Vale a Pena Ler

Artigo de opinião de Santana Castilho no jornal Público do dia 20 Fevereiro de 2008

Propaganda e Peter Pan

A avaliação do desempenho dos professores é a referência mais recente e persistente na demagogia do discurso de Sócrates
No Parlamento, a 13, e na SIC, a 18, Sócrates falou duma Educação virtual, dum país que não existe senão no imaginário dele. Em qualquer dos locais, o homem cavalgou uma onda autista. Falou do que quis, mas não do que é. Como se estivesse num comício do PS, despejando propaganda sobre os fiéis. Parafraseando Churchill, o êxito dele não é mais que ir de fracasso em fracasso, mantendo o entusiasmo.
A avaliação do desempenho dos professores é a referência mais recente e persistente na demagogia do discurso de Sócrates. Com a arrogância que lhe conhecemos, tem falado dela com a mesma ligeireza com que projectou vivendas sobre estábulos ou prestou provas de licenciatura por fax.
Não é verdade que durante 30 anos não tenha havido avaliação de desempenho dos professores, como não se cansa de repetir, ou que os professores não queiram ser avaliados, como insinua. A questão reside na substituição de um modelo de avaliação ineficiente, o que existia, por outro, escabroso, o que propõe, que, se se consumar, trará mais caos ao caótico sistema de ensino. Nenhuma organização séria, seja pública ou privada, propõe mudar seja o que for, neste quadro, sem permitir (e mais que isso, fomentar e promover) o envolvimento dos visados na construção do processo. A avaliação do desempenho só vale a pena, se for concebida como instrumento de gestão do desempenho. Quer isto dizer que o seu fim primeiro é identificar obstáculos ao desenvolvimento das organizações, removendo-os, e não castigar pessoas. Dito doutro modo, as instituições maduras preocupam-se hoje mais com a apropriação por parte dos colaboradores dos valores que, intrinsecamente, geram o sucesso e melhoram o desempenho do que com os instrumentos que, extrinsecamente, o promovem.
Porque o primeiro-ministro não tem tempo para ler esses estudos, quando na SIC deu o exemplo dos Estados Unidos da América, ignorava, por certo, que a introdução, aí, do indicador “resultados obtidos pelos estudantes”, logo fez aparecer professores a treinarem alunos nas técnicas de copiar nos exames. Ou ainda, quando invocou a França, se esqueceu que a avaliação do desempenho dos professores franceses (que mostrou desconhecer) não impediu o descalabro do respectivo sistema educativo. Lá, como cá (ainda não tivemos Lisboa a arder como eles já tiveram Paris), é a desregulamentação da sociedade e a desagregação da escola pública que tornou os menores franceses o grupo mais representativo nos delinquentes cadastrados (quase 20 por cento).
Sem discutir a bondade dos fins, o que afasta qualquer democrata honesto do primeiro-ministro é a teimosia em que este persiste: porque julga que o fim é bom, despreza os meios e os processos, como fazem os ditadores. Uma questão deste melindre e com as implicações sociais que lhes estão associadas, obrigaria sempre a ponderações criteriosas das soluções e à sua testagem antes da aplicação. Não entender isto, compactar tudo em prazos irreais, persistir na defesa das trapalhadas normativas do ministério, mesmo depois de, por quatro vezes, quatro tribunais administrativos distintos aceitarem providências cautelares sobre a matéria, é reagir como um menino grande, que manipula o brinquedo do poder sem qualquer sentido de Estado.
Quando Sócrates fala de números em Educação, já sabemos o que vai dizer, porque repete sempre o mesmo. Na SIC, Nicolau Santos, jornalista familiarizado com estatísticas, deveria tê-lo confrontado com as mais fresquinhas do INE: durante o Governo de Sócrates o desemprego aumentou 6,5 por cento e, dentro deste, o aumento do desemprego dos licenciados ultrapassou os 63 (sessenta e três) por cento. Este sim é o país real. O resto são fantasias de Peter Pan.

