Renato
Novembro 6, 2009
O Benfica realizou uma conferência de imprensa para apresentar um jogador novo. Este foi um dos meus primeiros trabalhos como fotojornalista. Como podem imaginar foi muito estimulante. Fotografar uma conferência de imprensa e ainda por cima de bola. Mas a vida nem sempre é perfeita. Ainda cá estou.
Mas lembro-me que um fotógrafo chegou atrasado à dita conferência e já não fotografou o novo jogador a assinar uns papéis, julgo eu, que aqueles papéis seriam o contrato. Vale Azevedo também assinou. Com voz alta, o fotógrafo interrompe a conferência de imprensa e solicita que voltem a assinar os papéis, ou seja, que simulem que os estão a assinar, para ele fotografar. E assim foi.
Fiquei a pensar e cheguei à conclusão que aquilo não era fotojornalismo, ou se o era, era daquele, muito mas mesmo muito mau. Qual era a diferença de ter o jogador a assinar uns papeis ou a fazer o pino no relvado já com a camisola das águias ao peito? Qual é a nossa responsabilidade em interferir no que está a acontecer?
Eu se pudesse andava a fotografar de patins em linha. Só para ser rápido e silencioso. Gosto que ninguém se dê conta que ali estou. Gosto de me adaptar às situações. Gosto de analisar. Gosto de esperar. Gosto de enfrentar. Gosto de estar perto. Gosto de não perturbar.
Estou ali diante do que tenho para fotografar. Esqueço a técnica para ela não me atraiçoar e brinco com a máquina sempre em busca da imagem que me há-de consular o ego. Não me aborreço se ficou magenta ou tremida se tiver uma imagem com alma, com garra.
Estive dois dias em Valença por causa do surto de Gripe A. Lembrei-me do fotógrafo que não quis falhar as assinaturas depois de as já ter falhado. Vi colegas ao meu lado a pedirem aos enfermeiros para simularem novamente que estavam a ser vacinados, a meninos para colocarem máscaras a outros para não rirem…
Num primeiro instante fiquei perplexo mas depois desci à terra. Olhei o Renato infectado com o vírus H1N1 e brinquei com a minha máquina fotográfica. Ele sorriu por debaixo da máscara e disse, por uns minutos sou famoso. És tão famoso quanto eu, respondi.
Pela manhã do dia seguinte enviei o Público pelo correio ao Renato.

Recortar Anúncios
Novembro 5, 2009
O meu professor de Estética falava imenso de um novo jornal. Chamava-lhe Público. Com grande entusiasmo dizia que ia ser uma revolução. Teria duas edições, a de Lisboa e a do Porto, o que à vinte anos atrás era um desafio enorme. Já não me lembro do nome do meu professor. Só que era baixo, gordo e um excelente professor.
Fiquei curioso e não faltei à chamada. Comprei o número um do Público.
O meu primeiro contacto com jornais foi de tesoura em punho. Não pertencia à censura nem sabia o que isso era. Não sabia ler. Mas adorava espalhar no chão aquelas folhas enormes do Jornal de Notícias e recortar os anúncios, as notícias, as fotografias. Fazia questão de cortar direitinho. Sem falhas. Depois, amarrotava tudo e deitava no caixote do lixo. Fiz isto durante anos até que comecei a ler. Está bem presente na minha memória como invejava os fotógrafos que fotografavam futebol. Achava eu que eram uns privilegiados pois viam os meus heróis, o Damas e o Yazalde, sem pagar bilhete.
Quando recortava os anúncios de necrologia, quando invejava os fotógrafos de futebol ou quando ouvia com prazer o meu professor de Estética, a minha imaginação nunca foi fortemente criativa, ao ponto de me fazer sonhar com um lugar numa qualquer redacção. Mas por ironia da vida ou do destino, há mais de uma década que todos os dias entro na redacção do Público.
Já não recorto anúncios, mas conto-os em cada edição porque são eles que nos pagam os salários. Já não invejo os fotógrafos de futebol porque sei que fotografar futebol é redundante e maçador. E agora, sou eu como professor que falo do Público com entusiasmo aos meus alunos.
O Público tem uma nova Directora. Uma nova Direcção. Depois de grandes dificuldades o melhor diário português quer renascer, quer ser o melhor. Sente-se no ar que uma nova revolução está a chegar. Estou feliz pelo nosso Público.
Sempre acreditei no meu professor de Estética.

