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Real?

Existem muitos escravos. Os fotógrafos são um exemplo. Muitos são escravos da sua própria máquina e reféns da técnica. Fotografam preocupados com os píxeis, com o sincronismo do Flash, com a velocidade do auto-focos ou com as dominantes.

Fotografam secundarizando a estética. O que vale uma fotografia, por mais bem sucedida que seja no plano técnico, se não nos belisca? Já olhei milhares de imagens. Já detestei ou ignorei muitas fotografias focadas e admirei ou me apaixonei por muitas fotografias desfocadas.

Fotografar é um acto de loucura. É brincar com um objecto a quem lhe chamaram de Máquina Fotográfica. É não pensar amedrontado no botão do lado mas arriscar toda a energia na interpretação do olhar, sempre diferente, tenaz e audaz. Sentir prazer e nunca ter a tentação de reproduzir a realidade. 

A fotografia desmonta o real. A realidade em fotografia não existe. Existem milhares de realidades. As realidades da interpretação de cada um, que sente as mais variadas sensações ao ler uma imagem que o prende, que o domina. Boa, é aquela fotografia que não nos deixa dormir.

Até mesmo a fotografia do BI não mostra quem somos.

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Altivez

Quando Cavaco Silva foi 1º Ministro encerraram centenas de quilómetros de via-férrea. Estávamos na era do alcatrão.

Ontem José Sócrates mandou encerrar as linhas do Corgo e do Tâmega. Estamos na era do TGV.

Sem aviso! Sem nada o prever! Justificação: segurança. Falta de segurança numa linha que foi alvo de requalificação há muito pouco tempo.

A população não entende. Não foi avisada. Acham uma “canalhice”. Crianças que vão todos os dias para a escola, trabalhadores que vão todos os dias para o emprego, reformados que passeiam ou vão ao médico ficaram ontem sem comboio. Para sempre como diz alguém, porque histórias destas já são contadas à 20 anos onde foram encerrados 402 quilómetros só na Região Norte.

Altivez e falta de respeito. E assim se governa Portugal.

ASM LINHA CORGO

Cassete Pirata

A cassete já não se fabrica mas existem pessoas que ainda a usam. José Sócrates é um deles.

Se a campanha negra é música velha com novo nome, bem podia usar a teoria da cabala, a música pimba sobre manipulação é a eleita de Sócrates. Não pode ver muita gente junta que fica irritado e logo usa uma canção antiga, os manipulados pelo PCP. A novidade é que José Sócrates acrescentou o BE. Mera cosmética eleitoral.

Juntar duzentos mil manipulados não é tarefa fácil. Bem sabemos que Sócrates juntou uns três mil há poucas semanas em Espinho no Congresso do PS. Porque para o Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do Partido Socialista, a liberdade de opinião e manifestação não passa de um exercício de seres manipuláveis sem vontade própria e sem ideias. Aparecem porque os mandam aparecer. Gritam porque os mandam gritar. Aplaudem porque os mandam aplaudir.

Perante tamanha crise social a UGT não se manifesta e até concorda com a revisão do Pacote Laboral. Será caso para perguntar se os sindicalistas da UGT estão a ser manipulados por José Sócrates. E já vai tão alta a minha indignação, que Senhor Primeiro-Ministro, se mais uns duzentos mil manipulados saírem à rua eu  lá estarei para gritar basta!

Não nos manipule, engenheiro Sócrates.

adriano-miranda5

Vidas

Descobri um simples museu do mineiro em São Pedro da Cova. Lá dentro, peças dispostas pelos quatro cantos de uma sala grande narram a história dos muitos que trabalharam na extracção do minério.

