Renato

O Benfica realizou uma conferência de imprensa para apresentar um jogador novo. Este foi um dos meus primeiros trabalhos como fotojornalista. Como podem imaginar foi muito estimulante. Fotografar uma conferência de imprensa e ainda por cima de bola. Mas a vida nem sempre é perfeita. Ainda cá estou.

Mas lembro-me que um fotógrafo chegou atrasado à dita conferência e já não fotografou o novo jogador a assinar uns papéis, julgo eu, que aqueles papéis seriam o contrato. Vale Azevedo também assinou. Com voz alta, o fotógrafo interrompe a conferência de imprensa e solicita que voltem a assinar os papéis, ou seja, que simulem que os estão a assinar, para ele fotografar. E assim foi.

Fiquei a pensar e cheguei à conclusão que aquilo não era fotojornalismo, ou se o era, era daquele, muito mas mesmo muito mau. Qual era a diferença de ter o jogador a assinar uns papeis ou a fazer o pino no relvado já com a camisola das águias ao peito? Qual é a nossa responsabilidade em interferir no que está a acontecer?

Eu se pudesse andava a fotografar de patins em linha. Só para ser rápido e silencioso. Gosto que ninguém se dê conta que ali estou. Gosto de me adaptar às situações. Gosto de analisar. Gosto de esperar. Gosto de enfrentar. Gosto de estar perto. Gosto de não perturbar.

Estou ali diante do que tenho para fotografar. Esqueço a técnica para ela não me atraiçoar e brinco com a máquina sempre em busca da imagem que me há-de consular o ego. Não me aborreço se ficou magenta ou tremida se tiver uma imagem com alma, com garra.

Estive dois dias em Valença por causa do surto de Gripe A. Lembrei-me do fotógrafo que não quis falhar as assinaturas depois de as já ter falhado. Vi colegas ao meu lado a pedirem aos enfermeiros para simularem novamente que estavam a ser vacinados, a meninos para colocarem máscaras a outros para não rirem…

Num primeiro instante fiquei perplexo mas depois desci à terra. Olhei o Renato infectado com o vírus H1N1 e brinquei com a minha máquina fotográfica. Ele sorriu por debaixo da máscara e disse, por uns minutos sou famoso. És tão famoso quanto eu, respondi.

Pela  manhã do dia seguinte enviei o Público pelo correio ao Renato.

RENATO

5 comments

  1. Que belo relato Adriano. Sim, como disse o Ricardo, antes de mim, é assim que se vê a diferença entre os “grandes” e os “pequenos”, e é mesmo! Também sou daqueles que acreditam que o fotógrafo nunca deve intervir na fotografia. Seja de que modo for! Claro que, em último caso, o fotógrafo vai sempre alterar a maneira como as pessoas se comportam, mas quando isso não acontece, e quando conseguimos enquadrar exactamente aquilo que queremos, da forma como queremos e estamos prestes a carregar no botão para fazermos o retrato, a sensação que temos naquele milésimo de segundo antes de o fazermos é mágica. Muitas vezes, quase que digo em voz altá “já está”. E é também por isso que, ser fotógrafo e ser fotojornalista, é uma das melhores coisas do mundo.

  2. Saudações.
    Devo dizer-lhe que está no caminho certo.
    Muito mais vale o sorriso de um guri sob uma máscara – imposta pelas majors da indústria farmacêutica à OMC e, consequentemente, ao mundo – que um falso ar de seriedade.
    Li também sobre seus questionamentos acerca do ofício do fotojornalista. Fotos “arranjadas”.
    Como estudante de jornalismo, torço para que resista e continue com seu bom trabalho. O mundo precisa de gente como você.

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