Doze Vezes

Dezembro 22, 2009

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Armando

Dezembro 2, 2009

A face oculta de Armando Vara.

Famosos

Novembro 29, 2009



Quando comecei a estudar Fotografia nunca pensei em ser Fotojornalista. Assim como ser Fotógrafo foi por mero acidente de percurso, ser Fotojornalista foi outro acidente, este já próprio da vida sem a mesada dos pais.

Mas sou sincero, sonhava no banco da escola ou no laboratório fotográfico com as fotografias do Capa e do Korda. Parei de ler romances e pela noite dentro deixava-me surpreender a cada virar de página com as fotografias de grandes Fotógrafos. Sonhava e fotografava cada vez mais.

No fim do Curso baptizaram-me com o nome de Fotógrafo. Achava que não merecia tal título e ainda hoje acho. Por vezes faço as contas aos anos que carrego este título só para ver se chego aqueles números, os vinte ou os vinte e cinco, que as pessoas gostam de assinalar. Aos cinquenta já vai ser difícil e aos cem quem cá estiver que resolva. Mas gostava de fazer uma exposição retrospectiva, para sentir as palmadas nas costas e oferecer autógrafos a metro. Depois dos croquetes, encerrava-me sozinho, e embrulhado nas minhas Fotografias dizia para os meus botões, Grande merda Adriano.

Na sexta-feira estive doze horas à porta de um tribunal só para fotografar um famoso a entrar e a sair. Já perdi as horas e os dias que fiquei lá de plantão a fotografar arguidos, os tais famosos. E no meio de uma valente degustação a uma sandes de queijo que trouxe de casa, lembrei-me do Capa, do Korda e da merda que ando a fazer.

Continuo teimosamente a fotografar. Tenho um sonho oculto.

As histórias de lobos maus continuam a ouvir-se pela serra da Nave. Para a maioria da população é incompreensível que o parque eólico possa estar em causa por causa do impacto na preservação. “O mais importante são as ventoinhas.” Quem conhece o terreno pede que se ponham no lugar os animais: imaginem que vos metem um aerogerador no quarto. Em causa estão os seis lobos sobreviventes da alcateia de Leomil.

Catarina Gomes (texto) e Adriano Miranda (fotografia), P2 29 de Novembro de 2009

http://static.publico.clix.pt/docs/local/emterradelobos/

Renato

Novembro 6, 2009

O Benfica realizou uma conferência de imprensa para apresentar um jogador novo. Este foi um dos meus primeiros trabalhos como fotojornalista. Como podem imaginar foi muito estimulante. Fotografar uma conferência de imprensa e ainda por cima de bola. Mas a vida nem sempre é perfeita. Ainda cá estou.

Mas lembro-me que um fotógrafo chegou atrasado à dita conferência e já não fotografou o novo jogador a assinar uns papéis, julgo eu, que aqueles papéis seriam o contrato. Vale Azevedo também assinou. Com voz alta, o fotógrafo interrompe a conferência de imprensa e solicita que voltem a assinar os papéis, ou seja, que simulem que os estão a assinar, para ele fotografar. E assim foi.

Fiquei a pensar e cheguei à conclusão que aquilo não era fotojornalismo, ou se o era, era daquele, muito mas mesmo muito mau. Qual era a diferença de ter o jogador a assinar uns papeis ou a fazer o pino no relvado já com a camisola das águias ao peito? Qual é a nossa responsabilidade em interferir no que está a acontecer?

Eu se pudesse andava a fotografar de patins em linha. Só para ser rápido e silencioso. Gosto que ninguém se dê conta que ali estou. Gosto de me adaptar às situações. Gosto de analisar. Gosto de esperar. Gosto de enfrentar. Gosto de estar perto. Gosto de não perturbar.

Estou ali diante do que tenho para fotografar. Esqueço a técnica para ela não me atraiçoar e brinco com a máquina sempre em busca da imagem que me há-de consular o ego. Não me aborreço se ficou magenta ou tremida se tiver uma imagem com alma, com garra.

Estive dois dias em Valença por causa do surto de Gripe A. Lembrei-me do fotógrafo que não quis falhar as assinaturas depois de as já ter falhado. Vi colegas ao meu lado a pedirem aos enfermeiros para simularem novamente que estavam a ser vacinados, a meninos para colocarem máscaras a outros para não rirem…

Num primeiro instante fiquei perplexo mas depois desci à terra. Olhei o Renato infectado com o vírus H1N1 e brinquei com a minha máquina fotográfica. Ele sorriu por debaixo da máscara e disse, por uns minutos sou famoso. És tão famoso quanto eu, respondi.

Pela  manhã do dia seguinte enviei o Público pelo correio ao Renato.