Afogar a Mágoa
Outubro 29, 2009
Não gosto de estar sempre a malhar no pedaço de terra onde nasci. Dizem que sou português. Acredito mas não sinto nada. Não sou patriota.
O jornal Público escreveu que o ditador Franco tinha um plano para invadir Portugal. Eu só pegaria em armas para defender a terra onde nasci porque o invasor era fascista. Só por isso.
Se hoje as tropas espanholas rompessem a nossa fronteira, assobiaria para o lado e depois aplaudia.
Traidor? Talvez sim ou talvez não. Que me importa.
Tentei afogar-me mas a raia deu raia.

Cruzes Antes e Depois da Missa
Outubro 21, 2009
Assisti no Liceu Camões em Lisboa ao último acto eleitoral de Álvaro Cunhal. Estava já cego. Acompanhado, esperou na longa fila para votar. Quando chegou a sua vez, entregou ao Presidente da Mesa o seu BI, o seu Cartão de Eleitor e o atestado médico que atestava a sua incapacidade visual para exercer o voto sozinho. Aceite pela Mesa Eleitoral, Álvaro Cunhal dirigiu-se juntamente com a pessoa que o acompanhava à cabine de voto e aí exerceu o seu direito.
No passado Domingo lembrei-me da última vez que Álvaro Cunhal votou. Fui para a freguesia de Ermelo onde se realizaram as eleições Autárquicas com uma semana de atraso devido aos tiros de caçadeira do cabeça de lista do PS à Assembleia de Freguesia de Ermelo.
Com um frio cortante, velhos, novos, homens e mulheres chegavam para votar. Só se formou uma ligeira fila cinco minutos antes da missa. Muitos votaram sem Cartão de Eleitor, sem documento de identificação. Muitos outros nem sequer se dirigiram à cabine para votar. Alguém o foi fazer por eles. Muitas vezes eram os próprios elementos da Mesa que perguntavam, Tia Joaquina quer ajuda, Pode ser, Dê cá os papéis que eu deito por si.
Nunca vi atestados médicos, pois não haveria nenhum médico que atestasse qualquer incapacidade aos novos e velhos que por ignorância ou pressão, se deixaram manipular e entregaram o destino da sua cruz a outros.
Fiquei perplexo. Comentei o facto em voz baixa a um colega. Disse-me que a Democracia para aquelas bandas tem outro conceito. Achei piada e mais piada achei, é que das três televisões a realizarem directos, a tantos outros jornalistas de jornais locais e nacionais, ninguém se referiu a esta tremenda chapelada.
Hoje ouvi José Mota, ex-presidente da Câmara Municipal de Espinho a denunciar outras tantas chapeladas nas últimas eleições Autárquicas em Espinho. Lembrei-me de Ermelo e confirmei o que já sabia, existem muitos democratas em Portugal, os que têm a democracia na gravata e a ditadura na cabeça.
Mil novecentos e setenta e quatro. Foi já há tanto tempo e ainda estamos assim!

Acabou
Outubro 16, 2009
Finalmente acabaram. Três actos eleitorais em tão curto espaço de tempo iam dando comigo em louco. Em primeiro lugar, porque me fartei de correr atrás dos candidatos e em segundo lugar, porque não senti alegria com os resultados.
Tanta coisa e continuamos a ter Sócrates como Primeiro-Ministro mas agora na versão dialogante. Continuamos a ter Rio na versão arrogante. Costa foi quem me deu alegria apesar da hora tardia. Com a ajuda dos comunistas lá deu um pontapé no sempre em pé que é Santana.
Fui a comícios, fui a megas jantares e a gigantes arruadas. Só me faltou as feiras mas até agradeci. Estive em apertos, apanhei banhos de suor e de maus cheiros. Fotografei milhares de beijos, ouvi barbaridades. Venha o Tony Carreira que está perdoado!
Depois chegava a casa, ligava a televisão e lá estavam os marretas (sempre os mesmos) dos analistas políticos que sabem tudo e não sabem nada. Por vezes são mais fúteis que As Tardes da Júlia.
Na minha caixa de correio, aquela que só serve para receber as contas para pagar no fim do mês, que saudades eu tenho de uma carta de amor, recebi uma carta do Presidente da Junta. É um daqueles dinossauros que nada faz e por isso a freguesia que gere é das mais mal tratadas do país. Escreveu que todos devem votar, mas se for nele melhor. Para o próximo mês vai começar as obras que a freguesia tanto necessita. Fiquei sem respiração porque muita merda já me tinham deixado dentro da minha preciosa caixa do correio, mas o senhor Presidente foi longe de mais ao pensar que eu sou um mentecapto. Mais de vinte anos como Presidente de Junta e só depois de uns dias das eleições é que vai começar as obras?
Sem espanto de todos o senhor Presidente ganhou as eleições.
Igual a ele, só um taxista do Porto que me disse que vivia noutro planeta. Perguntei qual. Vila Nova de Gaia, disse ele. E depois continuou. O Menezes é o maior. Dizem que endividou a Câmara, quero lá saber, não sou eu que vou pagar. Ó senhor, de manhã a minha rua até cheira a perfume.
Fiquei a pensar que o taxista também podia ser um bom Presidente de Junta, só neste planeta claro, que é Portugal.



