José Sócrates

Jerónimo e os Outros Três

Quando abri a caixa do correio estavam bem lá no fundo e por baixo das cartas do BES, da PT e da EDP, três papeizinhos com as fotografias de Sócrates, de Passos e de Portas. As cartas foram guardadas no cesto de verga, aquele que todos os meses contabiliza as contas da família. Os papeizinhos foram directos para o caixote do lixo.

Não ando desatento apenas desiludido. Quando ouvi Passos Coelho dizer que esta crise duraria dez anos, fiz de imediato as contas à idade dos meus filhos. Um terá vinte e um anos e o outro dezasseis. Os meus pais tiveram uma vida de sacrifícios como a esmagadora maioria dos portugueses. O objectivo daquela geração era dar um futuro melhor aos seus rebentos. Assim o fizeram, e assim contribuiu o vinte cinco de Abril. Agora, não sei que futuro os meus filhos vão ter. Não sei se terei capacidade de lhes oferecer melhor que o meu pai e a minha mãe me ofereceram. Estou desiludido sim. Frustrado. Assustado.

Passos Coelho sabe do que fala. Só não diz quem são os responsáveis. Só esconde o que quer para o futuro do país. Mente, como Sócrates e Portas. E no meio deste turbilhão de incompetência e selvajaria, o povo perdeu a memória. A memória da consciência, da justiça e do rigor. No domingo a romaria da continuidade vai vencer. Que se desenganem os que pensam que Passos é diferente de Sócrates. A diferença está simplesmente na letra D. Um é PS o outro é PSD. E pelo meio aparece Portas, desejoso por se casar, ou com um, ou com outro. Não é por amor é por conveniência. E assim, Portugal vai continuar na sua decadência económica, social e política.

No domingo não vou seguir o caminho do rebanho intoxicado. Como disse alguém do povo ontem nas famosas arruadas, o senhor é honesto. Palavra nobre que caiu em desuso. Para mal de Portugal.

O Mágico

 

Ontem, vi Sócrates a apresentar as não medidas do FMI. E vi também Teixeira dos Santos, muito hirto, como se estivesse num velório. Confesso, que também eu fiquei muito hirto, para não usar outro adjectivo, esse digno da minha carteira.

Mas além de hirto, fiquei anestesiado e talvez até demente. Por alguns minutos pensei em votar pela primeira vez em José Sócrates. Achei que Sócrates nos salvou e que o FMI é bestial. Esqueci-me por completo que foi ele que nos enterrou.

 Eu, que nunca coloquei a cruz no partido da mãozinha e sou um anti-Sócrates primário, estava agora rendido ao senhor. Depressa dei uma valente chapada no meu rosto e acordei. Saí da anestesia.

Sócrates foi brilhante. De uma cartada, de uma cartola ou de uma cajadada só, matou dois coelhos. Arrasou por completo o PSD e principalmente Passos Coelho, e começou o caminho para o triunfo nas legislativas. Depois de semanas de pesadelos, Sócrates fez o país respirar de alívio. É certo que com muita magia e banha da cobra à mistura. Mas já não conhecemos Sócrates? Conhecemos, mas Sócrates é mágico e tem sete vidas como os gatos. Transforma coelhos em confetes e cai sempre de pé.

Iguais

Hoje podia ser um dia de festa. Sócrates foi embora. Mas, por estranho que pareça, não senti nenhuma alegria. Sei que agora vem aí o FMI. Sei que Passos escolheu o tempo certo. Não pensa no país mas em ser Primeiro-ministro. Portas aguça o dente a mais uma pasta ministerial. Talvez para comprar mais submarinos. E Jerónimo e Louçã por mais que preguem, e por vezes com muita razão, sabem que nunca se governará à esquerda em Portugal.

Passos Coelho é quinhentas vezes pior que Sócrates. Nunca fez nada por este país. Simplesmente (e já que ele falou em teatro), é o roberto dos grandes grupos económicos portugueses. Quer ser Primeiro-ministro para tornar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

Curioso, que ainda não fizera vinte e quatro horas que Sócrates bateu com a porta, já Passos se comporta como governante. Hoje de manhã já ouvi falar em subida de impostos. Ele que diga também que quer acabar com a escola pública, com os transportes públicos, com o Serviço Nacional de Saúde…

Passos, talvez gostasse de ser o Marcelo Caetano. Não eram necessárias eleições. Ou talvez como Manuel Ferreira Leite sugeriu, interromper a democracia por uns meses. Mas Passos Coelho e todos aqueles que esfregam as mãos para distribuir os tachos, não se esqueçam que o povo é que decide.

Hoje, quando fui abrir o frigorífico para tirar o leite para o pequeno-almoço, reparei num gráfico que o meu filho João colou na porta. Se com o PS foi a desgraça que conhecemos, com o PSD tivemos outras desgraças e teremos muito mais. Se aqui chegámos, bem no fundo, os responsáveis são PS e PSD que sempre nos desgovernaram.

Uma das grandes tomadas de consciência da manifestação Geração à Rasca, é que as pessoas percebem agora que PS e PSD são a mesma coisa. São os responsáveis por tudo isto.

