Trinta e Três Anos de Música Fiada
Setembro 24, 2009
Em trinta e três anos os músicos foram estes:
1976, Mário Soares, PS
1978, Mário Soares, PS
1978, Nobre da Costa, PSD-CDS
1979, Mota Pinto, PSD
1980, Maria de Lurdes Pintasilgo
1980, Sá Carneiro, PSD
1981, Pinto Balsemão, PSD-CDS-PPM
1981, Pinto Balsemão, PSD, CDS, PPM
1983, Mário Soares, PS, PSD
1985, Cavaco Silva, PSD
1987, Cavaco Silva, PSD
1991, Cavaco Silva, PSD
1995, António Guterres, PS
1999, António Guterres, PS
2002, Durão Barroso, PSD, CDS
2004, Santana Lopes, PSD,CDS
2009, José Sócrates, PS
Em trinta e três anos o PSD esteve no governo dez vezes, o PS seis vezes, o CDS cinco vezes e o PPM duas vezes. E Portugal está assim?

As Caravanas
Setembro 24, 2009
Existem dias assim. As caravanas encontraram-se na rua de Santa Catarina no Porto. O meu cartão de memória ficou com 4G de bloco central. Não descansei enquanto não o formatei, não fosse algum vírus liquidar a sua memória.
O povo foi-se arrebanhando na praça. O rosa e o laranja. Apupos. Empurrões. Uma bandeira laranja espezinhada. Depois cuspida com saliva de raiva. Por fim incendiada. Vai pró caralho, Seu filho da puta, Rebento-te todo. Dois velhos frente a frente. Nariz com nariz. Um rosa outro laranja. Ambos de faces vermelhas. Calma, Calma a merda, Estiveram quatro anos a gamar.
Ai a cabra que me apertou o pescoço, PSD,PSD,PSD, Anda cá que eu fodo-te, PS,PS,PS, Olha já aí vem a Manuela, Manuelaaaaaaaaaa, Vai-te embora, Vitória, vitória. E Manuela quase não se segurava com tantos encontrões, beijinhos e criancinhas.
Sou PS,PS,PS gritava uma velha em cima de um banco de jardim. Não me empurrem merda, Cuidado, Calem essa velha. Manuela descia a rua com sorriso de frete e um homem gritou Queres é tacho. Manuela continuou até desaparecer.
Na praça os rosas acalmaram ao som da música do saxofone. Os famintos do saco de plástico e do porta-chaves não davam tréguas às jovens rosinhas. Camaradas, já está a chegar. José sai do carro e é logo atacado com abraços e beijos. PS,PS,PS, Vitória, vitória, Ai deixem-me tocar-lhe, Caralho de confusão, Abram, abram, Deixem-no passar. Seguranças fazem uso dos seus braços.
Vamos ganhar, caralho. José parece cansado mas ri para todos. Ergue o punho. Fecha os olhos. Um jovem fura entre velhos exaltados e grita Ladrão, estou desempregado. É afastado mas José ouviu. José continuou até desaparecer.
Um taxista abre o vidro e grita Querem é mama, são todos iguais.
Manuela e José são.




Famintos
Setembro 22, 2009
Os carros chegam. Param em segunda fila. De lá saem jovens apressados. O povo mal vê o primeiro saco agita-se. Os jovens pedem calma. Ao som das cornetas que debitam música fanhosa, começam a abrir as caixas de papelão.
O povo está faminto. Correm. Atropelam-se. É de borla. Estendem as mãos, riem, apertam-se num sufoco para alcançar uma camisola, uma caneta, um porta-chaves, um boné, uma bandeira, um saco de plástico, um papel. Depressa o chão fica com um novo tapete. Um tapete de papéis pisados e amarrotados com a fotografia do líder.
E o líder aparece. O cenário está já montado. O povo está faminto e contente. Já ganharam uma caneta. O líder vai e vem. Aperta um, beija outra. Olha para as câmaras e procura uma criança. O povo está em frenesim. Gritam. Já têm um porta-chaves.
E o líder discursa. Diz adeus. Os pneus do carro chiam. O povo está faminto. Descem a rua e continuam famintos. Uns de pão. Outros de hospitais. Muitos de emprego. Tantos outros de salários. Imensos de reformas. Todos eles famintos de felicidade.
Lá longe outros chapéus já estão a ser enfiados. O líder está feliz. Os famintos lá estão.

