Público

A Onda do Público

Quando a directora do Público, Bárbara Reis, lançou o desafio de dois fotógrafos acompanharem as campanhas eleitorais de Cavaco e Alegre, coloquei logo o dedo no ar. Fiquei com o Alegre. Nuno Ferreira Santos ficou com o Cavaco.

Lembrei-me dos velhos tempos em que todos os jornais enviavam equipas para cada candidato ou partido. Depois a crise, ou as crises, fizeram com que os fotojornalistas ficassem nas redacções. Agora Bárbara Reis, num acto de lucidez, apostou na velha receita. Os resultados ficaram demonstrados.

Com o aparecimento do on-line os métodos de trabalho alteraram-se. Eu e a fantástica Maria José Oliveira tínhamos os portáteis quase sempre ligados. Notícias e fotografias fresquinhas no sítio do Público. Todos os dias. O ritmo era de agenda. De manhã até à noite. Durante quase quatro mil e quinhentos quilómetros em quinze dias. Do outro lado da barricada, Nuno Ferreira Santos e Nuno Simas agiam da mesma forma.

O cansaço foi grande mas o ânimo maior. Chegámos ao fim com o dever cumprido. Mais magros ou mais gordos. Mais nódoa negra menos pisadela. Mais enjoados de carne assada ou com menos triglicerídeos.

Chegámos e quem ganhou foi o Público. Quem ganhou foram os leitores.

http://static.publico.pt/docs/politica/naestradacomoscandidatos/

Astronauta

Igor não larga o Action Man. Com ele sonha chegar um dia ao céu. Não ao céu que nos ampara a morte, mas ao céu que procuramos desvendar. Quer ser astronauta. Vive numa imensa torre de cimento armado. Torre pálida, com ferros ferrugentos a brotarem do cimento podre. Lá dentro, estão as histórias do dia- a-dia. Igor vive no bairro do Aleixo na cidade do Porto. E ali, que a fama atraiçoa os honestos e a sociedade castiga os marginalizados, Igor é um exemplo na escola. Agora só o cinco o satisfaz. No futuro será o vinte. Se for preguiçoso tenho sorte se chegar a trolha, diz Igor. A reportagem de Ana Cristina Pereira [Público, 28 de Setembro de 2010] devia ser lida bem alto em todas as escolas do país.

Igor, gostei de te conhecer. Cheguei a casa e falei de ti aos meus filhos.

Paulo Pimenta

Convidei-o para ir mostrar o seu trabalho aos meus alunos do Politécnico do Porto. Ele aceitou e mais uma vez foi pontualíssimo. Apresentei-o aos alunos como um fotógrafo obcecado. Ele não reagiu.

Ontem ao abrir o sítio do Público fiquei a saber que ele tinha ganho o Prémio Internacional de Fotojornalismo promovido pela Estação Imagem em Mora. Vinte e quatro horas antes, tínhamos estado a conversar os dois sobre o concurso. Ele concorreu mas sabia que não ia ganhar. Eu não concorri porque sou anti-concursos de fotojornalismo.

Fiquei feliz. Porque foi o Pimentinha a ganhar. É o prémio para quem trabalha imenso. O prémio do prazer.

E neste dia de Liberdade o meu cravo é para ti.

Parabéns Público

O meu professor de Estética falava imenso de um novo jornal. Chamava-lhe Público. Dizia ele que era revolucionário. Seria feito em Lisboa e no Porto e teria edições diferenciadas. Uma grande aventura para a época. Uma coisa nunca vista.

As aulas de Estética iam sempre parar ao Público. Lembro-me de por vezes a palavra Público já me começar a irritar, mas o professor falava com tanta paixão do novo projecto jornalístico que a turma em peso no dia D correu a comprar o número um.

Habituado a ler primeiro o Jornal de Notícias e depois o Diário em casa do meu avô, o Público era realmente um jornal diferente. Tentava sempre esticar a semanada de mil escudos que o meu pai me dava para comprar o Público. Achava que os jornalistas tinham uma vida de sonho. Estavam em sítios em que eu nunca iria estar. Fotografavam tudo aquilo que eu nunca iria fotografar. Devorava as páginas e por vezes cortava uma fotografia que guardava religiosamente.

A minha curiosidade era imensa. Como seria a redacção do Público. Aproveitando o encerramento das Minas do Pejão decretado por Cavaco Silva, então Primeiro-Ministro, fiz-me à estrada e só parei na Quinta do Lambert em Lisboa. Levava comigo um portfólio de imagens a preto e branco dos mineiros de Castelo de Paiva. Tímido, lembro-me de ver salas apinhadas de computadores e papéis. Enquanto a jornalista (já não me lembro o seu nome) via as fotografias, eu tentava olhar para tudo e todos, ávido de conhecer o Público por dentro.

Saí com a promessa de me publicarem as fotografias pelo valor de sessenta contos! Não ia à espera de nada, somente ver o Público.

Da segunda vez que me fiz à estrada em direcção à Quinta do Lambert  foi para ficar lá a trabalhar. Concretização de um sonho que nunca tinha sido sonhado.

E aqui estou. Feliz. Gostava imenso de reencontrar o meu professor de Estética.

Voltei

Patrícia Carvalho, colega de redacção, numa pausa para o café disse-me que eu tinha dois filhos lindíssimos e um blog igualmente lindo. Com o piropo ao João e ao Filipe fiquei como peru inchado, quanto ao blog provocou em mim uma certa saudade.

Quase tinha decidido fazer o velório ao 400asas, mas a forma tão doce e sincera de Patrícia fez-me voltar. Voltei!

Estava a comer umas almôndegas quando a SIC fez um directo das escadarias da Assembleia da República. Centenas de pessoas iriam entregar uma petição pela Liberdade de Expressão a todos os partidos com assento parlamentar. De seguida o pivô do Primeiro Jornal dá-nos conta da manifestação das trabalhadoras da Maconde que já não recebem salário à vários meses. Trabalham e produzem mas de borla. A Administração diz para as trabalhadoras terem paciência. Mas de seguida ficamos a saber que existem pessoas que não trabalham mas continuam a receber. É o caso de Armando Vara que já não está no BCP mas é como se estivesse. Escusado será dizer, que com tão brilhante alinhamento televisivo ia morrendo com uma almôndega atravessada na goela.

Disse uma valente asneira em tom de revolta e lembrei-me daquela fotografia que fiz nas comemorações da República e que o Público inteligentemente publicou na primeira página. Não sei para onde caminhamos, se para o abismo se para o buraco. A única certeza que tenho é que os responsáveis são sempre os mesmos. Com apertos de mão vigorosos ou com carícias de mão, eles sempre aí estão, com a mesma desfaçatez, com a mesma receita. Sorridentes e invertebrados.

Como dizia um velho hoje no comboio, o rapaz largou o computador e a garrafa de água e atirou-se para a frente do Alfa, Frouxou das ideias coitado.

Num país assim quem não frouxa?