Cavaco Silva

As Rifas

Somos um país de pedinchas. Temos os bombeiros nos semáforos, as rifas das escolas ou do clube de futebol, as latinhas para combater alguma doença, as esmolas nas igrejas, as comissões de festa da paróquia, os arrumadores, os vendedores de pensos rápidos, as associações com vários fins, as obras da igreja ou da casa do santo padre, o NIB para minimizar os prejuízos de uma catástrofe, ou o programa das Júlias para comprar uma cadeira de rodas ou um par de muletas.

Eu que não sou nada de caridades ou solidariedades encapotadas, fiquei tão sensibilizado ao saber que o cidadão Cavaco Silva não ganha para as despesas. Cá em casa e em nome de uma crise que o agregado familiar nunca contribuiu, já tivemos reduções salariais, fim dos subsídios de férias e Natal, aumento dos transportes e electricidade e por aí fora.

Mas apesar de todos estes sacrifícios, estamos na disposição de retirar uma percentagem dos nossos miseráveis rendimentos e doá-los ao cidadão Cavaco Silva. Eu e a minha mulher vamos também realizar rifas e pedir a todas as criancinhas que as vendam com fervor de caridade. Vamos rifar no 1º prémio Passos Coelho, 2º prémio Catroga e 3º prémio um bolo rei. Não gostamos de ver ninguém sofrer. E Cavaco Silva tem emagrecido tanto nos últimos meses. Estamos muito preocupados.

 

A Onda do Público

Quando a directora do Público, Bárbara Reis, lançou o desafio de dois fotógrafos acompanharem as campanhas eleitorais de Cavaco e Alegre, coloquei logo o dedo no ar. Fiquei com o Alegre. Nuno Ferreira Santos ficou com o Cavaco.

Lembrei-me dos velhos tempos em que todos os jornais enviavam equipas para cada candidato ou partido. Depois a crise, ou as crises, fizeram com que os fotojornalistas ficassem nas redacções. Agora Bárbara Reis, num acto de lucidez, apostou na velha receita. Os resultados ficaram demonstrados.

Com o aparecimento do on-line os métodos de trabalho alteraram-se. Eu e a fantástica Maria José Oliveira tínhamos os portáteis quase sempre ligados. Notícias e fotografias fresquinhas no sítio do Público. Todos os dias. O ritmo era de agenda. De manhã até à noite. Durante quase quatro mil e quinhentos quilómetros em quinze dias. Do outro lado da barricada, Nuno Ferreira Santos e Nuno Simas agiam da mesma forma.

O cansaço foi grande mas o ânimo maior. Chegámos ao fim com o dever cumprido. Mais magros ou mais gordos. Mais nódoa negra menos pisadela. Mais enjoados de carne assada ou com menos triglicerídeos.

Chegámos e quem ganhou foi o Público. Quem ganhou foram os leitores.

http://static.publico.pt/docs/politica/naestradacomoscandidatos/

A Onda do Lombo

Os quilómetros vão somando todos os dias. Alegre continua alegre. Ainda bem. Tem um rir afável e até contagiante. Diz umas piadas espontâneas como quando olhou para umas machadas numa banca de feira e disse serem boas para cortar umas cabeças. Alegre podia ser mais esforçado. Tirar mais as mãos dos bolsos, pelo menos quando está com a gente que trabalha.

Os quilómetros vão somando todos os dias. O lombo  continua no prato. Já perdi a conta às vezes que as garfadas me sabem sempre a lombo de porco como se o garfo fosse sempre o mesmo. Sabemos, nós os prós de campanhas eleitorais, que as ementas dos almoços ou jantares comício não são grande espingarda. De vez em quando trocamos uns telefonemas com os  colegas que acompanham os outros candidatos. Defensor Moura não serve almoços nem jantares. Coelho só pasteis de nata. Nobre, Cavaco e Alegre são convergentes nos pratos. Francisco Lopes vai destacado à frente nos bons e nutridos repachos. Restaurantes escolhidos a dedo ou camaradas a cozinhar e a servir.