Sr. Jerónimo
Setembro 25, 2009
Tenho a sorte de perceber mais de política do que de futebol, o que no nosso país nem sempre é uma grande vantagem. Também sei que quanto mais me esforço para entender a política caseira, mais confuso e desiludido fico. Mas apesar de desiludido procuro forças para não me desinteressar.
Sei que o meu futuro e o dos meus filhos dependem dos homens fazedores de política. Mas também nós, os receptores dessa política temos uma palavra a dizer, nem que seja no dia de votar. Nunca ponderei deixar de o fazer. E como no domingo não quero brincar aos votos, demorei a decidir em quem votar. Perdi horas, ou ganhei horas, em frente da televisão a ver os debates. Li jornais. Vi telejornais. Vi os Gatos Fedorentos. Mas também confesso que mandei logo reciclar os papéis do Portas e da Manuela que teimosamente me iam depositando na caixa de correio. Não votar na Direita é ponto de honra.
Estes últimos quatro anos foram terríveis aqui em casa. Os juros a aumentar. O desemprego sempre à espreita a cada mês que passava. E se já não bastava, a minha mulher é Professora… Poderá imaginar o que pensamos do José.
Mas o voto não se decide só porque se assiste ao agitar das bandeiras para as câmaras de televisão em quinze dias de campanha. É necessário não perder a memória. Eu sei que não apareceu só agora a defender o povo. Sempre o tem feito. Mas esta campanha eleitoral demonstrou que é caloroso, emotivo, expressivo, sincero, espontâneo, coerente, genuinamente português como disse Luís Delgado na SIC.
Um amigo disse-me Que se lixe o Marxismo, eu gosto do Jerónimo e vou votar nele. Talvez eu não deite totalmente fora o trabalho do filósofo do século XIX, mas concordo com ele.
Sr. Jerónimo, (como é bom tratá-lo por Sr. e não por Dr. ou Eng.) domingo o meu voto será seu. E o da Professora revoltada também…
Obrigado por ser do povo. Não nos desiluda.

Trinta e Três Anos de Música Fiada
Setembro 24, 2009
Em trinta e três anos os músicos foram estes:
1976, Mário Soares, PS
1978, Mário Soares, PS
1978, Nobre da Costa, PSD-CDS
1979, Mota Pinto, PSD
1980, Maria de Lurdes Pintasilgo
1980, Sá Carneiro, PSD
1981, Pinto Balsemão, PSD-CDS-PPM
1981, Pinto Balsemão, PSD, CDS, PPM
1983, Mário Soares, PS, PSD
1985, Cavaco Silva, PSD
1987, Cavaco Silva, PSD
1991, Cavaco Silva, PSD
1995, António Guterres, PS
1999, António Guterres, PS
2002, Durão Barroso, PSD, CDS
2004, Santana Lopes, PSD,CDS
2009, José Sócrates, PS
Em trinta e três anos o PSD esteve no governo dez vezes, o PS seis vezes, o CDS cinco vezes e o PPM duas vezes. E Portugal está assim?

