5%
Maio 22, 2009
Hoje estava dentro do carro e um velhote passou. Com a bicicleta pela mão que as pernas já não ajudam, e com a pele enrugada pelo sol e pela terra, deu-me os bons dias com um ar fraterno. Respondi da mesma maneira e perguntei Então a vida corre? Vamos vivendo um dia de cada vez. Amanhã estaremos cá. Vamos ver, pelo menos em pé. Pois, deitados é que não, respondi eu olhando aquele corpo magro, mal vestido e com a história da vida sofrida bem estampada no rosto. No rádio a notícia de que o Banco de Portugal recuou nos aumentos salariais de Victor Constâncio fez com que os meus olhos olhassem o homem da bicicleta pela última vez.
Por lapso o governador do Banco de Portugal não viu o seu salário ser aumentado 2,1% em 2008. Por isso em 2009 seria aumentado 2,9% e corrigido o engano de 2008, ou seja, era aumentado 5%. Com ele também Amado da Silva, administrador da ANACON e Manuel Sebastião administrador da Autoridade da Concorrência e ex- governador do Banco de Portugal, seriam também contemplados com 5% de aumento salarial.
Nos tempos que correm não sei o que podemos chamar a estes 5%. Os quinhentos mil desempregados, os milhares de precários e os dois milhões de pobres, saberão adjectivar bem Victor Constâncio e companhia.
Será que sabem o que é andar com a bicicleta pela mão?

Comer
Maio 15, 2009
O David Lopes Ramos que me desculpe mas no sábado cometi um pecado. Jantei num restaurante que por nada deste mundo ele recomendaria.
A sala era enorme. Cabiam lá trezentas bocas. Pagámos por cabeça doze euros e comemos e bebemos como nobres romanos em noite de deboche e luxúria. Durante duas horas os maxilares do povo não pararam. Entre o agora leitão e o já vou ao camarão, um arroto, um esfregar de barriga, uma taça de espumante e já provas-te o polvo, já lá vou que agora estou no bacalhau. O povo comia e na mesa do lado um homem agarrado à picanha não largava a mão da amante. Ela tinha estampado nos olhos a noite que a esperava enquanto trincava eroticamente o copo de vinho tinto. Um grupo de homens talvez tenha comido um leitão. E entre o esgaçar da carne, os olhos dos homens não paravam de comer a tatuagem que embelezava o fundo das costas da empregada. Noutro canto um homem solitário entregava-se ao branco. Com o palito no canto da boca cerrava os olhos como o caçador na hora da mira.
O povo transpirava. Uma mulher de cavas e de mamas fartas trocou o grão-de-bico pelo arroz de feijão para não engordar. Um empregado baixo e barrigudo não parava de trocar os pratos e em pequenos papéis espalhados pelas mesas podia-se ler, proibido levar comida para casa.
A música começou com um órgão a debitar sons de vários instrumentos. As mulheres foram bailar e os homens continuaram a malhar. O presunto é mesmo bom, vai buscar mais uma de espumante, e enquanto umas bailavam e outros malhavam, nos quatro plasmas crucificados nas paredes o Benfica continuava a perder.
O povo continuava alegre e naquela sala de trezentas bocas ninguém pensava na crise, no Sócrates e muito menos em Leite, no desemprego ou no Benfica. De barriga cheia o povo era feliz.
