Eleições

A Onda do Público

Quando a directora do Público, Bárbara Reis, lançou o desafio de dois fotógrafos acompanharem as campanhas eleitorais de Cavaco e Alegre, coloquei logo o dedo no ar. Fiquei com o Alegre. Nuno Ferreira Santos ficou com o Cavaco.

Lembrei-me dos velhos tempos em que todos os jornais enviavam equipas para cada candidato ou partido. Depois a crise, ou as crises, fizeram com que os fotojornalistas ficassem nas redacções. Agora Bárbara Reis, num acto de lucidez, apostou na velha receita. Os resultados ficaram demonstrados.

Com o aparecimento do on-line os métodos de trabalho alteraram-se. Eu e a fantástica Maria José Oliveira tínhamos os portáteis quase sempre ligados. Notícias e fotografias fresquinhas no sítio do Público. Todos os dias. O ritmo era de agenda. De manhã até à noite. Durante quase quatro mil e quinhentos quilómetros em quinze dias. Do outro lado da barricada, Nuno Ferreira Santos e Nuno Simas agiam da mesma forma.

O cansaço foi grande mas o ânimo maior. Chegámos ao fim com o dever cumprido. Mais magros ou mais gordos. Mais nódoa negra menos pisadela. Mais enjoados de carne assada ou com menos triglicerídeos.

Chegámos e quem ganhou foi o Público. Quem ganhou foram os leitores.

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A Onda do Cento e Sessenta e Seis

Nas eleições autárquicas fui a um comício de Luís Filipe Menezes. No fim chamei um táxi. Veio o cento e sessenta e seis. O taxista, homem pequeno e de bigode, falava tanto que quase não acelerava ou quase se esquecia de travar.

Para ele Luís Filipe Menezes era o maior. Toda a sua família ia votar nele. Era tamanha a obra do autarca que eu nem acreditava. Confessou-me o falador taxista que quando pela manhã saía de casa a sua rua cheirava a perfume. Menezes perfumava as ruas. Fiquei incrédulo com o charme do Presidente.

Na sexta-feira depois da arruada de Manuel Alegre por Santa Catarina chamei um táxi. Veio o cento e sessenta e seis. Quase desesperei. Antes de desejar boa tarde, afirmei que estava com imensa pressa. Avisou-me o falador taxista que o trânsito estava caótico, pois andava aí o Alegre. Sabia eu que a arruada de Alegre não deu para entupir os passeios quanto mais o trânsito. O taxista começou logo a sua palestra.

Confessou-me que ele e toda a sua família ia votar naquele da AMI que fez muito por Viana do Castelo. Fiquei calado e com dúvidas. O homem pequeno e de bigode continuou no seu discurso. Para minha felicidade os ruídos parasitas do velho Ford eram suficientes para quase não o ouvir.

Cruzes Antes e Depois da Missa

Assisti no Liceu Camões em Lisboa ao último acto eleitoral de Álvaro Cunhal. Estava já cego. Acompanhado, esperou na longa fila para votar. Quando chegou a sua vez, entregou ao Presidente da Mesa o seu BI, o seu Cartão de Eleitor e o atestado médico que atestava a sua incapacidade visual para exercer o voto sozinho. Aceite pela Mesa Eleitoral, Álvaro Cunhal dirigiu-se juntamente com a pessoa que o acompanhava à cabine de voto e aí exerceu o seu direito.

No passado Domingo lembrei-me da última vez que Álvaro Cunhal votou. Fui para a freguesia de Ermelo onde se realizaram as eleições Autárquicas com uma semana de atraso devido aos tiros de caçadeira do cabeça de lista do PS à Assembleia de Freguesia de Ermelo.

Com um frio cortante, velhos, novos, homens e mulheres chegavam para votar. Só se formou uma ligeira fila cinco minutos antes da missa. Muitos votaram sem Cartão de Eleitor, sem documento de identificação. Muitos outros nem sequer se dirigiram à cabine para votar. Alguém o foi fazer por eles. Muitas vezes eram os próprios elementos da Mesa que perguntavam, Tia Joaquina quer ajuda, Pode ser, Dê cá os papéis que eu deito por si.

Nunca vi atestados médicos, pois não haveria nenhum médico que atestasse qualquer incapacidade aos novos e velhos que por ignorância ou pressão, se deixaram manipular e entregaram o destino da sua cruz a outros.

Fiquei perplexo. Comentei o facto em voz baixa a um colega. Disse-me que a Democracia para aquelas bandas tem outro conceito. Achei piada e mais piada achei, é que das três televisões a realizarem directos, a tantos outros jornalistas de jornais locais e nacionais, ninguém se referiu a esta tremenda chapelada.

