Gripe
Junho 30, 2009
Com o trauma da queda da aeronave francesa sobre as águas do Atlântico e a pandemia de Gripe A, o meu chefe enviou-me para o México. Confesso que fiquei assustado e em casa quase que tive as malas à porta.
Se da queda nada me salvaria, já da Gripe fui mais que prevenido por imposição responsável da minha entidade patronal. Não me faltaram máscaras, toalhetes com álcool, termómetro e o tão procurado Tamiflu. Fiz as malas com algum receio confesso.
Não rezei porque não sou de rezas mas até o facto de não ter escrito um testamento me perturbou. Mas escrever o quê? A hipoteca da casa? Pensando bem, nada iria acontecer.
Afinal, muita coisa aconteceu.
Cheguei e fui despejado numa cápsula que dava pelo nome de Resort Bahia Príncipe Tulum. Recebido com um show Mariachi e um cocktail com Canapés o luxo parecia estar à minha espera. Anilhado com uma pulseira dourada tive direito a um Tudo Incluído para VIP’s.
Com vida de rico, longe de Sócrates e com o mar do Caribe quase a banhar os pés da minha cama senti-me o homem mais feliz do mundo. O calor abria os poros e despertava as hormonas afogadas constantemente em tequilhas, morritos ou margaritas.
E se a barriga fosse de muito alimento não faltava comida vinte e quatro horas por dia. Parecia estar numa boda, daquelas em que o pai da noiva tem que contrair um empréstimo bancário para alimentar as centenas de convidados que além de trincharem o leitão e o bacalhau com natas, também comem a noiva com os olhos que a terra também há-de comer.
Ver Chichen Itza e Ekbalam, as pirâmides Maia, aquelas que sempre me habituei a ver nos compêndios de História, não foi muito excitante. Milhares de turistas e centenas de vendedores de artesanato quase abafavam as gigantes estruturas. Como dizia Jorge, o guia, aqui a artesania quase sempre é gato e raramente é lebre. Mas o que importa. Em primeiro lugar a nossa mãe ou a nossa tia irão gostar da pirâmide ou da boneca, que ficará muito bem na cozinha junto ao galo de Barcelos ,ou na sala junto a Nossa Senhora de Fátima. E segundo, o dólar ou o euro é negociável.
Bom, mas mesmo bom, eram os banhos na piscina do resort às três da manhã e quase sempre a chover torrencialmente. Estranho porque sempre me disseram que quando chove devemos mantermo-nos resguardados sob pena de contrairmos uma gripe daquelas de caixão à cova. Mas na Riviera Maya a chuva convida a um belo banho seja a que horas forem. E o bar está sempre aberto para uma bela Margarita…
Sei que fiz um pouco figura de parolo. Daqueles portugas, que trabalham um ano inteiro para depois esturrarem milhares de euros em pacotes de uma semana onde ficam de papo para o ar a enfardarem tudo o que lhes aparece pela frente. Depois o vizinho pergunta Então como é o México? É lindo, tem piscinas maravilhosas e come-se muito bem, E as gajas? Ui era com cada americana.
Sou sincero. Fiz figura de parolo. Só houve um dia em que furei o bloqueio da cápsula e parti à descoberta do outro México. Aquele México que só conhece os resortes porque lá trabalha. Aldeias no meio dos mangais com povo carinhoso. Aldeias de pessoas como eu. Pensei, ficaria aqui um mês, um ano.
Quando o avião se fez à pista para atravessar de volta o Atlântico, lembrei-me novamente do testamento. Decidi escrever nas costas do programa da viagem com a esperança que se acontece-se alguma tragédia, este meu testamento fosse encontrado; Que o pouco dinheiro que tenho no banco seja usado para os meus dois filhos conhecerem todas as aldeias do mundo. Beijos. Adriano Miranda.
Regressei sem gripe só um pouco mais bronzeado.
http://static.publico.clix.pt/docs/mundo/agripeinventada/

João
Junho 26, 2009
Já plantei algumas árvores. Já escrevi com imagens alguns livros . Já tive dois filhos. Já poderei morrer descansado.
Hoje o meu filho João passou para o quinto ano. Fui com ele buscar as avaliações. Senti um orgulho contido não fosse o entusiasmo fazer-me gritar em plena sala de aula. Sempre Satisfaz Bem ou Satisfaz Muito Bem. Foi sempre assim desde o primeiro ano. Um Satisfaz nunca, muito menos um Não Satisfaz.
O João é o meu Herói desde que deu os primeiros sinais de vida dentro da barriga de uma mãe vaidosa. Ainda me lembro do segundo em que o conheci. Cara a cara, olhos nos olhos. Estranho o primeiro segundo. Maravilhoso todos os outros minutos, todas as outras horas, todos os outros dias, todos estes anos.
Gosto de olhar o João sem ele me olhar. Gosto de o apreciar. Gosto do seu rir intenso. Gosto da sua infantilidade. Gosto quando se zanga e tem razão. O João é lindo.
No domingo faz dez anos. Vou abraçá-lo. Sentir o seu carinho e desejar que chegue ao três dígitos.

