Marmitas

A Marmita

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De segunda a sexta a mala de cabedal viajava sempre no banco de trás do Skoda vermelho. O meu avô João deixou a arte de fazer pão para ser operário fabril em busca de uma melhor vida. E conseguiu. Bastante.

A pasta, assim lhe chamava, feita pelas suas próprias mãos, levava pão, vinho, marmita, fruta, talheres, palitos e um guardanapo de pano para o almoço ou para o jantar consoante os turnos. Na volta, trazia uma garrafa de Laranjina C para o neto.

Agora eu levo todos os dias uma mochila para o emprego. Lá dentro vão os talheres, iogurte, fruta e a marmita. Se o meu avô conseguiu melhorar a sua vida, a única justificação para continuar a levar a sua pasta, eram os bons cozinhados da minha avó. Ao contrário do meu avô a minha vida piorou. É a minha única justificação. O jantar dá para o almoço do dia seguinte e o almoço estica até ao jantar. Conforme os turnos.

A marmita do meu avô era de alumínio. A minha é de vidro. Vidro transparente. Coxa, costeleta ou peixe espada. Tem dias. O meu avô comia com gosto na cantina da fábrica. Eu engulo revoltado na sala de reuniões que à hora de almoço se transforma em cantina.

Já disseram que eu sou um gajo de sorte. Tenho emprego. Batemos no fundo. Emprego não é um direito mas uma sorte. Como uma rifa que nos calha. É graças a esse emprego que ainda consigo decorar a marmita de vidro. E ter uns trocos para o Passe Social. Ao preço que ele está não entendo porque continuam teimosamente a chamar-lhe de Social. Olho a paisagem sem surpresas. Está memorizada a cada quilómetro. E quando o comboio pára no fim da linha, adivinho que nas costas ou nas mãos de imensos companheiros de viagem, vão marmitas de costeletas, coxas ou carapaus. Como é fácil hoje adivinhar.

À saída da estação desvio-me de charters de Estado Social. São reformados alemães, franceses, ingleses ou holandeses que se deslumbram pelas ruas da cidade. Um deslumbramento de vidas felizes. Europeus como nós, mas só na bandeira das estrelas. O nosso encantamento fica por molharmos num domingo soalheiro o cu nas águas frias da Apúlia. Não devemos gastar o que não temos. Foi esse o nosso mal, segundo o Primeiro.

O homem do trompete troca umas notas por umas moedas. Sabe bem aquela música. Vou a passo largo para o emprego. Olho as capas dos jornais. Crise política, Cavaco, Passos, Portas e Seguro, a esquerda desunida, Troika, remodelação, mercados, Bolsa, ganhos e perdas, eleições, arco do poder, comentadores, analistas e politólogos de partido único, jornalistas que se esqueceram que o são, corrupção, Relvas, BPN, Salvação Nacional, merda…

Como alguém disse com a cabeça mergulhada na marmita raspando o último osso, Fodei-vos, senhores!