RENATO

Recortar Anúncios

Novembro 5, 2009

O meu professor de Estética falava imenso de um novo jornal. Chamava-lhe Público. Com grande entusiasmo dizia que ia ser uma revolução. Teria duas edições, a de Lisboa e a do Porto, o que à vinte anos atrás era um desafio enorme. Já não me lembro do nome do meu professor. Só que era baixo, gordo e um excelente professor.

Fiquei curioso e não faltei à chamada. Comprei o número um do Público.

O meu primeiro contacto com jornais foi de tesoura em punho. Não pertencia à censura nem sabia o que isso era. Não sabia ler. Mas adorava espalhar no chão  aquelas folhas enormes do Jornal de Notícias e recortar os anúncios, as notícias, as fotografias. Fazia questão de cortar direitinho. Sem falhas. Depois, amarrotava tudo e deitava no caixote do lixo. Fiz isto durante anos até que comecei a ler. Está bem presente na minha memória como invejava os fotógrafos que fotografavam futebol. Achava eu que eram uns privilegiados pois viam os meus heróis, o Damas e o Yazalde, sem pagar bilhete.

Quando recortava os anúncios de necrologia, quando invejava os fotógrafos de futebol ou quando ouvia com prazer o meu professor de Estética, a minha imaginação nunca foi fortemente criativa, ao ponto de me fazer sonhar com um lugar numa qualquer redacção. Mas por ironia da vida ou do destino, há mais de uma década que todos os dias entro na redacção do Público.

Já não recorto anúncios, mas conto-os em cada edição porque são eles que nos pagam os salários. Já não invejo os fotógrafos de futebol porque sei que fotografar futebol é redundante e maçador. E agora, sou eu como professor que falo do Público com entusiasmo aos meus alunos.

O Público tem uma nova Directora. Uma nova Direcção. Depois de grandes dificuldades o melhor diário português quer renascer, quer ser o melhor. Sente-se no ar que uma nova revolução está a chegar. Estou feliz pelo nosso Público.

Sempre acreditei no meu professor de Estética.

ADRIANO MIRANDA

Afogar a Mágoa

Outubro 29, 2009

Não gosto de estar sempre a malhar no pedaço de terra onde nasci. Dizem que sou português. Acredito mas não sinto nada. Não sou patriota.

O jornal Público escreveu que o ditador Franco tinha um plano para invadir Portugal. Eu só pegaria em armas para defender a terra onde nasci porque o invasor era fascista. Só por isso.

Se hoje as tropas espanholas rompessem a nossa fronteira, assobiaria para o lado e depois aplaudia.

Traidor? Talvez sim ou talvez não. Que me importa.

Tentei afogar-me mas a raia deu raia.

adriano miranda

Assisti no Liceu Camões em Lisboa ao último acto eleitoral de Álvaro Cunhal. Estava já cego. Acompanhado, esperou na longa fila para votar. Quando chegou a sua vez, entregou ao Presidente da Mesa o seu BI, o seu Cartão de Eleitor e o atestado médico que atestava a sua incapacidade visual para exercer o voto sozinho. Aceite pela Mesa Eleitoral, Álvaro Cunhal dirigiu-se juntamente com a pessoa que o acompanhava à cabine de voto e aí exerceu o seu direito.

No passado Domingo lembrei-me da última vez que Álvaro Cunhal votou. Fui para a freguesia de Ermelo onde se realizaram as eleições Autárquicas com uma semana de atraso devido aos tiros de caçadeira do cabeça de lista do PS à Assembleia de Freguesia de Ermelo.

Com um frio cortante, velhos, novos, homens e mulheres chegavam para votar. Só se formou uma ligeira fila cinco minutos antes da missa. Muitos votaram sem Cartão de Eleitor, sem documento de identificação. Muitos outros nem sequer se dirigiram à cabine para votar. Alguém o foi fazer por eles. Muitas vezes eram os próprios elementos da Mesa que perguntavam, Tia Joaquina quer ajuda, Pode ser, Dê cá os papéis que eu deito por si.

Nunca vi atestados médicos, pois não haveria nenhum médico que atestasse qualquer incapacidade aos novos e velhos que por ignorância ou pressão, se deixaram manipular e entregaram o destino da sua cruz a outros.

Fiquei perplexo. Comentei o facto em voz baixa a um colega. Disse-me que a Democracia para aquelas bandas tem outro conceito. Achei piada e mais piada achei, é que das três televisões a realizarem directos, a tantos outros jornalistas de jornais locais e nacionais, ninguém se referiu a esta tremenda chapelada.

