Génio

O pai de um colega do meu filho João estava desempregado. Todos os dias saía de casa pela sete horas da manhã para que o filho de nove anos não se apercebe-se do drama do pai.

Drama, que só de pensar perturba. Eu sinto um buraco negro. Todos os dias pelas sete horas da manhã tenho a alegria de ir trabalhar. Mantenho a alegria mas o buraco negro em forma de pânico começa a alastrar. Dou comigo a olhar o infinito com uma vontade enorme de ver o futuro passar. Sinto vontade de ser velho, daqueles velhos que sabem que todas as horas de respiração são mais uma vitória sobre a morte. Velho, para já não me poderem despedir. Velho, para ainda conseguir ter reforma. Velho, para ver os meus dois filhos adultos e encaminhados. Velho, para poder morrer com o dever cumprido.

Lutei sempre para ser feliz e nunca pensei chegar aqui. Viver ou sobreviver num país financeiramente selvagem. Cruel na sua economia. Socialmente cada vez mais desumano e imoral. Sinto-me triste e quase derrotado. Impotente.

Fui buscar o meu filho João à escola. Olhei-o de longe. Ele correu em esforço devido ao peso da mochila. Pai, tenho uma surpresa, Qual ?  Tirei satisfaz muito bem a Matemática, Parabéns e como correu o de Língua Portuguesa? Correu muito bem e na segunda tenho a Estudo do Meio e já sabes, vai ser cem por cento ou não seja eu o génio. Afaguei-lhe a cabeça e ri de contente. Ele auto-intitula-se o Génio do Estudo do Meio.

São tantos os Génios assim que Portugal necessita. Honestos, sinceros, convictos, trabalhadores, alegres a cem por cento.

adriano miranda

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