Os quilómetros vão somando todos os dias. Dia vinte e três de janeiro acabará a maratona do lombo assado. Para alguns haverá lagosta e para outros enjoos. E o povo continua a comer, ou não.

A Onda

Para quem vira frangos há muitos anos, a maneira de fazer campanhas eleitorais não mudou quase nada. As redes sociais ainda não destruiram as bandeiras. Lembro-me que Freitas do Amaral oferecia chapéus tipo palhinhas, Cavaco Silva oferecia aventais, Mário Soares sacos de plástico e Álvaro Cunhal a palavra.

Colavam-se cartazes em qualquer parede limpa e Arnaldo Matos até pintava murais muito antes da invensão dos graffitis. O povo enchia praças. Os debates televisivos paravam o país. Muitas famílias zangavam-se. Muitas comadres odiavam-se.

Agora as ideias voaram como o saco de plástico. Já não é ecologicamente aceitável distribuir plástico. Já não é aceitável borrar paredes. Já não há tempo para as ideias ou ideologias. Chapéus, esses são cada vez mais. Há quem os enterrre e bem.

O marketing político manda. Vende-se um candidato como se vende um iogurte ou uma alheira de Mirandela. É tudo uma quetão de imagem. Mais light ou mais gorduroso.

 Por imperativos profissionais durante quinze dias caminho ao lado de Manuel Alegre. E lá está a máquina a funcionar, ou quase. Alegre é da velha escola. Como ele se gosta de auto-afirmar, é um anti-fascista. Mas, das duas uma, ou não aprendeu nada com trinta e cinco anos de campanhas eleitorais, ou pensa que basta ter televisão e uma bonita luz de palco para que no dia vinte e três suba à ribalta.

 Os milagres vão acontecendo como a multiplicação dos pães. Salas a metade são transformadas em salas cheias, bandeiras por detrás de Alegre dão a ideia de multidão, o staff grita e bate palmas, os autocarros transportam fieis de bem longe, os seguranças têm tiques de pouca liberdade, e Alegre continua alegre em cima do palco a proclamar a onda. Uma onda de água fria.

Chile e Terreiro do Paço

Se a lanterna se apagasse a escuridão total tomava conta de nós. Os olhos habituavam-se ao negro das paredes de carvão e os músculos mostravam o que valiam ao trepar as galerias. Molhados até aos ossos, homens também negros numa mistura de suor e pó, picavam o minério com a força bruta do orgulho que é ser mineiro. Eram centenas os que dia-a-dia serpenteavam a rocha num estudado conjunto de corredores subterrâneos onde as histórias de gerações eram escritas com a ponta do martelo. Bisavós, avós, pais, filhos, cunhados, primos, sobrinhos, padrinhos e enteados, todos eles desciam na jaula numa comunhão de homens fortes. Um dia a notícia chegou. Encerramento. A jaula parou e os homens de cara lavada desceram ao Terreiro do Paço. Cavaco Silva, Primeiro-Ministro, não os ouviu. A jaula nunca mais se moveu.

Soterrados no desemprego, não porque o carvão se tenha esgotado mas porque a política económica dos poderosos assim o exigia, os mineiros do Pejão viveram o maior de todos os dramas, querer comer e não poder. Ao verem os abraços e os beijos de cada mineiro chileno que renascia do chão, os antigos mineiros do Pejão sentiram a diferença de um país que tudo deu para salvar os seus mineiros e o outro, o país que tudo fez para que os seus mineiros desaparecessem.

O Chile deu uma lição ao mundo.

Fotografei as Minas do Pejão em Castelo de Paiva entre 1992 e 1993. Foi o trabalho fotográfico que mais me marcou. Sem querer, realizei um dos maiores levantamentos fotográficos sobre minas em Portugal. A minha homenagem a todos os ex-mineiros do Pejão.