Numa mesa já com caruncho, fotografias tipo passe estão alinhadas e coladas a um grande cartão. Escrito à mão e por baixo de cada uma, o nome de cada operário ou operária. Olho nos olhos de cada retrato e sinto a tentação de saber que vida está por de trás de cada imagem. Como o sr. José, personagem do livro Todos os Nomes de José Saramago. Alucinado, obcecado. Como uma travagem repentina, os meus olhos param num rosto. Uma criança. E mais uma. E outra. E ali uma menina. Crianças operárias que não riam para a máquina fotográfica. Não iam à escola. Iam para as minas. Não brincavam. Trabalhavam.

Na SIC está a passar o segundo episódio da série A vida privada de Salazar. Senti vergonha.

adriano-miranda3

Espinho Tropical

Já fui politicamente activo. Uma vez fui a uns jantares, e desde então, não sei que fundo de gaveta guarda o meu cartão de militante. Já bati palmas em comícios, já colei cartazes do Vital, já participei em congressos.

Quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, não respondia médico nem aviador mas sim deputado. Hoje já sou um pouco grande e o meu único acto político é  só quando faço a cruz no quadradinho, sempre no mesmo símbolo.

Este fim- de -semana fui ao congresso do PS. Um congresso muito pouco alegre. Monótono, a uma só voz, Sócrates celebrou a missa e os crentes aplaudiram.

Ao mesmo tempo que mais uma empresa em Espinho encerrava as portas, o congresso do PS parecia uma ilha tropical, tal eram proclamados os êxitos da governação Sócrates, ao som de música triunfante e ao sabor de cocktails explosivos de show off.

O pano caiu e o povo saiu. A ilha desapareceu.

socrates2

Alfredo

O encontro estava marcado junto à praia. Foi lá que pela primeira vez apertei a mão ao colega Alfredo Mendes. Caminhámos junto ao mar e fiquei a saber como  neste país se descarta um trabalhador.

Alfredo tinha a mágoa na voz e a revolta no olhar. Num minuto foi despedido. Fora do gabinete do director adjunto, como os condenados que se encostam à parede de olhos vendados, os trabalhadores iam sendo chamados um a um. Verdadeira lotaria. Uns ouviram o seu nome outros não.

Muitos foram despedidos. Porquê Alfredo? Não sei!

Alfredo Mendes era jornalista do Diário de Notícias há 32 anos. Com ele a Controlinveste despediu mais 121 trabalhadores de uma forma injusta, imoral e desumana.

Caminhando ao sabor do vai e vem das ondas, o injustiçado olha para a minha objectiva e  sinto que em cada fotograma que faço construo um pedaço de um espelho. Alfredo, a que horas chegará o meu minuto?

400asas

Homem Bala

A gigante tenda do circo Mundial quase que cedia ao peso da chuva que teimosamente caia em Coimbra. Lá dentro, crianças olhavam desconfiadas para o canhão molhado que entrava pela abertura da tenda.

Um homem de barriga empinada e com rugas de vida, preparava o canhão atómico, como ele lhe chama, para mais um disparo a 200 quilómetros hora, diz ele e os cartazes de publicidade ao circo.

Cinco, quatro, atenção meninos e meninas tapem os ouvidos, três, dois, um! e o Homem Bala sai disparado e voa até cair numa rede. Coxeia e só pode levantar um braço para agradecer ao público algo confuso com o barulho da pólvora seca e com a queda de Luis Muñoz.

Uma reportagem de Susana Almeida Ribeiro e Adriano Miranda em:

Caderno P2 do Público de 06 de Fevereiro de 2009

http://static.publico.clix.pt/docs/sociedade/homembala/

ASM HOMEM BALA

Margem

Aqui há nortada, lagartos,algumas cobras uma reportagem com texto de Ana Cristina Pereira e fotografia de Adriano Miranda.

Um acampamento cigano em Viana do Castelo entre o arvoredo onde cinquenta e sete pessoas vivem em condições sub-humanas e completamente marginalizadas há mais de quarenta anos. Têm nojo. Como nós mora aqui, pensam que nós não toma banho, que não lava a cabeça.

Hoje na Pública e em: http://static.publico.clix.pt/docs/Portugal/ciganosvianacastelo/

ciganos