A Legitimidade do Tacho

Marques Mendes, do alto do púlpito da demagogia, gritou que Passos Coelho soube ouvir o povo ao retirar a TSU. Mendes quer a todo o custo remediar o que não tem conserto e tirar dividendos para o PSD daquela massa humana que dá pelo nome de Povo. Se Passos governasse para o Povo, nunca apresentaria tais medidas de austeridade. Passos, foi sim, obrigado a recuar…até segunda-feira. Passos Coelho e uma grande maioria do PSD e CDS têm uma visão muito estreita de Democracia. Para eles a Democracia esgota-se na urna. Mas Democracia vai para além do voto, e no dia 15 de setembro a resposta foi dada.

Bem pode Passos e Portas escudarem-se na legitimidade eleitoral e proclamarem a estabilidade governativa. Não há estabilidade em qualquer parte do mundo quando os direitos estreitam e a fome aumenta. Existe sim, por parte de Passos e Portas a estabilidade do tacho. E a memória por vezes é curta, mas todos nós nos lembramos o que Passos e Portas prometeram nas eleições. O contrário do que praticam. Em política a mentira é antagónica da legitimidade.

E como lobo vestido de coelho, veio agora Passos anunciar as alternativas à TSU. Alternativas do mesmo. Fez-me lembrar aqueles quatro velhotes que jogam à sueca e que são mestres na arte do macete. Baralham de forma a ficar tudo na mesma. Consigo mesmo imaginar uma suecada entre Passos, Portas, Gaspar e Relvas. Passos é batoteiro, Portas está sempre à espreita, Gaspar rouba nos pontos e Relvas não percebe as regras mas usará o popular jogo para uma qualquer equivalência.

Portugal não pode continuar agarrado a incompetentes, mentirosos, insensíveis e a jogadas de bastidores. Estamos à beira do fim. Venha a vassoura por favor.

Onze + Vasco Célio

Os homens parecem bonecos articulados em frente à massa de fogo que corre livremente. Vasco enfrenta também o fogo. Está ombro a ombro com os combatentes de labaredas. Mais uma vez o jornal Público [22.07.2012] coloca na primeira página uma fotografia dos 12. Vasco Célio.

Conheço o Vasco há muitos anos. É um resistente. Poderia, como muitos, ter apanhado o comboio na estação de Faro rumo a Lisboa. Mas não. Foi teimoso. Quis ficar. E assim, lutar contra a centralidade e afirmar-se como um grande fotógrafo algarvio. Ainda bem que Vasco não se juntou ao rebanho da capital. Ganhou ele e ganhámos todos nós, apaixonados por esta coisa que é a fotografia. Vasco é a prova que existe caminhos alternativos.

Mas o Vasco também é a prova que os doze que formam o 12, foram bem escolhidos. Contratados. São fotógrafos todo o terreno, informados, atentos e que estão lá, no ministro, no buraco ou no incêndio. São subtis no olhar e rápidos no pensamento. Os 12 não estão a fotografar para um livro. Os 12 fotografam todos os dias para muitos livros, os da imaginação, da informação, da emoção e com o coração.

O Vasco é um deles.

fotografia de Vasco Célio

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Onze + Duarte Sá

A ilha está a arder. Duarte Sá está lá. Como esteve em Fevereiro de 2010 quando a lama e a água andaram à solta. O jornal Público de hoje [20.07.12], publica na primeira página uma fotografia de Duarte. A noite iluminada pelas gigantes chamas, e os homens, pequenos, assistem impávidos e impotentes como se estivessem a admirar o fogo-de-artifício de Alberto João.

Tudo arde num fogo sem piedade. As pessoas choram o suor de uma vida reflectida como espelho – a casa, o carro. Uns enfrentam a onda laranja amarelada com míseros baldes e finas mangueiras. É o tudo por tudo. Noutros, não existiu balde ou mangueira que lhes valesse. O suor foi seco pelas chamas.

A festa de Chão da Lagoa foi adiada. Mas mais importante que a missa de Alberto João, são os tijolos que cozeram pela segunda vez e as árvores que não voltam a dar sombra. Duarte Sá saberá bem de que lado estará. É um 12.

fotografia de Duarte Sá

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Onze + Nuno Veiga

Rua do Comércio. Sem comércio. Moribunda esperando pela morte que espreita a cada esquina, a cada montra, a cada balcão. E nas fotografias de Nuno Veiga somos transportados ao passado e levados a adivinhar o que terá sido aquela rua e todas as ruas do Alentejo. Vemos a menina com sua mãe a comprar vestidos de chita. Agrários sentados no café Alentejano e a praça repleta de camponeses, recrutados por uma moeda para desventrar a terra. Podemos ver o ardina com a notícia da revolução. A camponesa a comprar os livros da escola agora obrigatória para os seus filhos. E no café Alentejano as mesas, as chávenas e a palavra livre são de todos e para todos. Na praça vende-se gelados e balões.

