São Crianças

Estamos no país dos Estudos. No país das Reformas. No país onde os Estudos não dão em nada e as Reformas são feitas para acabar com a última Reforma.

Fui hoje cortar o pouco cabelo que ainda me nasce e li no Jornal de Notícias que as crianças estão horas a mais nas creches. E que 90% do tempo é passado a ver televisão. O Público diz que são 70%. Depois de um bom pente zero lá fui ouvir o Fórum da TSF e o tema era o mesmo. Uma mãe estava indignada por saber que as Educadoras de Infância deixam as crianças horas e horas em frente da televisão. Isso já os pais fazem, dizia a mãe. Resta então perguntar porquê tanta indignação.

Depressa os pais, sem lerem o Estudo, atiram a pedra ao alvo mais apetecível, as Educadoras, as Auxiliares e os Professores, fruto ainda de quatro anos de guerrilha feita pelo Ministério da Educação ao pessoal da Área Educativa.

O que os Estudos que por aí se fazem demonstram, é que vivemos numa sociedade desigual, desequilibrada, pouco solidária e fraterna. Uma sociedade com graves problemas sociais e laborais onde proliferam como cogumelos a precariedade, os baixos salários, o desemprego, a pressão patronal e a desumanidade. As crianças pagam a factura da sociedade que os adultos constroem. E no meio deste colectivo injusto e desequilibrado que é o nosso país, resta a muitas crianças a Creche, a Escola, como suporte educativo e emocional para nalgumas horas do dia serem felizes. É lá que têm alimento, é lá que têm a compreensão, é lá que têm o carinho, é lá que têm os amigos e é lá que brincam.

 Tenho dois filhos. Têm Bilhete de Identidade e Número de Identificação Fiscal. São cidadãos portugueses. São menores. São crianças. Cinco e dez anos. O Estado entendeu, ou Bagão Félix então Ministro das Finanças assim o quis, que os meus dois filhos não tivessem direito ao Abono de Família. No seu entender são filhos de pais ricos! São simplesmente crianças, e com as crianças não deve existir descriminação! E é neste bolor que ainda persiste e não acabou em Abril de setenta e quatro, que o nosso país encalhou ao sabor de dirigentes que se moldam, que mentem, que são incompetentes, frios e irresponsáveis.

Hoje levei o Filipe à Creche. E nunca de lá saí com algum sentimento negativo. Confio e sei que o Filipe adora a Escolinha. Não pela cor das paredes mas pela Cláudia, pela Sónia, pelo Inglês, pelo feijão-frade, pela natação, pela dança, pelo mimo, pelo que aprende, pelo que faz. Porque o Filipe sabe que é feliz.

Como uma amiga me disse ao contar as discussões com a patroa, sabe senhora eu também sou gente!

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