Duas Velhas

O telemóvel toca. Redacção. Antes de atender adivinho que algo aconteceu. Um mini-tornado [a definição correcta é tornado fraco]. Podes ir? Posso! Onde? No Paço.

Não me esforcei muito para encontrar os destroços. Logo ali, mesmo à entrada da aldeia, homens de coletes florescentes procuravam arredar da estrada os adobes com história. Andei com o passo acelarado e os sinais da destruição nocturna eram cada vez mais visíveis.

Árvores desventradas, chaminés derrubadas, telhados sem telhas, parabólicas voadoras, portas partidas, gente sem casa. Como um pelotão, os humanos tentavam reconstruir os telhados, limpavam as ruas, cortavam as árvores derrubadas. Alguns não faziam nada, impotentes ou curiosos.

Duas velhas chamaram-me. Entre. Ficámos sem casa. Os três cães ladravam furiosos. Tudo era sujo. Negro. Miserável. O telhado desapareceu por completo. Tudo estava molhado. Tudo era mais miserável. Já veio cá alguém da Câmara? Já. Mas filme para ver se nos dão uma casa nova. Fotografei. Com amargura. Saberia que em nada podia ajudar as duas velhas. Depois de fotografar uma cozinha, agora a céu aberto, desejei-lhes felicidades. Felicidades senhor? Os cães ladraram ainda mais, esforçando-se para partirem as correntes que lhes apertavam as gargantas.

Acho que merecia ser mordido.

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