Real?
Março 29, 2009
Existem muitos escravos. Os fotógrafos são um exemplo. Muitos são escravos da sua própria máquina e reféns da técnica. Fotografam preocupados com os píxeis, com o sincronismo do Flash, com a velocidade do auto-focos ou com as dominantes.
Fotografam secundarizando a estética. O que vale uma fotografia, por mais bem sucedida que seja no plano técnico, se não nos belisca? Já olhei milhares de imagens. Já detestei ou ignorei muitas fotografias focadas e admirei ou me apaixonei por muitas fotografias desfocadas.
Fotografar é um acto de loucura. É brincar com um objecto a quem lhe chamaram de Máquina Fotográfica. É não pensar amedrontado no botão do lado mas arriscar toda a energia na interpretação do olhar, sempre diferente, tenaz e audaz. Sentir prazer e nunca ter a tentação de reproduzir a realidade.
A fotografia desmonta o real. A realidade em fotografia não existe. Existem milhares de realidades. As realidades da interpretação de cada um, que sente as mais variadas sensações ao ler uma imagem que o prende, que o domina. Boa, é aquela fotografia que não nos deixa dormir.
Até mesmo a fotografia do BI não mostra quem somos.

Altivez
Março 26, 2009
Quando Cavaco Silva foi 1º Ministro encerraram centenas de quilómetros de via-férrea. Estávamos na era do alcatrão.
Ontem José Sócrates mandou encerrar as linhas do Corgo e do Tâmega. Estamos na era do TGV.
Sem aviso! Sem nada o prever! Justificação: segurança. Falta de segurança numa linha que foi alvo de requalificação há muito pouco tempo.
A população não entende. Não foi avisada. Acham uma “canalhice”. Crianças que vão todos os dias para a escola, trabalhadores que vão todos os dias para o emprego, reformados que passeiam ou vão ao médico ficaram ontem sem comboio. Para sempre como diz alguém, porque histórias destas já são contadas à 20 anos onde foram encerrados 402 quilómetros só na Região Norte.
Altivez e falta de respeito. E assim se governa Portugal.

Cassete Pirata
Março 18, 2009
A cassete já não se fabrica mas existem pessoas que ainda a usam. José Sócrates é um deles.
Se a campanha negra é música velha com novo nome, bem podia usar a teoria da cabala, a música pimba sobre manipulação é a eleita de Sócrates. Não pode ver muita gente junta que fica irritado e logo usa uma canção antiga, os manipulados pelo PCP. A novidade é que José Sócrates acrescentou o BE. Mera cosmética eleitoral.
Juntar duzentos mil manipulados não é tarefa fácil. Bem sabemos que Sócrates juntou uns três mil há poucas semanas em Espinho no Congresso do PS. Porque para o Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do Partido Socialista, a liberdade de opinião e manifestação não passa de um exercício de seres manipuláveis sem vontade própria e sem ideias. Aparecem porque os mandam aparecer. Gritam porque os mandam gritar. Aplaudem porque os mandam aplaudir.
Perante tamanha crise social a UGT não se manifesta e até concorda com a revisão do Pacote Laboral. Será caso para perguntar se os sindicalistas da UGT estão a ser manipulados por José Sócrates. E já vai tão alta a minha indignação, que Senhor Primeiro-Ministro, se mais uns duzentos mil manipulados saírem à rua eu lá estarei para gritar basta!
Não nos manipule, engenheiro Sócrates.

Aníbal
Março 10, 2009
Anthony Robbins

Vidas
Março 3, 2009
Descobri um simples museu do mineiro em São Pedro da Cova. Lá dentro, peças dispostas pelos quatro cantos de uma sala grande narram a história dos muitos que trabalharam na extracção do minério.
Numa mesa já com caruncho, fotografias tipo passe estão alinhadas e coladas a um grande cartão. Escrito à mão e por baixo de cada uma, o nome de cada operário ou operária. Olho nos olhos de cada retrato e sinto a tentação de saber que vida está por de trás de cada imagem. Como o sr. José, personagem do livro Todos os Nomes de José Saramago. Alucinado, obcecado. Como uma travagem repentina, os meus olhos param num rosto. Uma criança. E mais uma. E outra. E ali uma menina. Crianças operárias que não riam para a máquina fotográfica. Não iam à escola. Iam para as minas. Não brincavam. Trabalhavam.
Na SIC está a passar o segundo episódio da série A vida privada de Salazar. Senti vergonha.

