Lara Jacinto

Construir

 

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Há quem se sente no sofá. Há quem nunca levante os braços. Há quem durma mesmo acordado. Há quem ande só puxado. Há quem desista. E há os outros. Aqueles que dizem não. E o não foi o embrião. Projecto Troika fecundou, germinou, rebentou de um tremendo não, resistente e teimosamente incomodado. Lara Jacinto, José Carlos Carvalho, Bruno Simões Castanheira, Paulo Pimenta, Adriano Miranda, Pedro Neves, António Pedrosa, Vasco Célio e Rodrigo Cabrita. São estes e podiam ser muitos mais. Felizmente ainda existe muita gente que anda sem ser puxado.

Um dia, quando ainda brincava aos carrinhos e aos cowboys, ouvi o meu pai dizer à minha mãe que construir é muito difícil, destruir é muito fácil. Como fiquei com dúvidas das palavras do meu pai, pisei violentamente um Ford Capri. O frágil metal aliado ao pobre plástico, depressa deram sinais de pouca consistência. Num segundo o Capri ficou eternamente destruído. Não me adiantou chorar. Como agora não me adianta chorar. As palavras do meu pai perseguem-me como um alicerce de vida. O Projecto Troika é uma construção contra uma destruição. Constrói diferença e discussão. Constrói saber e denúncia. Constrói memória e testemunho. Constrói sobre um país destruído por gente má. Gente que não é gente. Que rasteja sobre o sofrimento, que manipula, que mente, que rouba. Que só destrói. E num país amarrado ao colete-de-forças da inabitabilidade, queremos o apoio de todos aqueles que querem construir e sabem dizer não.

Junto à escola dos meu filho João alguém escreveu num muro branco Amo-te João Miranda. A surpresa de tal frase fez-me pensar que o meu filho é muito melhor que o pai. Nunca tive uma manifestação de amor tão democratizada. Se ainda sou do tempo em que os rapazes não se podiam juntar às meninas no intervalo da escola, felizmente o muro foi derrubado no dia 26 de Abril, agora podemos e devemos construir Amor. Necessitamos urgentemente de sopa e colo. O Projecto Troika é Amor. Pela Fotografia e pelo país.

 

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Onze + Lara Jacinto

Lara aproximou-se e perguntou-me quase a medo – podes dar uma opinião? Olhei o monitor e as imagens de Lara iam caindo como água milagrosa de uma cachoeira. Pensei com os meus botões – mas o que é isto?

Fiquei preso. As fotografias de Lara eram calmas e intensas. Promíscuas. Adultas. Maduras. Não olhando para questões técnicas que é o que menos interessa numa boa fotografia, Lara fez-me pensar o que estaria ela ali a fazer. Numa redacção de um jornal a estagiar. Lara não tinha fotografias para estagiar. Lara tinha fotografias para ser fotógrafa a tempo inteiro. Mas Lara ali estava com a sua teimosia. Mas bem lá no fundo a contra gosto. E com total razão.

Lara acabou o estágio. E a miopia da contabilidade cegou uma excelente contratação. E Lara partiu. Precária. Fruto da crise. Crise de valores e crise de direitos. E eu nunca mais esqueci Lara. As suas fotografias ainda aqui estão como sangue percorrendo nas veias.

Empenhei-me para que Lara fosse uma das 12. E agora, que Lara viaja por terras esquecidas, Bragança, ficamos os 11 arrepiados com as imagens que Lara nos dá. Força de estética sem gratuidade ou receitas, e voz aos que nasceram mudos.

Lara é assim. Uma Fotógrafa a tempo inteiro.

fotografia de Lara Jacinto

www.121212.pt

Limoeiros

 

Aqui estamos nós. Se no último encontro reunimos na adega, desta vez foi numa sala enamorada por limoeiros. Adriana Morais, Adriano Miranda, José Carlos Carvalho, José Manuel Ribeiro, Lara Jacinto, Nuno Fox, Nuno Veiga, Rodrigo Cabrita e Vasco Célio discutiram, com alma e coração, Fotografia. E se pelo meio nos degustámos com uma bela feijoada de chocos feita por mãos sábias e calejadas, e regámos com belos vinhos algarvios, a discussão não parou e a muitas conclusões chegámos. Brevemente, Portugal saberá e se espantará. De momento, só podemos partilhar a gostosa conclusão de como é bom estar entre amigos e discutir com a liberdade de pensamento a passear sobre nós.

Vai ser de liberdade o que nós estamos a preparar. Sem ela nada feito.