No dia das eleições é favor não esquecer!

A Grande Fita

Depois de ouvir as notícias da uma, fui atestar o depósito de gasóleo. Confesso que já não o fazia à muito. Somente por uma questão psicológica. Prefiro ir mil vezes à bomba e abastecer vinte e cinco euros, do que deixar logo de uma só vez oitenta euros. No fim, vai dar tudo ao mesmo para minha infelicidade.

Claro que não sou camionista, mas só Deus sabe se não é esse o futuro que me tem reservado. Mas tudo isto para dizer, que estava metido numa fila infernal na bomba mais barata da região. Pessoas a discutirem porque há sempre os chicos espertos que têm manifesta alergia à espera, outras a buzinar e tantas outras a gesticular. Confesso, que no início senti a inutilidade do comprimido que tomo todas as manhãs para a tensão arterial. Mas depois, comecei a rir-me sozinho. Um rir nervoso porque isto não está para brincadeiras. Parecia que estava num filme. Numa cena, num qualquer país do terceiro mundo. Mas será que em muita coisa não estamos?

Depois de Cavaco Silva abrir a campanha eleitoral ao PSD no seu absurdo discurso de tomada de posse, vem agora Passos em passos de lebre, provocar a crise política porque as sondagens lhe são favoráveis. Passos nunca aprovou nenhum PEC. Passos nunca deu o aval a nenhum Orçamento de Estado. Passos até aprovou as duas Moções de Censura. Passos nem era do PSD durante os anos, e foram muitos, que o PSD governou Portugal. Passos quer parecer o salvador. Só não diz  de quem vai ser. Mas nós já sabemos. Porque Passos pertence ao mesmo filme que Sócrates. Ambos contracenam nesta já longa-metragem, “PS e PSD, os irmãos Metralha”. Um filme gasto com a fita quase a arder.

E nós cá estamos, sentados na plateia num qualquer cinema do terceiro mundo. Já basta de tanta pipoca amarga.

Que arda a fita para nos tirar desta fita.

A Onda no Arame

Nestes quatro mil quilómetros que fiz atrás e por vezes à frente de Manuel Alegre, assisti a vinte e seis discursos de Alegre. Treze em almoços, dois em jantares e onze em comícios.

Quase sempre me pareceu estar a assistir a um espectáculo de circo. Os Bloquistas eram os malabaristas. Os Socialistas os ilusionistas. Alegre o homem do arame.

O Bloco deixou de atacar o governo PS. Se um extraterrestre cai-se na arena pensaria que quem governava era o PSD e Cavaco.

 Os socialistas continuaram a vender ilusões.

Alegre esforçava-se para não cair. Agarrou-se ao perigo do FMI. Não explicou é que se o FMI entrar em Portugal é por culpa do seu camarada e apoiante Sócrates. Falou na esquerda como se o seu governo praticasse políticas de esquerda. Falou nos males dos mercados como se os seus camaradas socialistas do governo não alinhassem nas especulações dos mercados. Falou da protecção do estado social como se Sócrates não o estivesse a destruir. O Bloco aplaudia.

Domingo será melhor colocarem a rede por baixo do arame.

Nos dois comícios com a presença de José Sócrates, os Bloquistas não tiveram direito a subirem ao palco.

A Corda no Pescoço

Não há tema mais falado cá em casa que não seja a Educação. Primeiro, acredito na Escola Pública. Segundo, o João anda no 6º ano e o Filipe no 1º ano. Terceiro, casei com uma Professora. Quarto, também lecciono no Ensino Politécnico. E quinto, tivemos uma Lurdinhas que deu muito que falar e gritar.

Ontem os Professores começaram a fazer contas à vida. Sócrates com o coração partido deu mais uma machadada a quem trabalha. Como disse Jerónimo de Sousa ontem no Parlamento, o seu coração partido pouco me importa, o que me importa é a corda no pescoço que muitos portugueses sentem.

Existem professores que ponderam já vender a sua casa. Vender o automóvel. Outros vão perder cerca de quatrocentos euros (perda salarial e mais portagens nas SCUT). Há quem tenha o marido no desemprego e o filho na Universidade sem direito a bolsa. Há quem desespere num mar de impotência e desgosto.

A campainha toca e os Professores lá estão. Zangados, humilhados, mas dignos nas suas tarefas. Eles sabem que têm crianças e jovens como companheiros. Eles sabem que a sua nobre tarefa é ensinar. Eles sabem que o futuro do país está nas suas plateias.

Em 1993 encerrei-me numa Escola Primária em Cabanelas, concelho de Vale de Cambra. Nove crianças. Uma Professora. Carências a todos os níveis. Muito afecto. Hoje as nove crianças são adultas. Gostava de as voltar a fotografar. O Décio, o Pedro, a Maria e todos os outros onde estarão? Certamente neste país, com a corda no pescoço.

