Famintos

Os carros chegam. Param em segunda fila. De lá saem jovens apressados. O povo mal vê o primeiro saco agita-se. Os jovens pedem calma. Ao som das cornetas que debitam música fanhosa, começam a abrir as caixas de papelão.

O povo está faminto. Correm. Atropelam-se. É de borla. Estendem as mãos, riem, apertam-se num sufoco para alcançar uma camisola, uma caneta, um porta-chaves, um boné, uma bandeira, um saco de plástico, um papel. Depressa o chão fica com um novo tapete. Um tapete de papéis pisados e amarrotados com a fotografia do líder.

E o líder aparece. O cenário está já montado. O povo está faminto e contente. Já ganharam uma caneta. O líder vai e vem. Aperta um, beija outra. Olha para as câmaras e procura uma criança. O povo está em frenesim. Gritam. Já têm um porta-chaves.

E o líder discursa. Diz adeus. Os pneus do carro chiam. O povo está faminto. Descem a rua e continuam famintos. Uns de pão. Outros de hospitais. Muitos de emprego. Tantos outros de salários. Imensos de reformas. Todos eles famintos de felicidade.

Lá longe outros chapéus já estão a ser enfiados. O líder está feliz. Os famintos lá estão.

adriano miranda

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