Hoje ouvi José Mota, ex-presidente da Câmara Municipal de Espinho a denunciar outras tantas chapeladas nas últimas eleições Autárquicas em Espinho. Lembrei-me de Ermelo e confirmei o que já sabia, existem muitos democratas em Portugal, os que têm a democracia na gravata e a ditadura na cabeça.

Mil novecentos e setenta e quatro. Foi já há tanto tempo e ainda estamos assim!

adriano miranda

Acabou

Outubro 16, 2009

Finalmente acabaram. Três actos eleitorais em tão curto espaço de tempo iam dando comigo em louco. Em primeiro lugar, porque me fartei de correr atrás dos candidatos e em segundo lugar, porque não senti alegria com os resultados.

Tanta coisa e continuamos a ter Sócrates como Primeiro-Ministro mas agora na versão dialogante. Continuamos a ter Rio na versão arrogante. Costa foi quem me deu alegria apesar da hora tardia. Com a ajuda dos comunistas lá deu um pontapé no sempre em pé que é Santana.

Fui a comícios, fui a megas jantares e a gigantes arruadas. Só me faltou as feiras mas até agradeci. Estive em apertos, apanhei banhos de suor e de maus cheiros. Fotografei milhares de beijos, ouvi barbaridades. Venha o Tony Carreira que está perdoado!

Depois chegava a casa, ligava a televisão e lá estavam os marretas (sempre os mesmos) dos analistas políticos que sabem tudo e não sabem nada. Por vezes são mais fúteis que As Tardes da Júlia.

Na minha caixa de correio, aquela que só serve para receber as contas para pagar no fim do mês, que saudades eu tenho de uma carta de amor, recebi uma carta do Presidente da Junta. É um daqueles dinossauros que nada faz e por isso a freguesia que gere é das mais mal tratadas do país. Escreveu que todos devem votar, mas se for nele melhor. Para o próximo mês vai começar as obras que a freguesia tanto necessita. Fiquei sem respiração porque muita merda já me tinham deixado dentro da minha preciosa caixa do correio, mas o senhor Presidente foi longe de mais ao pensar que eu sou um mentecapto. Mais de vinte anos como Presidente de Junta e só depois de uns dias das eleições é que vai começar as obras?

Sem espanto de todos o senhor Presidente ganhou as eleições.

Igual a ele, só um taxista do Porto que me disse que vivia noutro planeta. Perguntei qual. Vila Nova de Gaia, disse ele. E depois continuou. O Menezes é o maior. Dizem que endividou a Câmara, quero lá saber, não sou eu que vou pagar. Ó senhor, de manhã a minha rua até cheira a perfume.

Fiquei a pensar que o taxista também podia ser um bom Presidente de Junta, só neste planeta claro, que é Portugal.

RUI RIO

ELISA

MISERIA

Sr. Jerónimo

Setembro 25, 2009

Tenho a sorte de perceber mais de política do que de futebol, o que no nosso país nem sempre é uma grande vantagem. Também sei que quanto mais me esforço para entender a política caseira, mais confuso e desiludido fico. Mas apesar de desiludido procuro forças para não me desinteressar.

Sei que o meu futuro e o dos meus filhos dependem dos homens fazedores de política. Mas também nós, os receptores dessa política temos uma palavra a dizer, nem que seja no dia de votar. Nunca ponderei deixar de o fazer. E como no domingo não quero brincar aos votos, demorei a decidir em quem votar. Perdi horas, ou ganhei horas, em frente da televisão a ver os debates. Li jornais. Vi telejornais. Vi os Gatos Fedorentos. Mas também confesso que mandei logo reciclar os papéis do Portas e da Manuela que teimosamente me iam depositando na caixa de correio. Não votar na Direita é ponto de honra.

Estes últimos quatro anos foram terríveis aqui em casa. Os juros a aumentar. O desemprego sempre à espreita a cada mês que passava. E se já não bastava, a minha mulher é Professora… Poderá imaginar o que pensamos do José.

Mas o voto não se decide só porque se assiste ao agitar das bandeiras para as câmaras de televisão em quinze dias de campanha. É necessário não perder a memória. Eu sei que não apareceu só agora a defender o povo. Sempre o tem feito. Mas esta campanha eleitoral demonstrou que é caloroso, emotivo, expressivo, sincero, espontâneo, coerente, genuinamente português como disse Luís Delgado na SIC.

Um amigo disse-me Que se lixe o Marxismo, eu gosto do Jerónimo e vou votar nele. Talvez eu não deite totalmente fora o trabalho do filósofo do século XIX, mas concordo com ele.

Sr. Jerónimo, (como é bom tratá-lo por Sr. e não por Dr. ou Eng.) domingo o meu voto será seu. E o da Professora revoltada também…

Obrigado por ser do povo. Não nos desiluda.

blog jeronimo