Autor: 400asas

Onze + Nuno Veiga

Rua do Comércio. Sem comércio. Moribunda esperando pela morte que espreita a cada esquina, a cada montra, a cada balcão. E nas fotografias de Nuno Veiga somos transportados ao passado e levados a adivinhar o que terá sido aquela rua e todas as ruas do Alentejo. Vemos a menina com sua mãe a comprar vestidos de chita. Agrários sentados no café Alentejano e a praça repleta de camponeses, recrutados por uma moeda para desventrar a terra. Podemos ver o ardina com a notícia da revolução. A camponesa a comprar os livros da escola agora obrigatória para os seus filhos. E no café Alentejano as mesas, as chávenas e a palavra livre são de todos e para todos. Na praça vende-se gelados e balões.

Podemos ver o Alentejo nas fotografias de Nuno Veiga. Rostos de rugas teimosas, a teimosia da sobrevivência impõe-se à razão do mercado. Ou a teimosia da saudade. Já não há balões nem gelados. Tantas vezes sonhados e depois concretizados. Agora temos ruas vazias de lojas vazias. E bem lá no alto temos a placa que diz Rua do Comércio Antiga Rua da Cadeia. Talvez seja tempo de voltar ao nome antigo neste tempo da prisão da felicidade.

fotografia de Nuno Veiga

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Onze + Adriano Miranda

Escrever sobre mim não é um exercício fácil. Ainda bem. Sou fotógrafo quase por acidente. Quis ser arqueólogo quando todos queriam ser futebolistas ou médicos. Quis ser escultor mas alguém me ensinou a moldar as folhas do Record Rapid grau um, grau dois, grau três, grau quatro e grau cinco mais depressa que partir pedra ou moldar barro. Agora não sei fazer mais nada. Óptimo para a alma, péssimo para a carteira.

Quando dava aulas no AR.CO, a minha escola de eleição, proibia logo na primeira aula os aspirantes a fotógrafos, fotografarem velhinhas com gatos à janela, vasos de flores ou mãos dadas ao pôr-do-sol. Decretava logo morte aos postais. E ainda é assim.

A fotografia não é gira ou bonita. Não é adorno. A fotografia é agressiva e fere. A boa fotografia. Já nos bastou anos a fio dos miseráveis Salões de Arte Fotográfica que invadiam Portugal. Fotografia de regime. Sem pensamento. E agora, cada vez mais é necessária a Fotografia de Intervenção. Aquela que não enfeita mas desmascara. Aquela que nos põe a pensar e muitas vezes a agir.

Quando temos ministros com canudos tipo aprenda inglês em 24 horas ou se suspende a Constituição por um ano, não podemos brincar aos postais.

fotografia de Adriano Miranda

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Onze + José António Rodrigues

Fernando tem quarenta e um anos e é açoriano. Pai de seis filhos e avô de dois netos. Trezentos euros por mês é o rendimento para toda a família. Fernando pertence pois aos catadores, homens que procuram no lixo dos outros o sustento para a sua família.

José António Rodrigues fez o meu gmail tremer quando abri a sua fotografia. Colei as minhas costas às costas da cadeira e fiquei a olhar o Fernando na tentativa falhada de dialogar com ele. Era isso que eu queria. Falar e aprender como se pode viver assim. E se possível fazer o impossível para o salvar. A si, à sua companheira e às oito crianças.

Fernando está emparedado na vida e nos contentores do seu sustento. Fernando come asas de frango com imensa vontade de voar. Mas está emparedado. Amarrado. À indignidade, à solidão, à miséria.

E mesmo à minha frente a televisão debita ruídos de ministros estridentes, com a bandeira de Portugal na lapela. Que ministro pode usar o símbolo nacional quando cria Fernandos e Marias? Só ministros banhados a cinismo maciço.

fotografia de José António Rodrigues

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Onze + Lara Jacinto

Lara aproximou-se e perguntou-me quase a medo – podes dar uma opinião? Olhei o monitor e as imagens de Lara iam caindo como água milagrosa de uma cachoeira. Pensei com os meus botões – mas o que é isto?

Fiquei preso. As fotografias de Lara eram calmas e intensas. Promíscuas. Adultas. Maduras. Não olhando para questões técnicas que é o que menos interessa numa boa fotografia, Lara fez-me pensar o que estaria ela ali a fazer. Numa redacção de um jornal a estagiar. Lara não tinha fotografias para estagiar. Lara tinha fotografias para ser fotógrafa a tempo inteiro. Mas Lara ali estava com a sua teimosia. Mas bem lá no fundo a contra gosto. E com total razão.