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2 comments

  1. Na minha profissão sou avaliada desde 1993 e isso não me prejudicou, para subir de escalão sempre me foi exigida essa avaliação sem a qual a progressão não era possível.
    Compreendo que os professores que estão habituados a avaliar outros ( e alguns…poucos por vezes podendo ser parciais e exigentes) vejamos o que se passa no ensino superior onde há disciplinas que têm um grau de reprovação elevado e não se preocupam com o que sentem os seus alunos: frustração..medo etc. quando os acetatos já têm anos sem serem reformulados, mas a exigencia da avaliação do aluno vai aumentando, será que estamos a falar de auto formação do aluno??? não é isso que se espera do professor. Para mim o prtofessor tem que ser o catalizador das sinergias dos seus formandos, contribuindo para o seu desenvolvimento como aluno e como passoa… não vão eles mais tarde reproduzir esses comportamento frustrante e penalizadores.
    Assim apesar de perceber o problema, já fui aluna, professora e “encarregada de educação” dos meus filhos e algumas vezes também tive que ajudá-los a ultrapassar as suas frustrações quando se sentiam descriminados por alguns dos seus professores.. “é uma pena tão inteligente e com este corte de cabelo” por exemplo e para não entrar noutros pormenores.
    Quem presta serviço público tem que fazer o seu melhor, interrogo-me porque é que as Escolas Públicas estão vazias e os colégios privados estão a “abarrotar”, são carissimos, alguns pais fazem sacrificios para ter lá os seus filhos.
    Alguma coisa vai mal neste país, todos temos que refletir sobre as quetões sociológicas e o desnvolvimento social do país. Qualquer dia os professores das escolas públicas não fazem lá falta já que não têm alunos, temos todos que cuidar do nosso posto de trabalho e só pela competencia e bom desempenho podemos afirmar a necessidade do nosso posto de trabalho, não chega ter um Dr., eu para progredir na carreira tenho que tirarar uma especialidade de 2 anos, pagar e trabalhar em simultaneo, esperar por um concurso onde posso ou não ficar classificada em função do meu curriculo profissional.
    Afinal neste país também os trabalhadores tÊm exigencias diferentes enquanto profissionais, fiz o mestrado apenas para poder manter-me actualizada e nunca tive nenhum benefício por isso a não ser o de aquisição de novos saberes e a satisfação de os ter adquirido para melhor desempenhar o meu trabalho.
    É assim, não tenham medo de ser avaliados se fizerem o vosso melhor em prol dos vossos alunos e do interesse que têm pelo seu desenvolvimento cognitivo, de cidadania, de participação cívica e aquisição de conhecimentos e naturalmente formação ensino/aprendizagem sobre o que são as necesssidades dos curricula escolares. Mas a escola tem que ser envolvente e não apenas um conjunto de aprendizagens “coladas” para o exame e que passados 15 dias já esqueceram.
    Vamos lá dignificar a vossa profissão, quem não se lembra do papel que os professores tiveram, do respeito que lhe era devido e vamos todos reflectir porque é que isso mudou tanto em tão pouco tempo.

  2. Hoje em dia todos falam sobre a Educação. E acho bem que se faça isso. Convém é termos alguma experiência relacionada com o ensino e não nos basearmos em opiniões avulsas ou em casos particulares.
    Nos tempos que correm, o corpo docente é algo heterogéneo, isto é, há muitas situações diversas, quer no que diz respeito ao tempo de serviço, quer em relação a direitos adquiridos, quer em relação a cores políticas, etc, etc… Esta situação gera o quê? Em termos práticos, muita disparidade no que diz respeito a desempenho. E os nossos alunos? Claro, são todos diferentes, geograficamente e pessoalmente. E as escolas, são todas iguais? Claro que não, desde os Conselhos Executivos ao simples auxiliar de acção educativa. Ora isto tudo para dizer que quando falamos de escolas, ensino e de professores, há professores competentes (há muitos) e professores do “deixa andar” e os professores que provavelmente não deviam ser professores. Agora, a questão é esta… será que a avaliação dos professores que querem pôr em prática vai trazer à luz do dia essas ovelhas negras? NÃO, não vai. A avaliação que o ME impôs não é para premiar os melhores (infelizmente). Serve apenas para impedir progressões na carreira dos professores dos quadros (as tais quotas) e, quanto aos professores contratados, ficam à mercê de um professor titular qualquer. Mas atenção: tal como a publicidade às pastas de dentes, com a qual se afirma que ficará com os dentes branquinhos… também temos o nosso PM & Cia a afirmar com os tais dentes brancos que esta avaliação dos professores é para dignificar a classe docente. Claro, e eu sou marciano.
    Enfim, muito mais se poderia dizer, e com muito mais pormenor. Eu sou professor, e sei que é difícil ser-se imparcial, mas afirmo com total imparcialidade o seguinte: este Ministério da Educação (e outros antes deste) não tem qualquer interesse em melhorar a escola pública. Esta tem piorado ao longo dos anos devido a mudanças e mais mudanças legislativas feitas por pessoas que vivem em gabinetes… decidem, não escutam, não ouvem ninguém. Ora voilá… aqui está a nossa escola pública – 2008, ano dos portáteis, portáteis esses que muitas vezes nem funcionam, e porquê? Porque ao fim de estarem a uso pelos alunos, deixam de funcionar (jogos, desinstalações mal feitas, teclas partidas…). Este é o choque tecnológico prometido. Como professor tenho pena de ver a escola pública morrer a pouco e pouco. Tenho pena dos alunos a quem se prometeu uma escola de excelência. Tenho pena dos pais que se preocupam com a educação dos seus filhos. E, por último, tenho pena, muita pena de ser professor. Ver isto tudo, em silêncio.
    Que sociedade teremos, num futuro a médio prazo, com tantas asneiras educativas pelo meio?

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