Miseráveis

 

Um amigo meu telefonou-me irritado. Anunciou-me as medidas de José Sócrates para combater a crise. Juntos praguejámos. Comecei a fazer contas ao dinheiro que me vão roubar todos os meses. Fiquei triste. Fiquei revoltado. Mas para onde caminhamos? Sempre o povo. O povo que vive do seu trabalho. O povo que ganha menos. O povo injustiçado. O povo cada vez mais excluído. Sócrates e Passos brincam. E o povo que já não tenha dúvidas. Ou ficaremos assim para sempre, numa sociedade desigual e desumana, ou o povo se levanta e realiza outra desfolhada. Acordai!

Acabou

Finalmente acabaram. Três actos eleitorais em tão curto espaço de tempo iam dando comigo em louco. Em primeiro lugar, porque me fartei de correr atrás dos candidatos e em segundo lugar, porque não senti alegria com os resultados.

Tanta coisa e continuamos a ter Sócrates como Primeiro-Ministro mas agora na versão dialogante. Continuamos a ter Rio na versão arrogante. Costa foi quem me deu alegria apesar da hora tardia. Com a ajuda dos comunistas lá deu um pontapé no sempre em pé que é Santana.

Fui a comícios, fui a megas jantares e a gigantes arruadas. Só me faltou as feiras mas até agradeci. Estive em apertos, apanhei banhos de suor e de maus cheiros. Fotografei milhares de beijos, ouvi barbaridades. Venha o Tony Carreira que está perdoado!

Depois chegava a casa, ligava a televisão e lá estavam os marretas (sempre os mesmos) dos analistas políticos que sabem tudo e não sabem nada. Por vezes são mais fúteis que As Tardes da Júlia.

Na minha caixa de correio, aquela que só serve para receber as contas para pagar no fim do mês, que saudades eu tenho de uma carta de amor, recebi uma carta do Presidente da Junta. É um daqueles dinossauros que nada faz e por isso a freguesia que gere é das mais mal tratadas do país. Escreveu que todos devem votar, mas se for nele melhor. Para o próximo mês vai começar as obras que a freguesia tanto necessita. Fiquei sem respiração porque muita merda já me tinham deixado dentro da minha preciosa caixa do correio, mas o senhor Presidente foi longe de mais ao pensar que eu sou um mentecapto. Mais de vinte anos como Presidente de Junta e só depois de uns dias das eleições é que vai começar as obras?

Sem espanto de todos o senhor Presidente ganhou as eleições.

Igual a ele, só um taxista do Porto que me disse que vivia noutro planeta. Perguntei qual. Vila Nova de Gaia, disse ele. E depois continuou. O Menezes é o maior. Dizem que endividou a Câmara, quero lá saber, não sou eu que vou pagar. Ó senhor, de manhã a minha rua até cheira a perfume.

Fiquei a pensar que o taxista também podia ser um bom Presidente de Junta, só neste planeta claro, que é Portugal.

RUI RIO ELISA MISERIA

As Caravanas

Existem dias assim. As caravanas encontraram-se na rua de Santa Catarina no Porto. O meu cartão de memória ficou com 4G de bloco central. Não descansei enquanto não o formatei, não fosse algum vírus liquidar a sua memória.

O povo foi-se arrebanhando na praça. O rosa e o laranja. Apupos. Empurrões. Uma bandeira laranja espezinhada. Depois cuspida com saliva de raiva. Por fim incendiada. Vai pró caralho, Seu filho da puta, Rebento-te todo. Dois velhos frente a frente. Nariz com nariz. Um rosa outro laranja. Ambos de faces vermelhas. Calma, Calma a merda, Estiveram quatro anos a gamar.

Ai a cabra que me apertou o pescoço, PSD,PSD,PSD, Anda cá que eu fodo-te, PS,PS,PS, Olha já aí vem a Manuela, Manuelaaaaaaaaaa, Vai-te embora, Vitória, vitória. E Manuela quase não se segurava com tantos encontrões, beijinhos e criancinhas.

Sou PS,PS,PS gritava uma velha em cima de um banco de jardim. Não me empurrem merda, Cuidado, Calem essa velha. Manuela descia a rua com sorriso de frete e um homem gritou Queres é tacho. Manuela continuou até desaparecer.

Na praça os rosas acalmaram ao som da música do saxofone. Os famintos do saco de plástico e do porta-chaves não davam tréguas às jovens rosinhas. Camaradas, já está a chegar. José sai do carro e é logo atacado com abraços e beijos. PS,PS,PS, Vitória, vitória, Ai deixem-me tocar-lhe, Caralho de confusão, Abram, abram, Deixem-no passar. Seguranças fazem uso dos seus braços.

Vamos ganhar, caralho. José parece cansado mas ri para todos. Ergue o punho. Fecha os olhos. Um jovem fura entre velhos exaltados e grita Ladrão, estou desempregado. É afastado mas José ouviu. José continuou até desaparecer.

Um taxista abre o vidro e grita Querem é mama, são todos iguais.

Manuela e José são.

ASM FERREIRA LEITE ASM FERREIRA LEITE ASM JOSE SOCRATES ADRIANO MIRANDA 4