A Mãe

O apartamento está quase despido. Lá dentro, um velho fogão, um sofá, uma máquina de lavar roupa e uma pequena mesa. Pela luz natural que entra por uma janela, consigo ver três crianças tímidas e uma mãe com olhar tranquilo.

Está desempregada e felizmente o marido conseguiu emprego. Estiveram os dois sem trabalho. Para dar pelo menos uma refeição aos filhos, esta mãe desesperada comprou várias vezes comida com cheques sem cobertura no valor de 400 euros.

Foi julgada e condenada a prisão efectiva. Por duas vezes a polícia foi a sua casa para a deter. A mãe abria a porta e as três crianças olhavam a polícia. Por duas vezes os agentes não tiveram coragem de a deter. Alegavam que a infeliz mulher não se encontrava na residência.

Num espírito de solidariedade, correu um saco pelo bairro que se ia enchendo de moedas e notas. Rapidamente se conseguiu mais de 400 euros. A mãe pagou as dívidas e a polícia nunca mais bateu à porta. Com o dinheiro que sobrou, comprou comida e na pequena mesa da cozinha festejaram os cinco.

Conheci a mãe e as três crianças em Março. Passados oito meses, quando ouço falar da ajuda do estado em milhões de euros à banca e aos banqueiros, quando se fala em sinais de alta corrupção entre políticos, ex-governantes e a banca, lembro-me daquela luz que iluminava aqueles olhos, cidadãos portugueses como os banqueiros.

Mas que monstro de país é este?

mae

3 comments

  1. Como te percebo. Ontem ia no carro a ouvir a TSF sobre o apoio aos bancos e pensei exactamente o mesmo! como é possível estarmos a discutir o apoio a uma meia dúzia de banqueiros ricos quando falta leite escolar a meninos que pouco ou nada têm, quando falta apoio domiciliário a idosos, quando há gfamílias inteiras em desepero porque não conseguem esticar o orçamento mensal para pagar as contas?! tristes tempos estes em que se dá mais valor a quem muito tem do que aos que perdem o pouco que conseguem ter.

  2. Pois, é verdade que mostro de país temos!
    Um Portugal que protege aqueles que roubam milhões e que punem, neste caso quem presiva de “roubar para comer”.
    É triste, mas nem nós (comunicação social) conseguimos inverter este crime social…

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