As Caravanas
Setembro 24, 2009
Existem dias assim. As caravanas encontraram-se na rua de Santa Catarina no Porto. O meu cartão de memória ficou com 4G de bloco central. Não descansei enquanto não o formatei, não fosse algum vírus liquidar a sua memória.
O povo foi-se arrebanhando na praça. O rosa e o laranja. Apupos. Empurrões. Uma bandeira laranja espezinhada. Depois cuspida com saliva de raiva. Por fim incendiada. Vai pró caralho, Seu filho da puta, Rebento-te todo. Dois velhos frente a frente. Nariz com nariz. Um rosa outro laranja. Ambos de faces vermelhas. Calma, Calma a merda, Estiveram quatro anos a gamar.
Ai a cabra que me apertou o pescoço, PSD,PSD,PSD, Anda cá que eu fodo-te, PS,PS,PS, Olha já aí vem a Manuela, Manuelaaaaaaaaaa, Vai-te embora, Vitória, vitória. E Manuela quase não se segurava com tantos encontrões, beijinhos e criancinhas.
Sou PS,PS,PS gritava uma velha em cima de um banco de jardim. Não me empurrem merda, Cuidado, Calem essa velha. Manuela descia a rua com sorriso de frete e um homem gritou Queres é tacho. Manuela continuou até desaparecer.
Na praça os rosas acalmaram ao som da música do saxofone. Os famintos do saco de plástico e do porta-chaves não davam tréguas às jovens rosinhas. Camaradas, já está a chegar. José sai do carro e é logo atacado com abraços e beijos. PS,PS,PS, Vitória, vitória, Ai deixem-me tocar-lhe, Caralho de confusão, Abram, abram, Deixem-no passar. Seguranças fazem uso dos seus braços.
Vamos ganhar, caralho. José parece cansado mas ri para todos. Ergue o punho. Fecha os olhos. Um jovem fura entre velhos exaltados e grita Ladrão, estou desempregado. É afastado mas José ouviu. José continuou até desaparecer.
Um taxista abre o vidro e grita Querem é mama, são todos iguais.
Manuela e José são.




Famintos
Setembro 22, 2009
Os carros chegam. Param em segunda fila. De lá saem jovens apressados. O povo mal vê o primeiro saco agita-se. Os jovens pedem calma. Ao som das cornetas que debitam música fanhosa, começam a abrir as caixas de papelão.
O povo está faminto. Correm. Atropelam-se. É de borla. Estendem as mãos, riem, apertam-se num sufoco para alcançar uma camisola, uma caneta, um porta-chaves, um boné, uma bandeira, um saco de plástico, um papel. Depressa o chão fica com um novo tapete. Um tapete de papéis pisados e amarrotados com a fotografia do líder.
E o líder aparece. O cenário está já montado. O povo está faminto e contente. Já ganharam uma caneta. O líder vai e vem. Aperta um, beija outra. Olha para as câmaras e procura uma criança. O povo está em frenesim. Gritam. Já têm um porta-chaves.
E o líder discursa. Diz adeus. Os pneus do carro chiam. O povo está faminto. Descem a rua e continuam famintos. Uns de pão. Outros de hospitais. Muitos de emprego. Tantos outros de salários. Imensos de reformas. Todos eles famintos de felicidade.
Lá longe outros chapéus já estão a ser enfiados. O líder está feliz. Os famintos lá estão.

A Bilha
Setembro 22, 2009
Tinha uns cinco anos quando tive o meu primeiro contacto com o vinho. O meu avô mandou-me ir à adega encher a bilha de inox . Antes de abrir a torneira da pipa e fazer jorrar o líquido vermelho escuro, jorrei o pouco vinho que ainda estava na bilha na minha pequena boca. Conclusão, não bebi nada e quem se consolou foi a minha camisola branca que ficou ensopada em vinho.
Ao entrar na cozinha o meu avô só se riu a bom rir e a minha mão só gritou e não me bateu. Desde aí nunca mais tive a tentação de me consolar com o líquido dos adultos. E também não sei quando perdi a virgindade com um bom copo três. Lembro-me de participar nas vindimas, do cheiro intenso e belo das uvas americanas. De entrar no lagar e pisar, de ajudar a preparar os pipos e de engarrafar. Lembro-me que a casa do meu avô era uma casa farta, de tudo, até de afectos.
Não percebo nada de vinhos. Mas mesmo nada. E fico zangado. Desde que trabalho no Porto fotografo muito vinho, muito Douro, muitas provas. Fico a olhar como o burro para o palácio, para os orgasmos que os peritos em vinho têm ao meter um copo na boca. Primeiro fazem dançar o vinho dentro do copo, cheiram e depois saboreiam e dão um gemido como um uuummmhhhh. E discutem a temperatura ideal, os paladares as frutas até silvestres, se casa bem com carne ou peixe, que custa uma garrafa mais de mil euros. Falam das castas castelão, aragonez e trincadeira, deixam o vinho abrir, se é suave, aveludado ou agreste. Mas mais incrível, é que se fartam de beber e nunca ficam alegres, ou seja, bêbados.
Passei este fim de semana nos copos. Fui até à maravilhosa cidade de San Sebastian para me consolar com a comida do famoso chefe Mikel Gallo e com os vinhos do Douro. Lá estavam os especialistas do prato e do copo. E no meio de tantos gemidos e considerações ao vinho, eu lá fui bebendo sem sujar a minha camisa branca, a única coisa que aprendi desde que fui à adega do meu avô.