A Bilha
Setembro 22, 2009
Tinha uns cinco anos quando tive o meu primeiro contacto com o vinho. O meu avô mandou-me ir à adega encher a bilha de inox . Antes de abrir a torneira da pipa e fazer jorrar o líquido vermelho escuro, jorrei o pouco vinho que ainda estava na bilha na minha pequena boca. Conclusão, não bebi nada e quem se consolou foi a minha camisola branca que ficou ensopada em vinho.
Ao entrar na cozinha o meu avô só se riu a bom rir e a minha mão só gritou e não me bateu. Desde aí nunca mais tive a tentação de me consolar com o líquido dos adultos. E também não sei quando perdi a virgindade com um bom copo três. Lembro-me de participar nas vindimas, do cheiro intenso e belo das uvas americanas. De entrar no lagar e pisar, de ajudar a preparar os pipos e de engarrafar. Lembro-me que a casa do meu avô era uma casa farta, de tudo, até de afectos.
Não percebo nada de vinhos. Mas mesmo nada. E fico zangado. Desde que trabalho no Porto fotografo muito vinho, muito Douro, muitas provas. Fico a olhar como o burro para o palácio, para os orgasmos que os peritos em vinho têm ao meter um copo na boca. Primeiro fazem dançar o vinho dentro do copo, cheiram e depois saboreiam e dão um gemido como um uuummmhhhh. E discutem a temperatura ideal, os paladares as frutas até silvestres, se casa bem com carne ou peixe, que custa uma garrafa mais de mil euros. Falam das castas castelão, aragonez e trincadeira, deixam o vinho abrir, se é suave, aveludado ou agreste. Mas mais incrível, é que se fartam de beber e nunca ficam alegres, ou seja, bêbados.
Passei este fim de semana nos copos. Fui até à maravilhosa cidade de San Sebastian para me consolar com a comida do famoso chefe Mikel Gallo e com os vinhos do Douro. Lá estavam os especialistas do prato e do copo. E no meio de tantos gemidos e considerações ao vinho, eu lá fui bebendo sem sujar a minha camisa branca, a única coisa que aprendi desde que fui à adega do meu avô.

Só
Setembro 14, 2009
Adormeci a pensar. A dormir sonhei. Tremia. Estava assustado.

Preso.

Um fantasma olhava para mim. Agitei as memórias. Quase sufoquei.

Tentei chamar por ela. Ela dormia.

Caí a pique. Gritei.

Chegou a força. A paz.

Voei. Só não sei até quando.

Tibães
Setembro 9, 2009
Lembro-me de o visitar uma vez por ano nos Encontros de Imagem de Braga. Abandonado e em ruínas, mas imponente e majestoso.
Percorria os longos corredores, as pequenas celas, a grande cozinha, os belos jardins e pensava como era possível o Mosteiro de Tibães ter chegado até aqui, assim, desprezado e triste.
Fundado nos finais do século XI, quando o Condado Portucalense se começava a afirmar, albergou monges até mil oitocentos e trinta e quatro, ano em que o Mosteiro foi encerrado e os seus bens vendidos em hasta pública. Passados cento e cinquenta e dois anos o Estado Português resgata o Mosteiro que estava nas mãos de privados. Ao fim de vinte e três anos o Mosteiro de Tibães está recuperado e reabilitado numa obra magnífica.
Museu, Hospedaria Monástica e Residência Religiosa, Tibães volta a partir de hoje a ter uma nova vida, a vida da nossa história.
Parabéns Mosteiro de Tibães!

Filipe
Setembro 4, 2009
No dia dois de Setembro o meu filho Filipe fez cinco anos. Tínhamos projectado uma Carlota mas o pilas teimou em fazer a desfeita. Ainda bem.
Estava eu a editar a Fotografia do jornal Público quando a Paula me telefonou. Vem buscar-me, as águas rebentaram. Fiquei nervoso e só lhe disse para chamar uma ambulância. Senti medo de não chegar a tempo ao hospital. Eram umas doze horas e afinal o Filipe só conheceu o mundo às cinco e meia. Tive tempo para roer as unhas, perder o carro, atender os telefonemas da sogra e da minha mãe, ver ambulâncias a chegarem e a partirem. No Hospital de Santa Maria os pais ficavam cá fora, junto à porta de entrada. Sem notícias, olhávamos uns para os outros, nervosos, sempre na esperança de ouvir o nosso nome no altifalante, que nos comunicaria o seu filho nasceu, pode subir.
Lá chegou a hora do Filipe abrir os olhos no mundo, e a minha hora de subir aquelas escadas cremes e usadas para o conhecer. Lembro-me que as pernas não me tremiam tanto quando do nascimento do João. Mas tremiam. Como será ele?
Num corredor quase escuro lá estava. Pequenino, deitado junto da mãe combalida e feliz. Com fome. Olhos fechados procurando a mama. Sorri e chorei.
Cinco anos passados, a casa transbordou de amigos para lhe cantarem os parabéns. O Filipe é expressivo, brincalhão, inteligente, refilão, mas muito, mas mesmo muito, meigo e carinhoso. São bons os seus beijos espontâneos e os seus abraços de Tarzan.
O Filipe é o meu segundo Herói. Sou feliz!

