Presidenciais

A Onda do Público

Quando a directora do Público, Bárbara Reis, lançou o desafio de dois fotógrafos acompanharem as campanhas eleitorais de Cavaco e Alegre, coloquei logo o dedo no ar. Fiquei com o Alegre. Nuno Ferreira Santos ficou com o Cavaco.

Lembrei-me dos velhos tempos em que todos os jornais enviavam equipas para cada candidato ou partido. Depois a crise, ou as crises, fizeram com que os fotojornalistas ficassem nas redacções. Agora Bárbara Reis, num acto de lucidez, apostou na velha receita. Os resultados ficaram demonstrados.

Com o aparecimento do on-line os métodos de trabalho alteraram-se. Eu e a fantástica Maria José Oliveira tínhamos os portáteis quase sempre ligados. Notícias e fotografias fresquinhas no sítio do Público. Todos os dias. O ritmo era de agenda. De manhã até à noite. Durante quase quatro mil e quinhentos quilómetros em quinze dias. Do outro lado da barricada, Nuno Ferreira Santos e Nuno Simas agiam da mesma forma.

O cansaço foi grande mas o ânimo maior. Chegámos ao fim com o dever cumprido. Mais magros ou mais gordos. Mais nódoa negra menos pisadela. Mais enjoados de carne assada ou com menos triglicerídeos.

Chegámos e quem ganhou foi o Público. Quem ganhou foram os leitores.

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A Onda no Arame

Nestes quatro mil quilómetros que fiz atrás e por vezes à frente de Manuel Alegre, assisti a vinte e seis discursos de Alegre. Treze em almoços, dois em jantares e onze em comícios.

Quase sempre me pareceu estar a assistir a um espectáculo de circo. Os Bloquistas eram os malabaristas. Os Socialistas os ilusionistas. Alegre o homem do arame.

O Bloco deixou de atacar o governo PS. Se um extraterrestre cai-se na arena pensaria que quem governava era o PSD e Cavaco.

 Os socialistas continuaram a vender ilusões.

Alegre esforçava-se para não cair. Agarrou-se ao perigo do FMI. Não explicou é que se o FMI entrar em Portugal é por culpa do seu camarada e apoiante Sócrates. Falou na esquerda como se o seu governo praticasse políticas de esquerda. Falou nos males dos mercados como se os seus camaradas socialistas do governo não alinhassem nas especulações dos mercados. Falou da protecção do estado social como se Sócrates não o estivesse a destruir. O Bloco aplaudia.

Domingo será melhor colocarem a rede por baixo do arame.

Nos dois comícios com a presença de José Sócrates, os Bloquistas não tiveram direito a subirem ao palco.

A Onda Genuina

Francisco Lopes emocionou-se com o desespero de Rosa Maria. As palavras sairam-lhe tremidas. Com as mãos nos ombros da idosa disse, Olhe para mim. Dê-me um abraço. Francisco foi genuino na sua comoção.

Manuel Alegre foi interpelado por trabalhadoras que tinham sido despedidas de uma fábrica de confecções em Guimarães. Olhou e nada disse. Uma apoiante de Alegre gritou, Ele não tem culpa. Então Alegre vira-se para a apoiante e dá-lhe um beijo. Vira as costas às desempregadas. Alegre foi genuino na sua indiferença.

Na hora do voto também serei genuino.

A Onda do Lombo

Os quilómetros vão somando todos os dias. Alegre continua alegre. Ainda bem. Tem um rir afável e até contagiante. Diz umas piadas espontâneas como quando olhou para umas machadas numa banca de feira e disse serem boas para cortar umas cabeças. Alegre podia ser mais esforçado. Tirar mais as mãos dos bolsos, pelo menos quando está com a gente que trabalha.

Os quilómetros vão somando todos os dias. O lombo  continua no prato. Já perdi a conta às vezes que as garfadas me sabem sempre a lombo de porco como se o garfo fosse sempre o mesmo. Sabemos, nós os prós de campanhas eleitorais, que as ementas dos almoços ou jantares comício não são grande espingarda. De vez em quando trocamos uns telefonemas com os  colegas que acompanham os outros candidatos. Defensor Moura não serve almoços nem jantares. Coelho só pasteis de nata. Nobre, Cavaco e Alegre são convergentes nos pratos. Francisco Lopes vai destacado à frente nos bons e nutridos repachos. Restaurantes escolhidos a dedo ou camaradas a cozinhar e a servir.

Os quilómetros vão somando todos os dias. Dia vinte e três de janeiro acabará a maratona do lombo assado. Para alguns haverá lagosta e para outros enjoos. E o povo continua a comer, ou não.

A Onda

Para quem vira frangos há muitos anos, a maneira de fazer campanhas eleitorais não mudou quase nada. As redes sociais ainda não destruiram as bandeiras. Lembro-me que Freitas do Amaral oferecia chapéus tipo palhinhas, Cavaco Silva oferecia aventais, Mário Soares sacos de plástico e Álvaro Cunhal a palavra.

Colavam-se cartazes em qualquer parede limpa e Arnaldo Matos até pintava murais muito antes da invensão dos graffitis. O povo enchia praças. Os debates televisivos paravam o país. Muitas famílias zangavam-se. Muitas comadres odiavam-se.

Agora as ideias voaram como o saco de plástico. Já não é ecologicamente aceitável distribuir plástico. Já não é aceitável borrar paredes. Já não há tempo para as ideias ou ideologias. Chapéus, esses são cada vez mais. Há quem os enterrre e bem.

O marketing político manda. Vende-se um candidato como se vende um iogurte ou uma alheira de Mirandela. É tudo uma quetão de imagem. Mais light ou mais gorduroso.

 Por imperativos profissionais durante quinze dias caminho ao lado de Manuel Alegre. E lá está a máquina a funcionar, ou quase. Alegre é da velha escola. Como ele se gosta de auto-afirmar, é um anti-fascista. Mas, das duas uma, ou não aprendeu nada com trinta e cinco anos de campanhas eleitorais, ou pensa que basta ter televisão e uma bonita luz de palco para que no dia vinte e três suba à ribalta.

 Os milagres vão acontecendo como a multiplicação dos pães. Salas a metade são transformadas em salas cheias, bandeiras por detrás de Alegre dão a ideia de multidão, o staff grita e bate palmas, os autocarros transportam fieis de bem longe, os seguranças têm tiques de pouca liberdade, e Alegre continua alegre em cima do palco a proclamar a onda. Uma onda de água fria.