Toma!
Março 1, 2009
Pai, onde foste?
Ao congresso do Sócrates, filho.
Bolas, és mesmo daaaaaaaaaaa!!!!!

Espinho Tropical
Março 1, 2009
Já fui politicamente activo. Uma vez fui a uns jantares, e desde então, não sei que fundo de gaveta guarda o meu cartão de militante. Já bati palmas em comícios, já colei cartazes do Vital, já participei em congressos.
Quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, não respondia médico nem aviador mas sim deputado. Hoje já sou um pouco grande e o meu único acto político é só quando faço a cruz no quadradinho, sempre no mesmo símbolo.
Este fim- de -semana fui ao congresso do PS. Um congresso muito pouco alegre. Monótono, a uma só voz, Sócrates celebrou a missa e os crentes aplaudiram.
Ao mesmo tempo que mais uma empresa em Espinho encerrava as portas, o congresso do PS parecia uma ilha tropical, tal eram proclamados os êxitos da governação Sócrates, ao som de música triunfante e ao sabor de cocktails explosivos de show off.
O pano caiu e o povo saiu. A ilha desapareceu.

Alfredo
Março 1, 2009
O encontro estava marcado junto à praia. Foi lá que pela primeira vez apertei a mão ao colega Alfredo Mendes. Caminhámos junto ao mar e fiquei a saber como neste país se descarta um trabalhador.
Alfredo tinha a mágoa na voz e a revolta no olhar. Num minuto foi despedido. Fora do gabinete do director adjunto, como os condenados que se encostam à parede de olhos vendados, os trabalhadores iam sendo chamados um a um. Verdadeira lotaria. Uns ouviram o seu nome outros não.
Muitos foram despedidos. Porquê Alfredo? Não sei!
Alfredo Mendes era jornalista do Diário de Notícias há 32 anos. Com ele a Controlinveste despediu mais 121 trabalhadores de uma forma injusta, imoral e desumana.
Caminhando ao sabor do vai e vem das ondas, o injustiçado olha para a minha objectiva e sinto que em cada fotograma que faço construo um pedaço de um espelho. Alfredo, a que horas chegará o meu minuto?

Homem Bala
Fevereiro 6, 2009
A gigante tenda do circo Mundial quase que cedia ao peso da chuva que teimosamente caia em Coimbra. Lá dentro, crianças olhavam desconfiadas para o canhão molhado que entrava pela abertura da tenda.
Um homem de barriga empinada e com rugas de vida, preparava o canhão atómico, como ele lhe chama, para mais um disparo a 200 quilómetros hora, diz ele e os cartazes de publicidade ao circo.
Cinco, quatro, atenção meninos e meninas tapem os ouvidos, três, dois, um! e o Homem Bala sai disparado e voa até cair numa rede. Coxeia e só pode levantar um braço para agradecer ao público algo confuso com o barulho da pólvora seca e com a queda de Luis Muñoz.
Uma reportagem de Susana Almeida Ribeiro e Adriano Miranda em:
Caderno P2 do Público de 06 de Fevereiro de 2009
http://static.publico.clix.pt/docs/sociedade/homembala/

Margem
Fevereiro 1, 2009
Aqui há nortada, lagartos,algumas cobras uma reportagem com texto de Ana Cristina Pereira e fotografia de Adriano Miranda.
Um acampamento cigano em Viana do Castelo entre o arvoredo onde cinquenta e sete pessoas vivem em condições sub-humanas e completamente marginalizadas há mais de quarenta anos. Têm nojo. Como nós mora aqui, pensam que nós não toma banho, que não lava a cabeça.
Hoje na Pública e em: http://static.publico.clix.pt/docs/Portugal/ciganosvianacastelo/
