SIC

Dezoito Anos e Vinte e Dois Abraços [ I ]

Em mil novecentos e noventa e três tive das melhores experiências da minha vida. Descobri, encravada na serra da Freita, Cabanelas. Cabanelas era uma pequena aldeia que tinha uma minúscula escola com onze crianças e uma professora. Passei dias e dias rendido ao encanto daquelas onze crianças. Fui ficando. Fotografei e eles fotografaram com a misteriosa pin-hole. Projectei diapositivos para toda a aldeia e para as aldeias vizinhas. Viajámos até Lisboa para conhecer o metropolitano, esse estranho transporte para quem nunca tinha visto se quer um comboio.

Passados dezoito anos e a convite da SIC voltei a Cabanelas. De máquina fotográfica em punho voltei a fotografar as onze crianças, agora com rostos maiores e músculos com cheiro a trabalho árduo. Claro que gostei de lhes apontar a máquina. Mas o que genuinamente gostei, foi de os voltar a abraçar. Abraços fortes como à dezoito anos atrás.

Para ver este sábado, dezasseis de Abril, nos Perdidos e Achados,  Jornal da Noite  SIC.

Crónica De Um Doente

Uma dor súbita para além de me ter atirado logo para o chão, também me atirou para a cama. Já lá vão quase cinco semanas. Deambulando entre a medicina pública e a medicina privada, lá descobriram a razão de tamanha dor, e agora à custa de bastantes euros lá vou recuperando as forças e dizendo adeus à dor…alegremente.  

Os meus olhos esbarram no branco limpo do tecto de gesso dada a minha posição horizontal. Farto de tão pura e crua paisagem (ainda pensei mandar colar um poster com uma paisagem tropical), torturei-me e quase me afundei em pensamentos negros. E se não dei em maluco, muito devo ao Doutor Catroga e ao Doutor Teixeira dos Santos. Sei que a partir de Janeiro de dois mil e onze vou dar mesmo em maluco, mas adorei ver a toda a hora na televisão as negociações entre os dois para o Orçamento de Estado. São uns verdadeiros vendedores da banha da cobra.

Depois também assisti empolgado aos directos da SIC Notícias do debate na AR para aprovação do Orçamento. Por muitos momentos a dor desapareceu dado o meu estado de dormência ao ouvir Sócrates e outros tantos ilustres deputados. Que grande analgésico.

Depois vieram o sobe e desce das taxas de juro da Dívida Portuguesa e todos os comentadores de bancada que proliferam nas três estações de televisão. Quase já a pedir à minha santa mulher que me levasse a um psiquiatra, fiquei quase proibido de ver televisão. A medida foi radicalmente igual à que damos aos nossos filhos. Playstation só ao fim de semana!

Com uma dedicatória Para que todos os teus anjos te protejam sempre, amo-te, a minha santa ofereceu-me o livro O Anjo Branco de José Rodrigues dos Santos, que devorei em três dias. Depois seguiram-se Predadores do escritor angolano Pepetela e outros. Já um pouco cansado de fazer musculação aos braços com tamanhos livros, decidi pôr termo à proibição e comecei a ver o canal público de Angola, a TVI, um canal búlgaro e a RTP Memória. E foi neste canal que vi durante três horas e meia o debate entre Cunhal e Soares em mil novecentos e setenta e cinco. Delicioso!

Soares diz, Portugal está à beira da banca rota e o PS não quer um Socialismo de miséria.Cunhal sorri. Foi há trinta e cinco anos.  

Olho para a esquerda, e sentada no sofá individual está a minha mãe que viu em directo o debate mais famoso de Portugal e participou com elevado empenho no Processo Revolucionário em Curso. Agora, passados 35 anos lê a revista Telenovelas. Na capa leio, Diana e João fazem amor.

Que saudades!