vinho

Rolha

Nos jantares de amigos e aficionados do bom vinho, discute-se por vezes as vantagens da rolha de cortiça e as desvantagens da rolha de plástico. Eu lá vou acompanhando a conversa o melhor que posso, pois de vinho não sei quase nada e de rolhas ainda menos.

Já aprendi que fica bem cheirar o vinho, e que é de bom-tom transformar o copo em Poço da Morte e fazer com que o líquido precioso gire a uma velocidade estonteante. De rolhas sei o elementar. São de cortiça e agora também de plástico. Que o rei da cortiça é o Américo Amorim, o homem mais rico de Portugal que despede trabalhadores como quem muda de camisa. Também sei que a industria corticeira é a que mais baixos salários pratica e que mais discrimina as mulheres operárias ou colaboradoras como se diz agora.

Mas para espanto meu a grande conclusão do congresso do PSD deste fim-de-semana foi a aprovação da lei da rolha. E pelo meio até ouvi um Presidente de Câmara que discursava na arena laranja pedir vinho em vez de água. Também disse que se não fosse mentiroso nunca chegaria a Presidente. Desta vez não mentiu. Gargalhada geral de umas tantas carapuças.

Não fiquei nada surpreendido com o partido campeão em congressos. Não é que seja mais democrata que os outros. É porque simplesmente é o partido dos faquires, dos ilusionistas, dos domadores, dos malabaristas e dos contorcionistas. Os congressos do PSD são sempre verdadeiros circos produzidos e ensaiados por políticos de plástico.  

Rolhas? Só de cortiça e só para o vinho.

A Bilha

Tinha uns cinco anos quando tive o meu primeiro contacto com o vinho. O meu avô mandou-me ir à adega encher a bilha de inox . Antes de abrir a torneira da pipa e fazer jorrar o líquido vermelho escuro, jorrei o pouco vinho que ainda estava na bilha na minha pequena boca. Conclusão, não bebi nada e quem se consolou foi a minha camisola branca que ficou ensopada em vinho.

Ao entrar na cozinha o meu avô só se riu a bom rir e a minha mão só gritou e não me bateu. Desde aí nunca mais tive a tentação de me consolar com o líquido dos adultos. E também não sei quando perdi a virgindade com um bom copo três. Lembro-me de participar nas vindimas, do cheiro intenso e belo das uvas americanas. De entrar no lagar e pisar, de ajudar a preparar os pipos e de engarrafar. Lembro-me que a casa do meu avô era uma casa farta, de tudo, até de afectos.

Não percebo nada de vinhos. Mas mesmo nada. E fico zangado. Desde que trabalho no Porto fotografo muito vinho, muito Douro, muitas provas. Fico a olhar como o burro para o palácio, para os orgasmos que os peritos em vinho têm ao meter um copo na boca. Primeiro fazem dançar o vinho dentro do copo, cheiram e depois saboreiam e dão um gemido como um uuummmhhhh. E discutem a temperatura ideal, os paladares as frutas até silvestres, se casa bem com carne ou peixe, que custa uma garrafa mais de mil euros. Falam das castas castelão, aragonez e trincadeira, deixam o vinho abrir, se é suave, aveludado ou agreste. Mas mais incrível, é que se fartam de beber e nunca ficam alegres, ou seja, bêbados.

Passei este fim de semana nos copos. Fui até à maravilhosa cidade de San Sebastian para me consolar com a comida do famoso chefe Mikel Gallo e com os vinhos do Douro. Lá estavam os especialistas do prato e do copo. E no meio de tantos gemidos e considerações ao vinho, eu lá fui bebendo sem sujar a minha camisa branca, a única coisa que aprendi desde que fui à adega do meu avô.

adriano miranda