Oliva
Julho 21, 2009
A fábrica da Oliva faz parte das nossas lembranças. Eu recordo o dia em que o meu avô me ofereceu uma bicicleta verde de corridas Oliva. Da minha madrinha assar uma galinha todos os domingos num fogão a lenha Oliva. Da minha mãe me dar banho numa banheira Oliva. Do barulho certeiro pelo silêncio da noite do pedal da máquina de costura Oliva.
A Oliva era um gigante nacional. Empregava milhares de operários. Ocupava milhares de hectares quase no centro de São João da Madeira. A Oliva era a marca do sucesso. Do império.
Hoje resume-se a uma pequena empresa em lay-off. A grande Oliva desapareceu. Resta as memórias de quem lá laborou. Resta o gigante edifício, colossal, decadente, cor de ferrugem e abandonado.
A Câmara Municipal de São João da Madeira comprou as paredes da Oliva. Lá irá nascer um Centro de Arte Moderna.
A Oliva renascerá com o seu esplendor e também eu vou recuperar a abandonada bicicleta verde que o meu avô me ofereceu, com o sonho de o neto ser um dia ciclista.
http://static.publico.clix.pt/fotogalerias/fotogalerias.aspx

Ferreira, e Agora?
Julho 16, 2009
O Presidente do Governo Regional da Madeira quer que a nova Constituição da República Portuguesa proíba o Comunismo.
Todos sabemos como o senhor Presidente é adepto ferranho do líquido escocês.

Timor de Todos Nós
Julho 13, 2009
Morreu Manuel Carrascalão. O meu pai, João Miranda, brincou com Carrascalão nas ruas de Dilí. Tudo começou assim.
O meu avô Manuel Simões Miranda com Manuel Carrascalão, pai de Manuel Carrascalão, e outros camaradas, foram presos após o golpe fascista de Oliveira Salazar em 1926. O crime era pensar diferente.
Presos sob as grades da cadeia de Monsanto, prepararam uma fuga escavando um túnel. A fuga falhou. Todos foram deportados para Timor em 1927. Sem julgamento nem condenação.
A viagem demorou seis meses. Dentro do porão de um navio, convivendo com ratos, com falta de higiene e mal nutridos chegaram a Timor. Ficaram presos numa pequena prisão a uns quilómetros de Díli.
Foram libertados. Libertados significava somente deixarem de estar encerrados em quatro paredes. Timor era uma ilha prisão. Desterrados. Nunca mais voltariam a Portugal.
O meu avô Manuel casou com Laura Ximenes. Timorense que fumava e mascava. Teve 4 filhos. Abriu uma padaria. Mas o seu sonho continuava a ser o mesmo. Liberdade para o seu povo.
Com a Segunda Grande Guerra o Japão invade Timor. Toda a população é massacrada. O meu avô vai lutar contra o invasor bárbaro. A sua casa é invadida pelas tropas nipónicas. O meu tio Manuel com três anos, o meu pai João com oito anos e um primo de nome Marcelino fogem para as montanhas. Lembro-me de o meu pai me contar que estava a comer cana doce quando viu os japoneses. Choravam ao ouvirem o barulho dos tiros. A terra saltava sobre os seus corpos frágeis levantada pelas balas mortíferas. Os japoneses disparavam à sorte por entre o capim alto. Marcelino é capturado e degolado. Tinha onze anos.
Perdidos no meio do mato as duas crianças comem raízes, ervas, casca de canela e batar-ut para sobreviverem. Conseguem juntarem-se a outros fugitivos. Fizeram uma palhota de bambu coberta de capim. Mas a Seita Negra encontra-os. Fogem novamente.
A minha avó Ximenes é presa num campo de concentração japonês. O meu avô volta a casa para recuperar os filhos. Não os encontra. No cais de Díli está um barco pronto a partir para a Austrália com refugiados. O meu avô sobe. Procura os filhos. Mais uma vez não os encontra. Pereirita, um camarada seu também deportado, tenta convencer o meu avô a partir. Seria a sua liberdade. Rejeita. Não abandona Timor, o seu maior sonho, sem os filhos.
Vai para as montanhas em busca dos filhos João e Manuel. Morre sozinho, doente e no meio do mato. Tinha quarenta anos.
O meu pai e o meu tio chegaram junto do Oceano Pacífico num dia quente. Viram um barco ao longe. Destruíram uma palhota construída sobre a areia. Lançaram fogo ao capim e bambus ressequidos. O navio correspondeu ao pedido de ajuda e enviou uma baleeira.
O meu pai João e o meu tio Manuel foram os primeiros a embarcar. Viajaram para Ataúro e recebidos por soldados australianos. Foram curadas as bolhas e feridas com sulfato de cobre e alimentados os estômagos e os corações.
Depois partiram para um campo de refugiados na Austrália. No verão de mil novecentos e quarenta e quatros embarcaram num navio inglês para Lourenço Marques. Permaneceram aí três meses até que partiram para Portugal.
Desembarcaram em Alcântara. Sozinhos no cais, são recolhidos pela polícia e entregues à Casa Pia. Mais tarde a família descobre que estão na Casa Pia e finalmente alguém lhes dá o amor que a guerra lhes roubou. Foi o meu avô João, irmão do meu avô Manuel.
João, o meu avô, vivia em Lisboa, e sempre que algum barco chegava de África ou de Timor levava uma fotografia do meu avô Manuel e empunhava-a no ar na esperança de ele regressar. Nunca regressou nem se sabe se foi sepultado.
Como Manuel Carrascalão o meu pai também já morreu. O meu tio Manuel e o meu tio José estão vivos. Recordo o meu pai com admiração. Não teve infância. Não foi menino. Por isso foi tão bom pai.
Passados trinta e cinco anos do vinte cinco de Abril em que se denunciaram tantos crimes do fascismo, seria justo recordar os Homens que foram desterrados para Timor e lá morreram pela Liberdade.

