Henrique Amaral

Todos ansiavam pelo mês de Março. Chegava a Feira. Depois de Américo Tomás cortar a fita, os carrosséis começavam a girar e as luzes a brilharem. E lá estava o Poço da Morte, com os heróis de botas de cano alto a exibirem-se em cima das motos para atraírem o povo.

Henrique Amaral fugiu de casa, a pé, de Mangualde até Aveiro. Atraído pelo Poço que vira em Viseu aos 8 anos, só parou quando conseguiu emprego na Feira de Março, no Poço que tantas vezes lhe roubou o sono. Ficou feliz e foi feliz. Podia ter tido uma vida melhor, mas o que Henrique Amaral queria, era a vida da feira, era viver no Poço da Morte.

Com 82 anos e uma muleta, Ti Henrique voava como um pássaro livre dentro do seu Poço. O cheiro a gasolina invadia os pulmões dos espectadores e o roncar dos motores fazia o Poço abanar. Mas depressa o medo desaparecia ao ver o homem que se transfigurava em cima da sua mota velha e sábia. Como o dono.

A Feira ia fechar e o «melhor espectáculo do mundo em motas» estava a fazer o seu último show. Henrique Amaral ouviu e sentiu as últimas palmas já deitado numa maca do INEM. Ironia do destino, tudo começou em Aveiro e tudo acabou em Aveiro. O Poço da Morte terminou.

Agora Henrique Amaral tem um carrossel de cisnes.

Hoje, no Público P2 com texto de Patrícia Carvalho e no Público P3 com fotos e texto de Adriano Miranda.

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