Génio
Junho 10, 2009
O pai de um colega do meu filho João estava desempregado. Todos os dias saía de casa pela sete horas da manhã para que o filho de nove anos não se apercebe-se do drama do pai.
Drama, que só de pensar perturba. Eu sinto um buraco negro. Todos os dias pelas sete horas da manhã tenho a alegria de ir trabalhar. Mantenho a alegria mas o buraco negro em forma de pânico começa a alastrar. Dou comigo a olhar o infinito com uma vontade enorme de ver o futuro passar. Sinto vontade de ser velho, daqueles velhos que sabem que todas as horas de respiração são mais uma vitória sobre a morte. Velho, para já não me poderem despedir. Velho, para ainda conseguir ter reforma. Velho, para ver os meus dois filhos adultos e encaminhados. Velho, para poder morrer com o dever cumprido.
Lutei sempre para ser feliz e nunca pensei chegar aqui. Viver ou sobreviver num país financeiramente selvagem. Cruel na sua economia. Socialmente cada vez mais desumano e imoral. Sinto-me triste e quase derrotado. Impotente.
Fui buscar o meu filho João à escola. Olhei-o de longe. Ele correu em esforço devido ao peso da mochila. Pai, tenho uma surpresa, Qual ? Tirei satisfaz muito bem a Matemática, Parabéns e como correu o de Língua Portuguesa? Correu muito bem e na segunda tenho a Estudo do Meio e já sabes, vai ser cem por cento ou não seja eu o génio. Afaguei-lhe a cabeça e ri de contente. Ele auto-intitula-se o Génio do Estudo do Meio.
São tantos os Génios assim que Portugal necessita. Honestos, sinceros, convictos, trabalhadores, alegres a cem por cento.

Foi Assim
Junho 2, 2009
Ainda me lembro como se tivesse sido hoje. Descia a rua do Carmo quando encontrei o meu amigo Luis Filipe Catarino fotógrafo no jornal Expresso. Fiquei a saber que no jornal Público existia uma vaga para um fotógrafo.
Disse ao Catarino que não tinha jeito para essas coisas do fotojornalismo, mas ele insistiu. Telefona, Para quem? Para o Luís Vasconcelos, Vou tentar…
Foi no Campo das Cebolas que coloquei a moeda no telefone público e ouvi a voz de Vasconcelos. No dia seguinte entrei na redacção do Público pela primeira vez. Estava nervoso e senti o cheiro a tabaco que me atrapalhou a voz. Luís Vasconcelos olhou as minhas fotografias e perguntou Porque é que só agora apareces-te aqui, Não sei, acho que sou tímido, Quando podes vir para cá? Bem, já? é que me vou casar, Então casa-te que depois eu telefono-te.
Luís foi um homem de palavra. Telefonou numa tarde e na manhã seguinte já estava a contrair matrimónio pela segunda vez, agora com o Público.
Já são treze anos de casamento sem adultério. Gosto do Público.

Um Novo Blog do Público
Junho 1, 2009
O Rio Alviela transbordou repentinamente. Luís Filipe Sebastião, meu colega redactor, chorava e tremia ao volante do seu velho Peugeot. A água estava quase a imobilizar o carro. Gritava-lhe, com a porta aberta para ver o nível da água a subir, “Dá acelerador e embraiagem ao mesmo tempo”.De repente, centenas de ovelhas atravessaram-se no nosso caminho. Estavam a morrer afogadas. Os pastores sofriam. Saltei do carro e deixei o Sebastião a chorar. Fotografei até a água me dar pela cintura. Por fim, ajudei a salvar ovelhas.Fiz uma das minhas primeiras páginas. Fiquei feliz. Pela manhã agarrei o Público com afinco. Esqueceram-se de assinar a fotografia!Ainda cá estou!
ADRIANO MIRANDA
