Cruzes Antes e Depois da Missa

Assisti no Liceu Camões em Lisboa ao último acto eleitoral de Álvaro Cunhal. Estava já cego. Acompanhado, esperou na longa fila para votar. Quando chegou a sua vez, entregou ao Presidente da Mesa o seu BI, o seu Cartão de Eleitor e o atestado médico que atestava a sua incapacidade visual para exercer o voto sozinho. Aceite pela Mesa Eleitoral, Álvaro Cunhal dirigiu-se juntamente com a pessoa que o acompanhava à cabine de voto e aí exerceu o seu direito.

No passado Domingo lembrei-me da última vez que Álvaro Cunhal votou. Fui para a freguesia de Ermelo onde se realizaram as eleições Autárquicas com uma semana de atraso devido aos tiros de caçadeira do cabeça de lista do PS à Assembleia de Freguesia de Ermelo.

Com um frio cortante, velhos, novos, homens e mulheres chegavam para votar. Só se formou uma ligeira fila cinco minutos antes da missa. Muitos votaram sem Cartão de Eleitor, sem documento de identificação. Muitos outros nem sequer se dirigiram à cabine para votar. Alguém o foi fazer por eles. Muitas vezes eram os próprios elementos da Mesa que perguntavam, Tia Joaquina quer ajuda, Pode ser, Dê cá os papéis que eu deito por si.

Nunca vi atestados médicos, pois não haveria nenhum médico que atestasse qualquer incapacidade aos novos e velhos que por ignorância ou pressão, se deixaram manipular e entregaram o destino da sua cruz a outros.

Fiquei perplexo. Comentei o facto em voz baixa a um colega. Disse-me que a Democracia para aquelas bandas tem outro conceito. Achei piada e mais piada achei, é que das três televisões a realizarem directos, a tantos outros jornalistas de jornais locais e nacionais, ninguém se referiu a esta tremenda chapelada.

Hoje ouvi José Mota, ex-presidente da Câmara Municipal de Espinho a denunciar outras tantas chapeladas nas últimas eleições Autárquicas em Espinho. Lembrei-me de Ermelo e confirmei o que já sabia, existem muitos democratas em Portugal, os que têm a democracia na gravata e a ditadura na cabeça.

Mil novecentos e setenta e quatro. Foi já há tanto tempo e ainda estamos assim!

adriano miranda

5 comments

  1. nada de novo Adriano, nunca foi diferente Portugal. isso o demonstras mais uma vez. há por aí muitas democracias, desfarçadas e oportunistas. talvez um dia os portugueses se lembrem de 1974.

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