Podemos ver o Alentejo nas fotografias de Nuno Veiga. Rostos de rugas teimosas, a teimosia da sobrevivência impõe-se à razão do mercado. Ou a teimosia da saudade. Já não há balões nem gelados. Tantas vezes sonhados e depois concretizados. Agora temos ruas vazias de lojas vazias. E bem lá no alto temos a placa que diz Rua do Comércio Antiga Rua da Cadeia. Talvez seja tempo de voltar ao nome antigo neste tempo da prisão da felicidade.

fotografia de Nuno Veiga

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Onze + Adriano Miranda

Escrever sobre mim não é um exercício fácil. Ainda bem. Sou fotógrafo quase por acidente. Quis ser arqueólogo quando todos queriam ser futebolistas ou médicos. Quis ser escultor mas alguém me ensinou a moldar as folhas do Record Rapid grau um, grau dois, grau três, grau quatro e grau cinco mais depressa que partir pedra ou moldar barro. Agora não sei fazer mais nada. Óptimo para a alma, péssimo para a carteira.

Quando dava aulas no AR.CO, a minha escola de eleição, proibia logo na primeira aula os aspirantes a fotógrafos, fotografarem velhinhas com gatos à janela, vasos de flores ou mãos dadas ao pôr-do-sol. Decretava logo morte aos postais. E ainda é assim.

A fotografia não é gira ou bonita. Não é adorno. A fotografia é agressiva e fere. A boa fotografia. Já nos bastou anos a fio dos miseráveis Salões de Arte Fotográfica que invadiam Portugal. Fotografia de regime. Sem pensamento. E agora, cada vez mais é necessária a Fotografia de Intervenção. Aquela que não enfeita mas desmascara. Aquela que nos põe a pensar e muitas vezes a agir.

Quando temos ministros com canudos tipo aprenda inglês em 24 horas ou se suspende a Constituição por um ano, não podemos brincar aos postais.

fotografia de Adriano Miranda

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Onze + José António Rodrigues

Fernando tem quarenta e um anos e é açoriano. Pai de seis filhos e avô de dois netos. Trezentos euros por mês é o rendimento para toda a família. Fernando pertence pois aos catadores, homens que procuram no lixo dos outros o sustento para a sua família.

José António Rodrigues fez o meu gmail tremer quando abri a sua fotografia. Colei as minhas costas às costas da cadeira e fiquei a olhar o Fernando na tentativa falhada de dialogar com ele. Era isso que eu queria. Falar e aprender como se pode viver assim. E se possível fazer o impossível para o salvar. A si, à sua companheira e às oito crianças.

Fernando está emparedado na vida e nos contentores do seu sustento. Fernando come asas de frango com imensa vontade de voar. Mas está emparedado. Amarrado. À indignidade, à solidão, à miséria.

E mesmo à minha frente a televisão debita ruídos de ministros estridentes, com a bandeira de Portugal na lapela. Que ministro pode usar o símbolo nacional quando cria Fernandos e Marias? Só ministros banhados a cinismo maciço.

fotografia de José António Rodrigues

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Onze + Lara Jacinto

Lara aproximou-se e perguntou-me quase a medo – podes dar uma opinião? Olhei o monitor e as imagens de Lara iam caindo como água milagrosa de uma cachoeira. Pensei com os meus botões – mas o que é isto?

Fiquei preso. As fotografias de Lara eram calmas e intensas. Promíscuas. Adultas. Maduras. Não olhando para questões técnicas que é o que menos interessa numa boa fotografia, Lara fez-me pensar o que estaria ela ali a fazer. Numa redacção de um jornal a estagiar. Lara não tinha fotografias para estagiar. Lara tinha fotografias para ser fotógrafa a tempo inteiro. Mas Lara ali estava com a sua teimosia. Mas bem lá no fundo a contra gosto. E com total razão.

Lara acabou o estágio. E a miopia da contabilidade cegou uma excelente contratação. E Lara partiu. Precária. Fruto da crise. Crise de valores e crise de direitos. E eu nunca mais esqueci Lara. As suas fotografias ainda aqui estão como sangue percorrendo nas veias.

Empenhei-me para que Lara fosse uma das 12. E agora, que Lara viaja por terras esquecidas, Bragança, ficamos os 11 arrepiados com as imagens que Lara nos dá. Força de estética sem gratuidade ou receitas, e voz aos que nasceram mudos.

Lara é assim. Uma Fotógrafa a tempo inteiro.

fotografia de Lara Jacinto

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