Hoje ouvi José Mota, ex-presidente da Câmara Municipal de Espinho a denunciar outras tantas chapeladas nas últimas eleições Autárquicas em Espinho. Lembrei-me de Ermelo e confirmei o que já sabia, existem muitos democratas em Portugal, os que têm a democracia na gravata e a ditadura na cabeça.

Mil novecentos e setenta e quatro. Foi já há tanto tempo e ainda estamos assim!

adriano miranda

Acabou

Finalmente acabaram. Três actos eleitorais em tão curto espaço de tempo iam dando comigo em louco. Em primeiro lugar, porque me fartei de correr atrás dos candidatos e em segundo lugar, porque não senti alegria com os resultados.

Tanta coisa e continuamos a ter Sócrates como Primeiro-Ministro mas agora na versão dialogante. Continuamos a ter Rio na versão arrogante. Costa foi quem me deu alegria apesar da hora tardia. Com a ajuda dos comunistas lá deu um pontapé no sempre em pé que é Santana.

Fui a comícios, fui a megas jantares e a gigantes arruadas. Só me faltou as feiras mas até agradeci. Estive em apertos, apanhei banhos de suor e de maus cheiros. Fotografei milhares de beijos, ouvi barbaridades. Venha o Tony Carreira que está perdoado!

Depois chegava a casa, ligava a televisão e lá estavam os marretas (sempre os mesmos) dos analistas políticos que sabem tudo e não sabem nada. Por vezes são mais fúteis que As Tardes da Júlia.

Na minha caixa de correio, aquela que só serve para receber as contas para pagar no fim do mês, que saudades eu tenho de uma carta de amor, recebi uma carta do Presidente da Junta. É um daqueles dinossauros que nada faz e por isso a freguesia que gere é das mais mal tratadas do país. Escreveu que todos devem votar, mas se for nele melhor. Para o próximo mês vai começar as obras que a freguesia tanto necessita. Fiquei sem respiração porque muita merda já me tinham deixado dentro da minha preciosa caixa do correio, mas o senhor Presidente foi longe de mais ao pensar que eu sou um mentecapto. Mais de vinte anos como Presidente de Junta e só depois de uns dias das eleições é que vai começar as obras?

Sem espanto de todos o senhor Presidente ganhou as eleições.

Igual a ele, só um taxista do Porto que me disse que vivia noutro planeta. Perguntei qual. Vila Nova de Gaia, disse ele. E depois continuou. O Menezes é o maior. Dizem que endividou a Câmara, quero lá saber, não sou eu que vou pagar. Ó senhor, de manhã a minha rua até cheira a perfume.

Fiquei a pensar que o taxista também podia ser um bom Presidente de Junta, só neste planeta claro, que é Portugal.

RUI RIO ELISA MISERIA

Sr. Jerónimo

Tenho a sorte de perceber mais de política do que de futebol, o que no nosso país nem sempre é uma grande vantagem. Também sei que quanto mais me esforço para entender a política caseira, mais confuso e desiludido fico. Mas apesar de desiludido procuro forças para não me desinteressar.

Sei que o meu futuro e o dos meus filhos dependem dos homens fazedores de política. Mas também nós, os receptores dessa política temos uma palavra a dizer, nem que seja no dia de votar. Nunca ponderei deixar de o fazer. E como no domingo não quero brincar aos votos, demorei a decidir em quem votar. Perdi horas, ou ganhei horas, em frente da televisão a ver os debates. Li jornais. Vi telejornais. Vi os Gatos Fedorentos. Mas também confesso que mandei logo reciclar os papéis do Portas e da Manuela que teimosamente me iam depositando na caixa de correio. Não votar na Direita é ponto de honra.

Estes últimos quatro anos foram terríveis aqui em casa. Os juros a aumentar. O desemprego sempre à espreita a cada mês que passava. E se já não bastava, a minha mulher é Professora… Poderá imaginar o que pensamos do José.

Mas o voto não se decide só porque se assiste ao agitar das bandeiras para as câmaras de televisão em quinze dias de campanha. É necessário não perder a memória. Eu sei que não apareceu só agora a defender o povo. Sempre o tem feito. Mas esta campanha eleitoral demonstrou que é caloroso, emotivo, expressivo, sincero, espontâneo, coerente, genuinamente português como disse Luís Delgado na SIC.

Um amigo disse-me Que se lixe o Marxismo, eu gosto do Jerónimo e vou votar nele. Talvez eu não deite totalmente fora o trabalho do filósofo do século XIX, mas concordo com ele.

Sr. Jerónimo, (como é bom tratá-lo por Sr. e não por Dr. ou Eng.) domingo o meu voto será seu. E o da Professora revoltada também…

Obrigado por ser do povo. Não nos desiluda.

blog jeronimo