Passos Coelho

O Robin dos Bosques

Entretidos com os cortes de subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos, pouco se falou da modificação do horário de trabalho, com mais meia hora de trabalho por dia. Hoje ficámos a saber que a meia hora de trabalho extra vai depender unicamente da vontade dos patrões, ou seja, os trabalhadores vão pura e simplesmente ser obrigados a trabalhar mais trinta minutos por dia, o que totaliza quinze dias por ano de trabalho à borla. E pela boa reputação e conduta dos nossos patrões, não é difícil perceber o que vai acontecer. O patrão pode até obrigar o empregado a entrar mais cedo na empresa, a almoçar mais rápido ou a sair mais tarde. Tudo em nome da competitividade.

Acho eu, que é mais em nome da exploração. Trabalho obrigatório e não remunerado é escravatura.  Foi abolida há séculos! E já  falam em reduzir os dias de férias. Passos Coelho no seu melhor, ou seja, o Robin dos Bosques do capital, rouba aos pobres para dar aos ricos.

Portugal desceu ao inferno.

Jerónimo e os Outros Três

Quando abri a caixa do correio estavam bem lá no fundo e por baixo das cartas do BES, da PT e da EDP, três papeizinhos com as fotografias de Sócrates, de Passos e de Portas. As cartas foram guardadas no cesto de verga, aquele que todos os meses contabiliza as contas da família. Os papeizinhos foram directos para o caixote do lixo.

Não ando desatento apenas desiludido. Quando ouvi Passos Coelho dizer que esta crise duraria dez anos, fiz de imediato as contas à idade dos meus filhos. Um terá vinte e um anos e o outro dezasseis. Os meus pais tiveram uma vida de sacrifícios como a esmagadora maioria dos portugueses. O objectivo daquela geração era dar um futuro melhor aos seus rebentos. Assim o fizeram, e assim contribuiu o vinte cinco de Abril. Agora, não sei que futuro os meus filhos vão ter. Não sei se terei capacidade de lhes oferecer melhor que o meu pai e a minha mãe me ofereceram. Estou desiludido sim. Frustrado. Assustado.

Passos Coelho sabe do que fala. Só não diz quem são os responsáveis. Só esconde o que quer para o futuro do país. Mente, como Sócrates e Portas. E no meio deste turbilhão de incompetência e selvajaria, o povo perdeu a memória. A memória da consciência, da justiça e do rigor. No domingo a romaria da continuidade vai vencer. Que se desenganem os que pensam que Passos é diferente de Sócrates. A diferença está simplesmente na letra D. Um é PS o outro é PSD. E pelo meio aparece Portas, desejoso por se casar, ou com um, ou com outro. Não é por amor é por conveniência. E assim, Portugal vai continuar na sua decadência económica, social e política.

No domingo não vou seguir o caminho do rebanho intoxicado. Como disse alguém do povo ontem nas famosas arruadas, o senhor é honesto. Palavra nobre que caiu em desuso. Para mal de Portugal.

Iguais

Hoje podia ser um dia de festa. Sócrates foi embora. Mas, por estranho que pareça, não senti nenhuma alegria. Sei que agora vem aí o FMI. Sei que Passos escolheu o tempo certo. Não pensa no país mas em ser Primeiro-ministro. Portas aguça o dente a mais uma pasta ministerial. Talvez para comprar mais submarinos. E Jerónimo e Louçã por mais que preguem, e por vezes com muita razão, sabem que nunca se governará à esquerda em Portugal.

Passos Coelho é quinhentas vezes pior que Sócrates. Nunca fez nada por este país. Simplesmente (e já que ele falou em teatro), é o roberto dos grandes grupos económicos portugueses. Quer ser Primeiro-ministro para tornar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

Curioso, que ainda não fizera vinte e quatro horas que Sócrates bateu com a porta, já Passos se comporta como governante. Hoje de manhã já ouvi falar em subida de impostos. Ele que diga também que quer acabar com a escola pública, com os transportes públicos, com o Serviço Nacional de Saúde…

Passos, talvez gostasse de ser o Marcelo Caetano. Não eram necessárias eleições. Ou talvez como Manuel Ferreira Leite sugeriu, interromper a democracia por uns meses. Mas Passos Coelho e todos aqueles que esfregam as mãos para distribuir os tachos, não se esqueçam que o povo é que decide.

Hoje, quando fui abrir o frigorífico para tirar o leite para o pequeno-almoço, reparei num gráfico que o meu filho João colou na porta. Se com o PS foi a desgraça que conhecemos, com o PSD tivemos outras desgraças e teremos muito mais. Se aqui chegámos, bem no fundo, os responsáveis são PS e PSD que sempre nos desgovernaram.

Uma das grandes tomadas de consciência da manifestação Geração à Rasca, é que as pessoas percebem agora que PS e PSD são a mesma coisa. São os responsáveis por tudo isto.

No dia das eleições é favor não esquecer!

A Grande Fita

Depois de ouvir as notícias da uma, fui atestar o depósito de gasóleo. Confesso que já não o fazia à muito. Somente por uma questão psicológica. Prefiro ir mil vezes à bomba e abastecer vinte e cinco euros, do que deixar logo de uma só vez oitenta euros. No fim, vai dar tudo ao mesmo para minha infelicidade.

Claro que não sou camionista, mas só Deus sabe se não é esse o futuro que me tem reservado. Mas tudo isto para dizer, que estava metido numa fila infernal na bomba mais barata da região. Pessoas a discutirem porque há sempre os chicos espertos que têm manifesta alergia à espera, outras a buzinar e tantas outras a gesticular. Confesso, que no início senti a inutilidade do comprimido que tomo todas as manhãs para a tensão arterial. Mas depois, comecei a rir-me sozinho. Um rir nervoso porque isto não está para brincadeiras. Parecia que estava num filme. Numa cena, num qualquer país do terceiro mundo. Mas será que em muita coisa não estamos?

Depois de Cavaco Silva abrir a campanha eleitoral ao PSD no seu absurdo discurso de tomada de posse, vem agora Passos em passos de lebre, provocar a crise política porque as sondagens lhe são favoráveis. Passos nunca aprovou nenhum PEC. Passos nunca deu o aval a nenhum Orçamento de Estado. Passos até aprovou as duas Moções de Censura. Passos nem era do PSD durante os anos, e foram muitos, que o PSD governou Portugal. Passos quer parecer o salvador. Só não diz  de quem vai ser. Mas nós já sabemos. Porque Passos pertence ao mesmo filme que Sócrates. Ambos contracenam nesta já longa-metragem, “PS e PSD, os irmãos Metralha”. Um filme gasto com a fita quase a arder.

E nós cá estamos, sentados na plateia num qualquer cinema do terceiro mundo. Já basta de tanta pipoca amarga.

Que arda a fita para nos tirar desta fita.

Miseráveis

 

Um amigo meu telefonou-me irritado. Anunciou-me as medidas de José Sócrates para combater a crise. Juntos praguejámos. Comecei a fazer contas ao dinheiro que me vão roubar todos os meses. Fiquei triste. Fiquei revoltado. Mas para onde caminhamos? Sempre o povo. O povo que vive do seu trabalho. O povo que ganha menos. O povo injustiçado. O povo cada vez mais excluído. Sócrates e Passos brincam. E o povo que já não tenha dúvidas. Ou ficaremos assim para sempre, numa sociedade desigual e desumana, ou o povo se levanta e realiza outra desfolhada. Acordai!