campanha eleitoral

Acabou

Finalmente acabaram. Três actos eleitorais em tão curto espaço de tempo iam dando comigo em louco. Em primeiro lugar, porque me fartei de correr atrás dos candidatos e em segundo lugar, porque não senti alegria com os resultados.

Tanta coisa e continuamos a ter Sócrates como Primeiro-Ministro mas agora na versão dialogante. Continuamos a ter Rio na versão arrogante. Costa foi quem me deu alegria apesar da hora tardia. Com a ajuda dos comunistas lá deu um pontapé no sempre em pé que é Santana.

Fui a comícios, fui a megas jantares e a gigantes arruadas. Só me faltou as feiras mas até agradeci. Estive em apertos, apanhei banhos de suor e de maus cheiros. Fotografei milhares de beijos, ouvi barbaridades. Venha o Tony Carreira que está perdoado!

Depois chegava a casa, ligava a televisão e lá estavam os marretas (sempre os mesmos) dos analistas políticos que sabem tudo e não sabem nada. Por vezes são mais fúteis que As Tardes da Júlia.

Na minha caixa de correio, aquela que só serve para receber as contas para pagar no fim do mês, que saudades eu tenho de uma carta de amor, recebi uma carta do Presidente da Junta. É um daqueles dinossauros que nada faz e por isso a freguesia que gere é das mais mal tratadas do país. Escreveu que todos devem votar, mas se for nele melhor. Para o próximo mês vai começar as obras que a freguesia tanto necessita. Fiquei sem respiração porque muita merda já me tinham deixado dentro da minha preciosa caixa do correio, mas o senhor Presidente foi longe de mais ao pensar que eu sou um mentecapto. Mais de vinte anos como Presidente de Junta e só depois de uns dias das eleições é que vai começar as obras?

Sem espanto de todos o senhor Presidente ganhou as eleições.

Igual a ele, só um taxista do Porto que me disse que vivia noutro planeta. Perguntei qual. Vila Nova de Gaia, disse ele. E depois continuou. O Menezes é o maior. Dizem que endividou a Câmara, quero lá saber, não sou eu que vou pagar. Ó senhor, de manhã a minha rua até cheira a perfume.

Fiquei a pensar que o taxista também podia ser um bom Presidente de Junta, só neste planeta claro, que é Portugal.

RUI RIO ELISA MISERIA

Famintos

Os carros chegam. Param em segunda fila. De lá saem jovens apressados. O povo mal vê o primeiro saco agita-se. Os jovens pedem calma. Ao som das cornetas que debitam música fanhosa, começam a abrir as caixas de papelão.

O povo está faminto. Correm. Atropelam-se. É de borla. Estendem as mãos, riem, apertam-se num sufoco para alcançar uma camisola, uma caneta, um porta-chaves, um boné, uma bandeira, um saco de plástico, um papel. Depressa o chão fica com um novo tapete. Um tapete de papéis pisados e amarrotados com a fotografia do líder.

E o líder aparece. O cenário está já montado. O povo está faminto e contente. Já ganharam uma caneta. O líder vai e vem. Aperta um, beija outra. Olha para as câmaras e procura uma criança. O povo está em frenesim. Gritam. Já têm um porta-chaves.

E o líder discursa. Diz adeus. Os pneus do carro chiam. O povo está faminto. Descem a rua e continuam famintos. Uns de pão. Outros de hospitais. Muitos de emprego. Tantos outros de salários. Imensos de reformas. Todos eles famintos de felicidade.

Lá longe outros chapéus já estão a ser enfiados. O líder está feliz. Os famintos lá estão.

adriano miranda