Giões
Agosto 22, 2009
As férias acabaram. Quase um mês sem vestir calças nem sapatos. Só sol. Como o dinheiro nas minhas mãos não se multiplica, este ano fomos (eu, a Paula, o João e o Filipe) para casa da sogra no Algarve. E como José Sócrates considera que com os meus rendimentos já pertenço à classe média (Sarkozy considerar-me-ia da classe baixa) ter uma casa algarvia é um luxo e um desejo de muitos lusitanos.
Tive sorte. No meio de alguns namoros fui atrás da moura encantada e a muito custo lá descobri no mapa a sua aldeia. Claro que a moura tinha mesmo muito encanto. E para que não restem dúvidas (ela tem por hábito ler este blog) ainda tem o mesmo encanto e mais alguns. A aldeia dá pelo nome de Giões e fica no concelho mais pobre de Portugal, Alcoutim. Encravada nos montes de estevas o casario branco brilha ao longe. O sol queima teimosamente e a noite é repleta de estrelas. No verão a aldeia fica cheia de homens, mulheres, jovens, crianças. No único café repartem as mesas e as conversas. As crianças andam de bicicleta, jogam à bola. Giões no verão é uma comunidade onde os medos e os preconceitos da cidade ficam esquecidos, enterrados. Giões no inverno é quase fantasma.
Aprendi a caminhar pelos montes áridos. Apanhar amêndoas e parti-las com as pedras dos muros. Abrigar-me do sol na copa de uma figueira e degustar figos. Apreciar a rapidez dos coelhos e das lebres e a audácia das perdizes. Ali sinto o olhar sereno e contemplo os campos abandonados, os currais destruídos, os ribeiros secos, as amendoeiras mortas. Ali existe um animal em vias de extinção, o Homem.
Algumas mulheres arregaçaram as mangas e formaram a Associação Grito d’ Alegria, Amigos de Giões. Para que aquela terra não morra. Tornei-me sócio.
A música voava pelo céu. Dançava-se. Bebia-se. Cantava-se. A festa de Giões este ano está magnífica, dizia um velho. Lá no cimo, a uns cem metros da festa, os mortos da terra repousavam ao som da saudade cantada pelo trovador. Recordei o meu sogro. Bebi uma mini e fui deitar-me.

Oliva
Julho 21, 2009
A fábrica da Oliva faz parte das nossas lembranças. Eu recordo o dia em que o meu avô me ofereceu uma bicicleta verde de corridas Oliva. Da minha madrinha assar uma galinha todos os domingos num fogão a lenha Oliva. Da minha mãe me dar banho numa banheira Oliva. Do barulho certeiro pelo silêncio da noite do pedal da máquina de costura Oliva.
A Oliva era um gigante nacional. Empregava milhares de operários. Ocupava milhares de hectares quase no centro de São João da Madeira. A Oliva era a marca do sucesso. Do império.
Hoje resume-se a uma pequena empresa em lay-off. A grande Oliva desapareceu. Resta as memórias de quem lá laborou. Resta o gigante edifício, colossal, decadente, cor de ferrugem e abandonado.
A Câmara Municipal de São João da Madeira comprou as paredes da Oliva. Lá irá nascer um Centro de Arte Moderna.
A Oliva renascerá com o seu esplendor e também eu vou recuperar a abandonada bicicleta verde que o meu avô me ofereceu, com o sonho de o neto ser um dia ciclista.
http://static.publico.clix.pt/fotogalerias/fotogalerias.aspx

Ferreira, e Agora?
Julho 16, 2009
O Presidente do Governo Regional da Madeira quer que a nova Constituição da República Portuguesa proíba o Comunismo.
Todos sabemos como o senhor Presidente é adepto ferranho do líquido escocês.
