma fotografia de Duarte. A noite iluminada pelas gigantes chamas, e os homens, pequenos, assistem impávidos e impotentes como se estivessem a admirar o fogo-de-artifício de Alberto João.

Tudo arde num fogo sem piedade. As pessoas choram o suor de uma vida reflectida como espelho – a casa, o carro. Uns enfrentam a onda laranja amarelada com míseros baldes e finas mangueiras. É o tudo por tudo. Noutros, não existiu balde ou mangueira que lhes valesse. O suor foi seco pelas chamas.

A festa de Chão da Lagoa foi adiada. Mas mais importante que a missa de Alberto João, são os tijolos que cozeram pela segunda vez e as árvores que não voltam a dar sombra. Duarte Sá saberá bem de que lado estará. É um 12.

fotografia de Duarte Sá

www.121212.pt

Onze + Nuno Veiga

12 Jul

Rua do Comércio. Sem comércio. Moribunda esperando pela morte que espreita a cada esquina, a cada montra, a cada balcão. E nas fotografias de Nuno Veiga somos transportados ao passado e levados a adivinhar o que terá sido aquela rua e todas as ruas do Alentejo. Vemos a menina com sua mãe a comprar vestidos de chita. Agrários sentados no café Alentejano e a praça repleta de camponeses, recrutados por uma moeda para desventrar a terra. Podemos ver o ardina com a notícia da revolução. A camponesa a comprar os livros da escola agora obrigatória para os seus filhos. E no café Alentejano as mesas, as chávenas e a palavra livre são de todos e para todos. Na praça vende-se gelados e balões.

Podemos ver o Alentejo nas fotografias de Nuno Veiga. Rostos de rugas teimosas, a teimosia da sobrevivência impõe-se à razão do mercado. Ou a teimosia da saudade. Já não há balões nem gelados. Tantas vezes sonhados e depois concretizados. Agora temos ruas vazias de lojas vazias. E bem lá no alto temos a placa que diz Rua do Comércio Antiga Rua da Cadeia. Talvez seja tempo de voltar ao nome antigo neste tempo da prisão da felicidade.

fotografia de Nuno Veiga

www.121212.pt

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