Timor de Todos Nós

Julho 13, 2009

Morreu Manuel Carrascalão. O meu pai, João Miranda, brincou com Carrascalão nas ruas de Dilí. Tudo começou assim.

O meu avô Manuel Simões Miranda com Manuel Carrascalão, pai de Manuel Carrascalão, e outros camaradas, foram presos após o golpe fascista de Oliveira Salazar em 1926. O crime era pensar diferente.

Presos sob as grades da cadeia de Monsanto, prepararam uma fuga escavando um túnel. A fuga falhou. Todos foram deportados para Timor em 1927. Sem julgamento nem condenação.

A viagem demorou seis meses. Dentro do porão de um navio, convivendo com ratos, com falta de higiene e mal nutridos chegaram a Timor. Ficaram presos numa pequena prisão a uns quilómetros de Díli.

Foram libertados. Libertados significava somente deixarem de estar encerrados em quatro paredes. Timor era uma ilha prisão. Desterrados. Nunca mais voltariam a Portugal.

O meu avô Manuel casou com Laura Ximenes. Timorense que fumava e mascava. Teve 4 filhos. Abriu uma padaria. Mas o seu sonho continuava a ser o mesmo. Liberdade para o seu povo.

Com a Segunda Grande Guerra o Japão invade Timor. Toda a população é massacrada. O meu avô vai lutar contra o invasor bárbaro. A sua casa é invadida pelas tropas nipónicas. O meu tio Manuel com três anos, o meu pai João com oito anos e um primo de nome Marcelino fogem para as montanhas. Lembro-me de o meu pai me contar que estava a comer cana doce quando viu os japoneses. Choravam ao ouvirem o barulho dos tiros. A terra saltava sobre os seus corpos frágeis levantada pelas balas mortíferas. Os japoneses disparavam à sorte por entre o capim alto. Marcelino é capturado e degolado. Tinha onze anos.

Perdidos no meio do mato as duas crianças comem raízes, ervas, casca de canela e batar-ut  para sobreviverem. Conseguem juntarem-se a outros fugitivos. Fizeram uma palhota de bambu coberta de capim. Mas a Seita Negra encontra-os. Fogem novamente.

A minha avó Ximenes é presa num campo de concentração japonês. O meu avô volta a casa para recuperar os filhos. Não os encontra. No cais de Díli está um barco pronto a partir para a Austrália com refugiados. O meu avô sobe. Procura os filhos. Mais uma vez não os encontra. Pereirita, um camarada seu também deportado, tenta convencer o meu avô a partir. Seria a sua liberdade. Rejeita. Não abandona Timor, o seu maior sonho, sem os filhos.

Vai para as montanhas em busca dos filhos João e Manuel. Morre sozinho, doente e no meio do mato. Tinha quarenta anos.

O meu pai e o meu tio chegaram junto do Oceano Pacífico num dia quente. Viram um barco ao longe. Destruíram uma palhota construída sobre a areia. Lançaram fogo ao capim e bambus ressequidos. O navio correspondeu ao pedido de ajuda e enviou uma baleeira.

O meu pai João e o meu tio Manuel foram os primeiros a embarcar. Viajaram para Ataúro e recebidos por soldados australianos. Foram curadas as bolhas e feridas com sulfato de cobre e alimentados os estômagos e os corações.

Depois partiram para um campo de refugiados na Austrália. No verão de mil novecentos e quarenta e quatros embarcaram num navio inglês para Lourenço Marques. Permaneceram aí três meses até que partiram para Portugal.

Desembarcaram em Alcântara. Sozinhos no cais, são recolhidos pela polícia e entregues à Casa Pia. Mais tarde a família descobre que estão na Casa Pia e finalmente alguém lhes dá o amor que a guerra lhes roubou. Foi o meu avô João, irmão do meu avô Manuel.

João, o meu avô,  vivia em Lisboa, e sempre que algum barco chegava de África ou de Timor levava uma fotografia do meu avô Manuel e empunhava-a no ar na esperança de ele regressar. Nunca regressou nem se sabe se foi sepultado.

Como Manuel Carrascalão o meu pai também já morreu. O meu tio Manuel e o meu tio José estão vivos. Recordo o meu pai com admiração. Não teve infância. Não foi menino. Por isso foi tão bom pai.

Passados trinta e cinco anos do vinte cinco de Abril em que se denunciaram tantos crimes do fascismo, seria justo recordar os Homens que foram desterrados para Timor e lá morreram pela Liberdade.

adriano miranda timor