Lara acabou o estágio. E a miopia da contabilidade cegou uma excelente contratação. E Lara partiu. Precária. Fruto da crise. Crise de valores e crise de direitos. E eu nunca mais esqueci Lara. As suas fotografias ainda aqui estão como sangue percorrendo nas veias.

Empenhei-me para que Lara fosse uma das 12. E agora, que Lara viaja por terras esquecidas, Bragança, ficamos os 11 arrepiados com as imagens que Lara nos dá. Força de estética sem gratuidade ou receitas, e voz aos que nasceram mudos.

Lara é assim. Uma Fotógrafa a tempo inteiro.

fotografia de Lara Jacinto

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Onze + Rodrigo Cabrita

Ainda me lembro como se fosse hoje, daquela conversa em milhares de conversas próprias de fotojornalistas enquanto esperam e muitas vezes desesperam que os acontecimentos simplesmente aconteçam, de me falarem de um puto do DN. Memorizei o seu nome e quando desfolhava o diário procurava fotografias do puto ruivo.

O puto era bom. O puto é bom. E se a qualidade do seu olhar não se discutia, o que mais me fascinou no ruivo foi a sua camaradagem mandando sempre a ridícula e mesquinha concorrência às malvas.

O puto fez-se homem, ou melhor, o puto já era um senhor. E hoje a Carminho com 3 quilos e meio descobriu o mundo no hospital da Luz. E se bem sei, a bebé Carminho já se tornou a modelo favorita do puto ruivo, de barba desalinhada e retorcida. O Rodrigo Cabrita é pai pela segunda vez. Merecido, abençoado.

Hoje o 121212 está em festa. Festa da vida. E como as velas que se colocam no bolo doce de muitas vidas amargas, o 121212 passa a ser 131212. A Carminho irá soprar infinitas velas de um bolo doce de uma doce vida.

Parabéns!

fotografia de Rodrigo Cabrita

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121212 Mais Um

Os soldados tinham metralhadoras mas sorriam. Vestiam farda mas tinham cravos. E o velho televisor Radiola mostrava a quase todo o país – a RTP não chegava a todo o território – imagens da revolução. Dos doze, uns eram crianças, outros adolescentes e alguns nem projecto sonhado. Mas a revolução foi feita para todos e quase com todos. E mesmo os que ainda não tinham nascido, teriam à sua espera um país livre e justo. Salgueiro e tantos outros pensavam assim.

E naquele tempo a prata ganhou asas. Fotografias de gente a construir um novo país. Laboratórios cheios de vida ao som da luz vermelha. É o que nos diz Eduardo Gageiro, Luís Vasconcelos, Alfredo Cunha, Carlos Gil… A história ali tão perto de nós. A preto e branco transbordando cor.

E agora estamos aqui. Os doze. Virados para um país livre mas amarrado. E já sem o som da luz vermelha, mas com disparos de obturadores irritados. Indignados. Faremos história. Não a história de Luís, Carlos ou Eduardo, mas outra história bem mais triste e cruel.

Somos doze mais um, Salgueiro.

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fotografia de Adriano Miranda

Néon 121212

“Escava o poço antes que tenhas sede”, provérbio chinês

Nas traseiras de cada fotograma mora um trabalho árduo, de uma paciência sem fim. Um querer caminhar que nem sempre escolhe o melhor alcatrão. O 121212 está na estrada desde Janeiro. Tem feito o seu percurso e agora chegou a hora de colocar o néon vermelho bem na frente da caravana. Somos o 121212!

Sabemos os perigos que enfrentamos. Sabemos as dificuldades que mastigam qualquer ideia válida. Sabemos muito melhor, o país que temos. Mas somos teimosos e a caravana vai continuar. É nosso compromisso que as centenas de fotografias produzidas por olhares -palavra banalizada pelos fotógrafos – cruéis e estupefactos, cheguem a todos vós como um furacão que rodopia sem avisar. É para isso que trabalhamos todos os dias, para o livro que alertará e comoverá.

Por isso, lançámos a campanha Subscrever é ser Solidário. Vinte euros, uma nota solidária com o 121212 que ajudará à edição do livro. O teu apoio é demasiado importante. Vale muito mais que uma estúpida nota de uma moeda que nos levou até aqui, à crise. Vale a fraternidade. Palavra antiga.