Vinte Valores
Julho 4, 2009
É a primeira vez que edito no 400asas uma fotografia que não é da minha autoria. Não pela triste atitude do ex-ministro Manuel Pinho, mas pelo brilhante profissionalismo de Nuno Ferreira Santos.
Nuno é meu colega no jornal Público. Foi o único fotojornalista presente no hemiciclo a conseguir fotografar o acto mais triste de Pinho. Todos os outros falharam.
Mas Nuno não se limitou a dar-nos o prazer de ver a sua fotografia. Todas as imagens do destaque do Público [03.07.09] sobre o estado da nação são de uma acutilância extraordinária. Os deputados a verem a fotografia de Nuno na edição on-line do Público. A outra, Sócrates no centro e o Ministro das Finanças de um lado e do outro uma cadeira vazia.
Isto tem um nome, Fotojornalismo. Nuno soube interpretar na perfeição tudo o que se passou naquela sala do parlamento. Atento, astuto, informado, inteligente e rápido. E porque as tecnologias são para se usar, admito o prazer que Nuno sentiu nas bancadas da Assembleia ao fotografar os deputados a verem a fotografia que acabara de fazer. Uma fotografia checkmate. Uma fotografia de morte.
Confesso que senti alegria como colega de Nuno e como fotojornalista do Público. O meu jornal, meu porque gosto demasiado dele, brilhou como sempre nos habituou. Na Fotografia do Público existe uma regra como o sangue que nos corre nas veias. Temos que ser bons e melhores que os outros. Nuno Ferreira Santos foi e com ele fomos todos nós.
E em tempos de crise em que o papel do fotojornalista está seriamente ameaçado dentro das redacções dos jornais, será bom que quem manda, aprenda com os êxitos e perceba que a linguagem fotográfica é imprescindível na força que é informar. Por mais engenharia financeira que se faça para reduzir custos despedindo fotojornalistas, com a ideia medíocre que fotografar qualquer um faz, nada vai valer a pena. O maior custo será a falta de qualidade e notoriedade, a perda de identidade editorial e o definhamento de leitores.
Nuno demonstrou sabiamente que o caminho não é por aí.
Obrigado.

Insulto
Julho 2, 2009
Em Abril de mil novecentos e setenta e quatro tinha oito anos. A partir do dia vinte cinco comecei a aprender novas palavras como, liberdade, política, comunismo, socialismo, fascismo e até badamerda, palavrão usado por Pinheiro de Azevedo quando era primeiro-ministro se a memória não me atraiçoa.
Não por causa da merda mas muito mais pela liberdade comecei logo a nutrir um grande interesse pela política. Até sonhei em ser deputado. Ministro nunca esteve nos meus horizontes.
Já passaram trinta e cinco anos e nunca me sentei na AR a não ser nas bancadas.. Continuo a gostar muito de política.
Quando li em rodapé no Telejornal que o Ministro das Finanças acumulava a pasta da Economia, não descansei enquanto não descobri o que teria acontecido a Manuel Pinho. Rapidamente a imagem do dia se difundiu no meu ecrã. Rosto desvairado com dedos chifrudos. Bernardino Soares insultado. Deputados insultados. Assembleia da República insultada.
Logo senti saudades de Álvaro Cunhal, Mário Soares e Sá Carneiro.
O ministro da papa Maizena ou da mão de obra barata (declarações na visita oficial à China) mesmo depois do insulto, estava convencido que não seria demitido pelo simples facto de ter safado muitos postos de trabalho. Manuel Pinho tem mesmo sentido de humor.
Agora vai de férias na esperança de safar o seu posto de trabalho numa qualquer administração de uma empresa. Será curioso saber qual.
