Giões
Agosto 22, 2009
As férias acabaram. Quase um mês sem vestir calças nem sapatos. Só sol. Como o dinheiro nas minhas mãos não se multiplica, este ano fomos (eu, a Paula, o João e o Filipe) para casa da sogra no Algarve. E como José Sócrates considera que com os meus rendimentos já pertenço à classe média (Sarkozy considerar-me-ia da classe baixa) ter uma casa algarvia é um luxo e um desejo de muitos lusitanos.
Tive sorte. No meio de alguns namoros fui atrás da moura encantada e a muito custo lá descobri no mapa a sua aldeia. Claro que a moura tinha mesmo muito encanto. E para que não restem dúvidas (ela tem por hábito ler este blog) ainda tem o mesmo encanto e mais alguns. A aldeia dá pelo nome de Giões e fica no concelho mais pobre de Portugal, Alcoutim. Encravada nos montes de estevas o casario branco brilha ao longe. O sol queima teimosamente e a noite é repleta de estrelas. No verão a aldeia fica cheia de homens, mulheres, jovens, crianças. No único café repartem as mesas e as conversas. As crianças andam de bicicleta, jogam à bola. Giões no verão é uma comunidade onde os medos e os preconceitos da cidade ficam esquecidos, enterrados. Giões no inverno é quase fantasma.
Aprendi a caminhar pelos montes áridos. Apanhar amêndoas e parti-las com as pedras dos muros. Abrigar-me do sol na copa de uma figueira e degustar figos. Apreciar a rapidez dos coelhos e das lebres e a audácia das perdizes. Ali sinto o olhar sereno e contemplo os campos abandonados, os currais destruídos, os ribeiros secos, as amendoeiras mortas. Ali existe um animal em vias de extinção, o Homem.
Algumas mulheres arregaçaram as mangas e formaram a Associação Grito d’ Alegria, Amigos de Giões. Para que aquela terra não morra. Tornei-me sócio.
A música voava pelo céu. Dançava-se. Bebia-se. Cantava-se. A festa de Giões este ano está magnífica, dizia um velho. Lá no cimo, a uns cem metros da festa, os mortos da terra repousavam ao som da saudade cantada pelo trovador. Recordei o meu sogro. Bebi uma mini e fui deitar-me.