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Quem subscrever receberá um exemplar autografado, numerado e o seu nome constará no livro como Subscritor Solidário.

fotografia de  Adriana Morais

Os 12 do Ano 12

Durante a minha rebeldia de adolescente por vezes apanhava uns puxões de orelhas dos meus pais. Numa dessas chamadas à consciência e à razão, o meu pai disse-me uma frase que me marcou e marca em tudo o que faço; construir é muito difícil, destruir é muito fácil.

Talvez o 121212 seja um bom exemplo para a frase do meu pai. Existem sempre os que se lamentam e os destruidores. Mas existirão sempre os construtores. Os doze obreiros desta luta contra a maré que é o projecto 121212, só querem construir uma narrativa de imagens que para além dos píxeis, sinceramente isso é redutor, seja uma narrativa social, política (na verdadeira nobreza da palavra) e histórica. Que morda e que faça pensar. Que seja Fotografia em toda a sua plenitude.

Somos doze. Podíamos ser dois, vinte, cinquenta ou setenta e oito. Muitos nomes fazem falta ao 121212. Companheiros de estrada e de empurrão. Mas foram estes os desafiados. Desafiados a produzirem um trabalho exemplar que honre a Fotografia. Fotografia sem dono nem sábios, mas de obreiros incansáveis no olhar e no coração.

Estamos a caminho. A trabalhar. E obrigado a todos os abraços e a todos os incentivos que temos vindo a receber, como o ciclista recebe quando teimosamente trepa a montanha. Estamos cá. E no dia doze, do doze, de dois mil e doze cortaremos a meta de pé.

[fotografias de Lara Jacinto e José Manuel Ribeiro]

Mora

O chão de areia amarela substituiu os carris de ferro. O tempo parou e podemos adivinhar as histórias daquela estação que nunca mais verá o comboio. Naquele cais houve muitos encontros e desencontros, muitas chegadas e muitas partidas, num Portugal cinzento e num Alentejo subjugado. Houve certamente lágrimas mas também muitos sorrisos e laços de braços.

Ontem, a estação foi um apeadeiro enorme. Em nome da cultura e da Fotografia os sorrisos voltaram a Mora. Abraços consentidos e sentidos, amizades que o tempo não apaga, gente boa que todos os dias trabalha, uns no fio da navalha outros no fio da precariedade. Eu estive lá pela primeira vez. Recebi um prémio que pouco importa tal foi a imensidão de todos nós. Calor humano em estado puro. É o que me vai fazer voltar a Mora todos os anos.

O meu filho João, cumpridos os quinhentos quilómetros de viagem, disse-me que quando for grande quer concorrer aos prémios Estação Imagem/Mora. Diz ele que adorou. Que melhor elogio que a sinceridade de uma criança. Assim como Mora nunca sonhou que um dia o comboio não mais apareceria ao fundo daquela imensa recta, também eu quero sonhar que a Estação Imagem vai viver muitos e bons anos. Quero lá ir aplaudir o meu filho.

Parabéns à Câmara Municipal de Mora, parabéns a todos os premiados e em particular aos nossos colegas moçambicanos que nos mostraram o potencial da escola moçambicana, parabéns a todos os fotojornalistas e parabéns do tamanho do céu à Estação Imagem.

Fernando Ricardo, não resisti à tentação pelo simples facto que adorei esta sua fotografia. Pensei muito antes de a publicar pois não é minha e não lhe pedi autorização. Alguma coisa…repreenda-me! Obrigado e um abraço.

[fotografia de Fernando Ricardo]

 

Limoeiros

 

Aqui estamos nós. Se no último encontro reunimos na adega, desta vez foi numa sala enamorada por limoeiros. Adriana Morais, Adriano Miranda, José Carlos Carvalho, José Manuel Ribeiro, Lara Jacinto, Nuno Fox, Nuno Veiga, Rodrigo Cabrita e Vasco Célio discutiram, com alma e coração, Fotografia. E se pelo meio nos degustámos com uma bela feijoada de chocos feita por mãos sábias e calejadas, e regámos com belos vinhos algarvios, a discussão não parou e a muitas conclusões chegámos. Brevemente, Portugal saberá e se espantará. De momento, só podemos partilhar a gostosa conclusão de como é bom estar entre amigos e discutir com a liberdade de pensamento a passear sobre nós.

Vai ser de liberdade o que nós estamos a preparar. Sem ela nada feito.